Há momentos em que a história deixa de ser apenas uma sequência de acontecimentos e passa a ser uma experiência coletiva. A semana da 30ª Parada LGBTI+ de São Paulo foi um desses momentos.
Mais do que uma celebração, vivemos dias de reflexão, produção de conhecimento, construção de cidadania, fortalecimento da democracia e renovação da esperança. A cidade de São Paulo transformou-se em um grande espaço de encontro entre passado, presente e futuro.
Participamos ativamente dos inúmeros eventos que antecederam a Parada. Estivemos em lançamentos de livros, debates políticos, seminários, encontros nacionais, atividades culturais e discussões sobre políticas públicas. Foi uma verdadeira demonstração da riqueza intelectual, cultural e política da comunidade LGBTI+ brasileira.
Um dos momentos mais significativos foi o lançamento de parte da Enciclopédia LGBTI+, uma coleção composta por 28 volumes que registra a história, as lutas, os desafios e as contribuições da população LGBTI+ para a construção da sociedade brasileira. Em tempos de desinformação, preservar a memória é um ato de resistência e um compromisso com as futuras gerações.
Também participamos de debates sobre a população LGBTI+ em situação de rua, sobre direitos humanos, cidadania, políticas públicas e estratégias de enfrentamento às diversas formas de discriminação. Tivemos encontros específicos de pessoas trans, lésbicas, gays e demais segmentos da comunidade, reafirmando que a diversidade é a nossa maior força.
Foi igualmente emocionante participar do lançamento do livro do professor doutor Luiz Mott sobre Xica Manicongo, considerada a primeira pessoa trans registrada na história do Brasil. Sua trajetória remonta ao século XVI e nos recorda que pessoas trans sempre fizeram parte da história brasileira. O que muda ao longo do tempo não é sua existência, mas o reconhecimento de sua dignidade e de seus direitos.
Participamos também do Encontro Nacional das Paradas do Orgulho LGBTI+, reunindo representantes de todas as regiões do país. Foi um momento especial de troca de experiências e de reflexão sobre a trajetória do movimento.
Durante esse encontro, tive a oportunidade de realizar uma análise dos lemas que marcaram as últimas três décadas das Paradas do Orgulho LGBTI+ no Brasil.
Ao revisitar essa história, ficou evidente que nenhum lema surgiu por acaso. Cada um deles expressava uma necessidade concreta do seu tempo. Cada tema representava uma reivindicação legítima e uma proposta de transformação social.
Quando reivindicávamos respeito às nossas famílias, conquistamos o reconhecimento da união estável e posteriormente o casamento civil igualitário. Quando exigíamos políticas de prevenção ao HIV e respeito às pessoas vivendo com HIV e AIDS, ajudamos a construir uma sociedade mais consciente e contribuímos para o fortalecimento das garantias contra a discriminação. Quando levantamos a bandeira do combate à LGBTfobia, colaboramos para uma conquista histórica: o reconhecimento de que a LGBTfobia deve ser enquadrada nos termos da legislação que combate o racismo.
Os lemas das Paradas não foram apenas palavras estampadas em cartazes. Foram instrumentos de mobilização social. Foram ferramentas de educação cidadã. Foram sementes lançadas ao longo de décadas e que ajudaram a transformar a consciência da sociedade brasileira.
No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, a aceitação social das pessoas LGBTI+ era extremamente reduzida. Hoje, embora ainda existam desafios, observamos avanços significativos na percepção social sobre a diversidade humana.
Nada disso aconteceu por acaso.
Foi resultado da coragem de milhares de ativistas, organizações e pessoas comuns que decidiram não se esconder. Foi resultado da ocupação democrática das ruas, das universidades, dos parlamentos, dos sindicatos, das empresas, das igrejas e dos espaços públicos.
Recebemos também observadores internacionais da Espanha, Inglaterra, Irlanda, Escócia, Itália e de outros países, demonstrando que a experiência brasileira continua sendo acompanhada com interesse pelo mundo inteiro.
Outro momento especial foi o jantar comemorativo dos 30 anos da Parada, reunindo lideranças históricas, ativistas, parceiros institucionais e pessoas que ajudaram a construir essa trajetória coletiva.
