*Com a colaboração do jornalista Sandoval Matheus
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, revelou pela primeira vez no domingo, 16, como recebeu o convite para ocupar a pasta no Governo Lula, pouco depois da eleição de 2022. Ela contou a história no fim da tarde, durante sua participação no I Encontro do Programa Nacional dos Comitês de Cultura, que acontece em Brasília.
“Eu tinha ido dormir com uma dor de cabeça terrível, o que pra mim não é comum, tenho uma saúde muito boa”, relembrou. “Quando acordei, resolvi ir pro hospital. Estava lá, tirando sangue e tomando soro, pros médicos entenderem o que estava acontecendo, quando o telefone tocou.”
Era a futura primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja. “Eu nunca tinha falado com a Janja, mas ela me disse que o presidente tinha mandado perguntar se eu aceitava assumir o Ministério. Eu parei de falar, fiquei só ouvindo. Depois, agradeci, mas disse que precisava de um tempo pra pensar.”
Quando desligou a telefone, a ministra diz que começou a rir, sem conseguir parar. “Foi uma completa surpresa. Eu não estava fazendo nenhuma força para aquilo acontecer”, conta. “Quando falei com a minha empresária, Jaqueline Azevedo, ela riu também.”
O prazo negociado com Janja ao telefone era de dois dias, mas durou apenas algumas horas. No dia seguinte, o atual secretário-executivo do Ministério da Cultura (MinC), Márcio Tavares, começou a ligar repetidamente para a ministra. “Fui no axé, consultei os meus oráculos.”
Decisão tomada, foi estabelecido um acordo para que a notícia não fosse parar nos jornais naquele momento da transição. Mesmo assim, a informação acabou vazando. “Foi aí que eu entendi como era o negócio, comecei a ser bombardeada de todos os lados, e não podia falar nada”, rememorou. “Minha assessora de imprensa, que estava acostumada a lidar com artistas, mas não com a política, entrou em pânico.”
Na oportunidade, num auditório com capacidade para cerca de mil pessoas, abrigado numa grande tenda erguida bem no meio da Esplanada dos Ministérios, Margareth Menezes falou um pouco mais sobre sua trajetória de vida. Filha de um motorista e de uma costureira, a ministra cresceu na periferia de Salvador. “Pra ir no cinema você tinha que pegar dois transportes. Não tinha um centro cultural ali, não tinha nada.”
A pequena Margareth descobriu o talento artístico ainda na escola. Dona de uma voz que se destacava em meio aos colegas, mesmo na primeira infância, foi incentivada por um professor de teatro a investir na carreira.
“A partir do momento em que comecei a fazer isso de uma forma mais profissional, tudo se transformou”, garantiu. “Isso mudou a minha vida, da minha família e da minha comunidade. Muita gente no Brasil já foi salva, de uma certa forma, pela arte e pela cultura.”
Em 1986, ela venceu o Troféu Caymmi de Melhor Intérprete. Um ano depois, gravou seu primeiro single, que se tornaria também sua marca registrada, “Faraó, Divindade do Egito”. “Foi a primeira vez que eu toquei nas rádios.”
Em 2004, a ministra inaugurou a Fábrica Cultural, uma associação sem fins lucrativos que tem como missão incentivar o empreendedorismo e o resgate da identidade cultural da Bahia. Ela está licenciada da presidência da entidade desde que assumiu o cargo público. “No dia a dia, pra manter uma ideia de estruturação de uma comunidade, você precisa ter abnegação, não se render”, aconselhou. “Foi assim também na minha carreira. Nada é fácil. O resultado do trabalho é o que traz pra gente as vitórias. Não se pode colocar o dinheiro na frente do trabalho.”
É a filosofia que a ministra também diz levar como atual comandante das políticas públicas culturais brasileiras. “Eu não fiz uma pausa de quatro anos na minha carreira pra fazer cena.”
O que são os Comitês de Cultura
Instalados em todos os estados e no Distrito Federal em abril de 2024, os Comitês de Cultura estão presentes hoje em 24 unidades federativas, com exceção de Amazonas, Rondônia e Sergipe. Formados por organizações da sociedade civil, eles têm a função de ampliar a participação social e o acesso de artistas e produtores a leis de incentivo, verbas de financiamento e demais políticas públicas.
O programa também é formado por mais de 600 agentes de cultura, que promovem ações de mapeamento, comunicação e mobilização social em suas regiões, comunidades e territórios.
*Este material foi elaborado no âmbito da cobertura colaborativa da Rede Comunica Cultura, projeto experimental do Laboratório de Cultura Digital da UFPR, em parceria com o Ministério da Cultura (MinC). Para mais informações acesse o link.
Acompanhe as redes: Instagram (@redecomunicacultura), Facebook, TikTok (@redecomunicacultura) e Youtube.
Bookmark