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Ódio às mulheres está na raiz da ascensão da extrema-direita, diz Maria do Rosário

Deputada que enfrentou Bolsonaro já em 2003 tem convicção de que combater a violência de gênero é fundamental para preservar a democracia
Maria do Rosário (PT-RS): leniência da Câmara com Bolsonaro ajudou a plantar semente do golpismo. Foto: Clea Viana/Agência Câmara.

Em novembro de 2003, ainda em seu primeiro mandato como deputada federal, Maria do Rosário (PT-RS) protagonizou um embate, na Câmara, com Jair Bolsonaro, que inicialmente foi visto por muitos como apenas mais uma das pirotecnias verbais vexaminosas e “inofensivas” colecionadas pelo então parlamentar do baixo clero folclórico e inexpressivo.

Na ocasião, ele interrompeu uma entrevista da parlamentar sobre a maioridade penal e, em meio à discussão, afirmou que não a estupraria porque ela “não merecia”. Na época, nem a deputada imaginava que aquele acontecimento aparentemente banal acabaria tomando um sentido histórico premonitório.

Hoje ela diz ter certeza de que a leniência de seus colegas com o comportamento desrespeitoso e indecoroso de Bolsonaro foi um dos fatores que ajudaram a plantar a semente para a ascensão da extrema-direita no Brasil, abrindo o caminho para que ele chegasse ao Planalto.

Filha de pai servidor público e mãe costureira, Maria do Rosário nasceu na pequena cidade de Veranópolis, na Serra Gaúcha, a 765 quilômetros de Porto Alegre (RS), mas saiu de lá ainda criança, aos 4 anos de idade.

Depois de uma passagem breve pelo município vizinho de Nova Prata, se mudou para a capital do Rio Grande do Sul e já no ensino fundamental, uma pré-adolescente aos 12 anos, começou a militar no movimento estudantil. Em 1992, foi candidata à vereadora apenas para ajudar o partido a compor a chapa, e para sua surpresa acabou eleita, iniciando uma carreira vitoriosa na política.

Ex-secretária dos Direitos Humanos do governo Dilma Roussef, a deputada acredita que a violência contra as mulheres anda de mãos dadas com o racismo, a LGBTfobia, a exploração dos trabalhadores e a desigualdade social.

“Acredito cada vez mais que a superação da naturalização da violência contra a mulher é um dos pilares fundamentais, se não o mais fundamental a essa altura para a superação das demais violências também”, defende.

Ela credita parte das razões que levaram ao impeachment de Dilma a essa cultura misógina.

“O golpe contra a Dilma foi incentivado por esta dimensão também de ódio às mulheres”, explica.

Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, a deputada explica porque considera o combate à violência de gênero um passo determinante para a superação das outras violências de nossa sociedade. E explica na sua visão, o que o campo progressista precisa fazer para retomar o protagonismo na disputa de ideias e concepções em um mundo cada vez mais polarizado entre os valores civilizatórios e o retrocesso à barbárie.

BFC: raízes

Maria do Rosário: meus pais são naturais de Veranópolis (RS). O meu pai trabalhava na CEE, que é uma antiga empresa pública de energia elétrica no Rio Grande do Sul. E a minha mãe sempre trabalhou em casa, costureira, cuidando de sete filhos. Saí com quatro anos de Veranópolis. Fui morar em uma cidade chamada Nova Prata e depois viemos para Porto Alegre. Ainda no ensino fundamental comecei a participar do grêmio estudantil da escola. E ao participar do grêmio, a gente não tinha consciência – como crianças e adolescentes – de que vivíamos em uma ditadura. A minha casa tinha muita influência do trabalhismo, do brizolismo.

Meu avô se organizava com o Grupos dos 11 (movimento de resistência à ditadura liderado por Leonel Brizola). Minha mãe sempre foi muito brizolista, o meu pai também. E a gente sabia que o Brizola não estava no Brasil. No bairro que cresci, um bairro popular, o Partenon em Porto Alegre, tinham muitas lutas por moradia, ônibus, sobretudo a causa do transporte coletivo era muito viva para a gente. Eu estudava no mesmo bairro que morava e fui participar do grêmio estudantil.