No domingo, iniciamos o dia em um café da manhã com importantes empresas brasileiras. O tema do encontro foi a educação para a diversidade. Foi uma oportunidade de reafirmar que a inclusão é uma responsabilidade compartilhada entre sociedade civil, iniciativa privada e poder público.
Ao longo do dia, participamos de diferentes atividades e espaços de convivência. No trio principal da Parada, tive a honra de fazer uma fala em defesa dos direitos humanos, do respeito às famílias, da valorização das diferentes expressões religiosas, culturais e sociais presentes em nosso país.
Também fiz um apelo em defesa da redução da escala de trabalho 6×1, entendendo que a dignidade das pessoas trabalhadoras é parte inseparável da luta por uma sociedade mais justa.
O lema da 30ª Parada — “A Rua Convoca, a Urna Confirma” — expressou com precisão o espírito do momento histórico que vivemos.
As ruas são espaços de mobilização, conscientização e resistência.
As urnas são espaços de decisão.
Uma fortalece a outra.
A democracia precisa das duas.
Para mim, que estou há 43 anos no movimento LGBTI+, esse momento teve um significado ainda mais profundo. Ao lado do meu esposo, com quem compartilho décadas de amor, militância e construção coletiva, recordei tempos em que saíamos vestidos de smoking, como dois noivos, chamando a atenção da sociedade para uma reivindicação que parecia impossível: o direito ao reconhecimento das nossas famílias.
Muitos diziam que jamais conquistaríamos esse direito.
Mas a história demonstrou que direitos não surgem por concessão espontânea. Eles nascem da coragem de quem persiste.
Durante a Parada, um jornalista perguntou quantas pessoas eu acreditava que estavam presentes.
Respondi com a sinceridade de quem observava a Avenida Paulista tomada por milhares de pessoas:
“Havia um mar de gente. Havia um oceano de gente.”
Posteriormente vieram os números das pesquisas realizadas por instituições especializadas. São dados importantes. A ciência é importante. Métodos científicos ajudam a compreender a realidade e qualificar o debate público.
Mas existem dimensões da experiência humana que não cabem em estatísticas.
Nenhuma pesquisa consegue medir a esperança.
Nenhum cálculo consegue quantificar a coragem.
Nenhum algoritmo consegue traduzir a emoção de quem finalmente encontra um espaço para existir com dignidade.
Ao observar as imagens da Parada circulando pelos jornais, pelas redes sociais e pelos meios de comunicação de todo o mundo, vi muito mais do que uma multidão.
Vi uma comunidade.
Vi uma história.
Vi gerações caminhando juntas.
Vi o passado dialogando com o futuro.
Vi a democracia ocupando as ruas.
Como cristão, recordo frequentemente uma das mais belas mensagens atribuídas a Jesus: onde duas ou mais pessoas estiverem reunidas em torno de um propósito comum, ali haverá presença, sentido e esperança.
Parafraseando esse ensinamento, acredito que onde houver pessoas reunidas para defender a dignidade humana, a cidadania, a justiça social e os direitos humanos, ali estará presente aquilo que existe de melhor na experiência humana.
A trajetória das Paradas nos ensina uma lição fundamental: nenhuma conquista é definitiva.
A democracia exige vigilância.
Os direitos humanos exigem compromisso permanente.
Por isso, não podemos parar.
Precisamos continuar lutando com coragem, criatividade e ousadia.
Precisamos continuar dialogando com todos os setores da sociedade, inclusive com aqueles que pensam de forma diferente de nós.
Nem sempre esse diálogo é fácil. Muitas vezes somos alvo de preconceitos, ataques, desinformação e incompreensões. Ainda assim, a construção democrática exige firmeza nos princípios e respeito pelas pessoas.
A luta por direitos não é uma luta contra pessoas.
É uma luta por humanidade.
Ao final desses dias intensos, saio da 30ª Parada LGBTI+ com a mesma convicção que me acompanha há mais de quatro décadas de ativismo: vale a pena continuar.
Vale a pena defender a democracia.
Vale a pena defender a Constituição Federal.
Vale a pena defender os princípios inscritos especialmente nos artigos 3º e 5º, que afirmam a igualdade, a dignidade humana e a promoção do bem de todas as pessoas, sem preconceitos ou discriminações.
A rua convocou.
A história registrou.
Agora cabe a cada geração escrever os próximos capítulos.
Nos encontraremos na 31ª Parada em São Paulo!
Toni Reis