Na minha memória de participação, aos doze anos de idade, fui pela primeira vez ao grêmio estudantil. E aos quatorze me tornei presidenta do grêmio. E depois, mesmo trocando de escola, fui presidenta de um outro grêmio em uma escola de ensino médio. É dali que eu trouxe a minha militância estudantil no final dos anos 70 e início dos anos 80. (A influência) foi um pouco da família, muita leitura, porque a gente tinha muito acesso a livros em casa, e sobretudo de participar do movimento estudantil.

BFC: magistério

Maria do Rosário: comecei a dar aula muito cedo porque fiz o curso normal, o magistério. Quando terminei o ensino médio imediatamente fui trabalhar numa cidade vizinha a Porto Alegre, Cachoeirinha. Tinha que pegar três ônibus para chegar. Depois trabalhei em escolas particulares, mas, ao mesmo tempo, antes de entrar no curso de pedagogia fiz o concurso para o estado do RS. Me tornei professora da rede pública estadual. Lecionei por cerca de oito anos entre essas redes de educação, diretamente com as crianças de educação infantil, nos anos iniciais do ensino fundamental, primeiro, segundo ano.

Também trabalhei como professora em uma escola dentro da Aldeia SOS (organização humanitária global, sem fins lucrativos, focada no cuidado de crianças e adolescentes que perderam — ou estão em risco de perder — o cuidado dos pais), a Escola Amigo Spinelli. Tenho memórias muito felizes desse momento, com as crianças que estavam distantes das suas famílias, viviam dentro da aldeia em acolhimento institucional.

Isso despertou em mim muita vontade de atuar com as crianças e adolescentes vítimas de violência. Essa parte da minha vida tem muito a ver com todo o trabalho político-institucional que vim a fazer posteriormente. Meu trabalho como professora me permitiu conviver com essas crianças de uma forma muito inspiradora para a minha vida até os dias de hoje.

BFC: militância sindical e entrada na política

Maria do Rosário: no Rio Grande do Sul, os professores e professoras, hoje os trabalhadores em educação e das demais funções da escola, têm um sindicato muito importante que é o CPERS (Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul). Na minha atividade como professora, já vindo do movimento estudantil, compreendendo a importância e as lutas do magistério gaúcho, me empolguei muito com isto.

Logo que entrei na rede pública estadual já fui participar dos movimentos do núcleo do CPERS, o 39ª, que é em Porto Alegre. Depois fui do Conselho Geral do CPERS Sindicato e participei todo o tempo das causas do direito à educação pública gratuita com qualidade e da valorização docente. A sala de aula para mim era algo muito rico, muito produtivo. Mas eu fazia uma militância naquele período também no PC do B. Aí acabei sendo candidata a pedido das pessoas.

Eu nem pensava em ser eleita, (foi) para ajudar numa composição. Para minha surpresa fui eleita (vereadora de Porto Alegre em 1992). E ao ser eleita, assumi uma responsabilidade muito grande. Porque, na minha opinião, aquilo transcendeu o que eu mesma esperava. Eu acreditava que ia atuar no sindicato, seguir na vida docente com muita felicidade. Não estava procurando um lugar institucional para atuar.

Sempre pensei na política como militância, participação. Acabei sendo candidata para contribuir e fui eleita. Na medida que as pessoas me escolheram para ser vereadora de Porto Alegre também tive o sentimento da responsabilidade. Os contornos ficaram mais nítidos porque afinal de contas as pessoas tinham me escolhido para uma tarefa que era de muita responsabilidade. Me dediquei enormemente. Acabei, naquele período, também apresentando e aprovando projetos de lei.

Fiz questão de manter vínculos com a base orgânica de trabalho nos bairros, comunidades, escolas. Mesmo por situações de Porto Alegre, com muito respeito pelo PC do B, fiz uma escolha de atuar no Partido dos Trabalhadores e Trabalhadoras. Já sou do PT, portanto, perdi a conta, mas mais de 30 anos. Migrei do PC do B para o PT e fui candidata a reeleição. Fui a mais votada de Porto Alegre.

A partir dali tenho uma militância na vida do PT, na construção do partido. Digo que esse espírito militante é algo que cultivo, porque acredito que a política é antes de tudo esse impulso inicial que nos traz a ela e não uma carreira. Segui estudando, concluí o mestrado em Educação, o doutorado em Ciência Política. Segui me aprofundando para melhor servir a população brasileira.

A minha ideia de participação naquele momento, muito jovem, com 24, 25 anos, era de participar contribuindo com a política. Sempre fui muito movida por esse sentimento de responsabilidade. Acho que a formação de uma liderança – claro, ninguém alcança um grau de perfeição – é impossível. Mas qualquer liderança se forja a partir de uma concepção. No meu caso, tendo uma formação de esquerda, no PC do B e no PT.

Minha formação é da liderança como serviço à fraternidade, à solidariedade, à transformação da sociedade. A indignação com a opressão de classe, com todas as violências. Isso me aproximou muito da causa dos direitos humanos, sempre na luta dos trabalhadores e trabalhadoras, no direito à moradia, à saúde, ao transporte, à esfera pública. Uma democracia mais participativa.

Acredito que encarei isso primeiro sempre de cabeça erguida. Ao longo da minha vida, passei por muitas situações que tentaram diminuir a minha condição de representante. Acho que desde aquele início, o mais importante para mim é ter me posicionado de uma forma madura e entendendo que não poderia aceitar qualquer opressão da minha condição, porque isso seria desrespeitar as próprias pessoas que me fazem sua representante. No caso, na classe trabalhadora, entre as mulheres e entre as causas que carrego.

Naquele primeiro momento, me lembro que quando cheguei na Câmara de Vereadores muito jovem, um vereador mais antigo começou me chamar de ‘Mariazinha’. Achei aquilo tão estranho. ‘Mas como assim?’ Corrigi aquilo talvez até com aquela arrogância de quem é mais jovem. Disse: ‘não, o senhor vai ter que me chamar de vereadora como chama as demais’. Não porque eu pensasse que o cargo me faria diferente, mas para realmente me colocar em pé de igualdade com as demais pessoas e com ele próprio.

Nunca permiti que quem quer que seja me colocasse em uma posição menor hierarquicamente, menos importante e menos relevante por ser jovem ou muito menos por ser mulher. Acho que essa escala de valores que a gente carrega é o nosso caminho para transformar a política. Ninguém pode chegar a um lugar se não pelos conceitos que carrega.

É claro que eles vão se moldando, a gente vai mudando. Mas a essência do que somos e das ideias que trazemos vem daquilo que nos trouxe até esse lugar institucional, esse lastro. E este meu lastro é socialista, transformador, é inquieto em defesa da justiça social.

BFC: o embate com Bolsonaro

Maria do Rosário: não imaginava (em 2003 que Bolsonaro seria eleito presidente). Mas tinha ideia do grau de violência e de virulência dessa figura. Sempre considerei que as palavras têm um poder muito forte no engajamento das pessoas. Desde aquele primeiro momento – porque nem conhecia esse parlamentar com quem nunca falei na vida. O único episódio de interação que tive foi aquele empurrão, aquela situação e aquelas palavras absurdas. Porque depois daquilo, muitas vezes ele ficou repetindo essas palavras e me perseguindo em plenário.

Tem cenas dele tentando falar comigo quando eu estava na Mesa (Diretora) presidindo os trabalhos. Tem muitas cenas dele me perseguindo, mas eu nunca, por razão alguma, tomei qualquer forma de diálogo com essa figura por considerá-la virulenta, violenta, um fascista. No entanto, ainda que não tivesse ideia, percebi o crescimento do fascismo. Percebi como a forma com que as mulheres eram tratadas agregava figuras péssimas na vida política em torno desse tipo de liderança.

Meus colegas parlamentares, sobretudo os homens de esquerda, não perceberam e trataram como algo ora jocoso, ora menos importante: ‘ah, o sujeito é assim mesmo. Ele já disse que quem procura osso é cachorro, já falou que mataria não sei quem, ele já atacou o Genoíno, o Lula, o Fernando Henrique’. Era tudo muito risível para alguns quadros políticos, inclusive da esquerda. E isso nunca eu aceitei. Essa confraria masculina de achar que esse tipo de ataque menos relevante, menos importante, é engraçado, é só por fora. Depois saem e dão tapinha nas costas. Não acho que a política deva ser esse espaço.

Tenho uma crítica a muitos companheiros e colegas que trataram episódios de violência desse sujeito – que se tornou presidente da República – como algo menos importante e permitiram seu crescimento. Tenho uma crítica também muito forte à instituição Câmara dos Deputados que foi levando toda essa violência verbal e ao invés de cuidar da democracia, de impedir a apologia à ditadura, foi leniente. Os deputados foram, o Conselho de Ética não funcionou. Denunciei e foi arquivado. Só venci judicialmente mais de dez anos depois em um novo episódio.

Acho que não devemos dar conversa para fascista. Tem até um livro que diz como conversar com fascista, eu já começo a fazer minha contestação no título. Não dou conversa. Porque se eles tivessem a oportunidade, não estariam fazendo discurso contra nós. Estariam nos colocando em um pau de arara, nos fazendo desaparecer, nos torturando diante de nossos filhos crianças. É desse tipo de gente que estamos falando. Até em defesa e em memória daqueles que foram desaparecidos, exilados, mortos, não me rebaixo a ter qualquer diálogo com fascista.

Eu tenho certeza disso (a impunidade abriu caminho para Bolsonaro chegar à Presidência). A atribuição da Câmara dos Deputados em defesa da democracia era ter barrado isso. Não é democracia permitir a apologia à ditadura. Não é democracia permitir apologia ao ódio, ao nazismo, ao fascismo. No entanto, como os fascistas iniciam no ataque às mulheres, às pessoas LGBTQIA+, aos negros e negras com o racismo e sobretudo a misoginia, o machismo.

A dimensão de ódio às mulheres está presente em todo o tecido social, mesmo em parlamentares e setores da esquerda. Essa cultura está presente no modo de pensar. Acharam que era menos relevante. Só que, por este caminho do ódio às mulheres, sobretudo, a direita se colocou no discurso que tomou a consciência do senso comum. É muito fácil entender a opressão à mulher quando oprime em casa no cotidiano, nas relações de trabalho.

Na verdade está vendo um opressor no parlamento tentando dizer que aquela mulher ou outra mulher que se posiciona, que ali não é o lugar dela. Para que a gente afirme que é o nosso lugar – a nossa voz, que não é a voz masculina, que o nosso modo de ser não é dessa masculinidade violenta e tóxica, que não aceitamos isso – temos que enfrentar. Não é toda mulher que sofre pela misoginia e pelo machismo no âmbito do parlamento.

Toda mulher poderá sofrer na medida em que se colocar contra. Mesmo quadros e mulheres da direita, quando fazem oposição a um aspecto do bolsonarismo, como Joice Hasselmann e mesmo a Carla Zambelli, que foi completamente abandonada por eles, jogada às traças, no lixo como liderança política e como mulher. Eles não têm respeito com ninguém, nem as mulheres que lhes sustentam politicamente. Isso começa conosco, com mulheres da esquerda que estamos lá para nos posicionar. Creio que os nossos companheiros não compreenderam isso, deram espaço para a direita sim.

BFC: impeachment de Dilma Rousseff

Maria do Rosário: não vejo como evitar naquela onda que veio de 2013. A vitória dela em 2014 e um expoente que seria de Centro que se bandeou – como diria o Brizola mesmo: ‘costiou o alambrado’ – para a direita foi o Aécio Neves. Com quem ela disputou a eleição e não reconheceu o resultado. Aécio, o PSDB daquele período têm uma responsabilidade enorme com o que veio depois. E com o golpe de 2016. Houve um processo que inviabilizou o governo da presidenta Dilma. E por que? Porque ela não se dobrava. Alguém poderá dizer que faltava habilidade à Dilma. Depende do que a gente chama de habilidade.

Vamos ver o que veio depois: o orçamento secreto, o corte no orçamento de políticas sociais, tudo o que ela falou aconteceu. O Brasil estagnado, a Covid, a postura anticientífica. O golpe contra a Dilma foi incentivado por esta dimensão também de ódio às mulheres. Pegavam por aí esse ataque a ela. O pano de fundo é como aparece, ganha apoio. ‘Ela é durona, é isso, é aquilo’, criando estereótipos acerca dela como mulher. O pano de fundo disso era o interesse econômico. Era o pré-sal, o Brasil, saber que Dilma, concluindo seu mandato, Lula poderia vir a ser o presidente depois novamente.

Se Dilma concluísse seu mandato como concluiu o primeiro, quem venceria o PT na eleição que viria? O atalho era tirar Dilma para conseguir passar a governar o Brasil. Tirar Dilma, prender o Lula, criar uma ficção em torno da Lava Jato com um juiz ladrão, com promotor sem vergonha, aquele Deltan (Dallagnol). Tudo comprovadíssimo.

O golpe de 2016, que continua, era um golpe continuado com a prisão do presidente Lula. E com a vitória do Bolsonaro, com Lula fora. O golpe era contra a Amazônia, a saúde pública, com a Covid se agravando, contra a educação, foram golpes e golpes e golpes. E não satisfeitos, em 2022, com a vitória de Lula, tentam objetivamente continuar no governo mesmo tendo perdido as eleições. Assassinar o presidente Lula, o Alckmin, o ministro Alexandre de Moraes. Aí que a gente vê que é um golpismo continuado e que não está superado.

Precisamos estar muito atentos e atentas diante disto, porque as classes dominantes do Brasil não têm respeito às instituições, à Constituição e à democracia. Elas manejam a democracia, de uma forma ou de outra, se associando a golpistas quando creem que é de seu interesse. No caso era seu interesse – e eles fizeram de 2013 até hoje – seguem com uma ação golpista no Brasil que a gente precisa de muita atenção. Mesmo o país estando tão bem hoje em termos de crescimento econômico, desenvolvimento, o golpe continua à espreita com a extrema-direita buscando voltar ao poder.

BFC: Comissão Nacional da Verdade

Maria do Rosário: É possível que alguns setores de extrema-direita e fascistas dentro das Forças Armadas – esses mesmos que estavam organizando e participando do golpe em 2022 e 2023 – tenham movido esse ressentimento. Mas a Comissão Nacional da Verdade, nós a conquistamos praticamente com voto unânime da lei dentro da Câmara dos Deputados.

E em uma articulação na qual eu, no Ministério de Direitos Humanos – que era a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República no governo da presidenta Dilma – estava à frente dessa pasta, mas trabalhei todo o tempo com o Nelson Jobim e depois com o Celso Amorim – que foram ministros da Defesa – e com o José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça. O nosso trabalho foi articulado sob orientação da presidenta da República.

Tenho uma opinião que – até revelo aqui diante de vocês – que é exatamente o contrário. O que nós pretendíamos na área de direitos humanos é que a Comissão Nacional da Verdade tivesse feito um trabalho não apenas de levantamento das informações, mas um trabalho pedagógico na sociedade brasileira. Porque nós não tivemos a oportunidade da justiça de transição. O que significa que a dimensão pedagógica das pessoas entenderem o que foi uma ditadura não foi feita no período devido.

Nós vivenciamos o processo de democratização do país em uma transição pactuada, negociada por cima dentro do Congresso Nacional. Inclusive, quando lutamos pelas diretas tendo, na verdade, a eleição do Tancredo e do Sarney dentro do Congresso, esperando até 1989 para termos uma eleição direta, a primeira eleição direta. Que foi quando Lula disputou mas Collor acabou eleito. Com toda aquela manobra também da Globo e do debate.

Quem tem essa história bem presente sabe que os anos 70, 60, o período ditatorial mais grave que os militares diziam que a transição seria lenta gradual e segura para si. Que fizeram em 79 uma anistia na qual eles se auto anistiaram e que as forças populares – para garantir que todos aqueles líderes que estavam no exterior exilados e todos também que estavam nas cadeias – pudessem ser soltos. Porque estavam injustamente há mais de dez anos presos e tinha-se a ideia de que se poderia ter acesso ao que aconteceu com os desaparecidos políticos. Os setores democráticos lutaram pela anistia. Mas não tivemos a anistia que gostaríamos.

Houve uma autoanistia, ao mesmo tempo que se anistiou os lutadores pela democracia. Não teve justiça de transição. Eu acreditava que a aprovação da Comissão Nacional da Verdade deveria ser voltada a também assegurar este processo pedagógico. De mostrarmos para a população e criarmos um sentimento anti ditadura e pela democracia. A Comissão Nacional da Verdade fez o trabalho institucional de busca de informações, mas não fez o trabalho político com a sociedade.

Naquele período, a Secretaria dos Direitos Humanos já tinha mais de cem comitês criados em universidades, escolas, cidades. Comitês pela verdade, memória e justiça. A nossa ideia era mais ambiciosa. Quando a comissão fez o trabalho institucional neste limite – sem o trabalho pedagógico – perdemos uma oportunidade também de mostrarmos para a população e criarmos um sentimento antiditadura e um verdadeiro sentimento pela democracia.

Credito mais a isso – a perda da oportunidade – porque os fascistas acharam que nós não fomos até o fim. Não mostramos, não escrachamos a cara deles como deveríamos. Uma sociedade só se torna democrática se vai profundamente contra a ditadura. Se responsabiliza, nem que seja moralmente, se não judicialmente. Tendo saído do ministério em 2014, já no período eleitoral, minha opinião é que a comissão deveria ter feito um trabalho mais amplo, que nunca foi feito no Brasil e que eu gostaria que tivesse sido dado sequência sobre memória e justiça em um nível de conhecimento e reconhecimento da população.

BFC: violência contra a mulher

Maria do Rosário: Na verdade, cada vez mais me convenço que todas as violências estão apoiadas em aspectos estruturais e culturais, no caso, agravados na sociedade brasileira. Onde a violência contra mulheres, o racismo, a escravização humana, isso tudo acontece de uma forma a produzir, no Brasil, uma confluência de fatores que nos torna vítimas no ambiente familiar, doméstico, na sociedade. Violência física e simbólica de todas as formas. Acredito cada vez mais que a superação da naturalização da violência contra a mulher é um dos pilares fundamentais, se não o mais fundamental a essa altura para a superação das demais violências também.

BFC: disputa ideológica

Maria do Rosário: em termos de políticas sociais, econômicos, até pela terra arrasada que ele pegou, o presidente Lula fez o seu melhor governo. Porque consegue fazer a reconstrução de políticas públicas e da economia brasileira. O Brasil nunca esteve tão bem quanto agora. E em pouco tempo. Creio que a disputa da sociedade brasileira não é mais só sobre a inclusão. É uma disputa ideológica. Na qual precisamos enfrentar a extrema-direita. Enfrentar o discurso ultra religioso, falso moralista. O discurso sobre ordem e segurança pública que define a autorização para a violência de estado contra o cidadão.

É neste plano dessas questões que estamos lutando nos dias atuais. São dimensões muito mais da esfera do pensamento, da concepção de mundo e de sociedade. Claro que o governo ganha pontos quando faz tudo certo e consegue tirar milhões da pobreza. E consegue que a classe média possa ter uma ascensão e melhoria. Consegue, por exemplo, políticas inéditas como a isenção do imposto de renda até R$ 5 mil, a redução até R$ 7.300, a retomada de políticas essenciais. Isso é incrível. Mas não vamos poder encarar as eleições somente com estes números, por melhores e mais importantes que eles sejam.

Precisamos mostrar e fazer a vitória do humanismo, da fraternidade, do respeito aos direitos humanos contra o desrespeito, a comercialização de vidas, à vida humana, à natureza, aos animais. Esse conjunto de negacionismo científico climático. Tudo que está aqui com a extrema-direita precisa ser combatido com ideias, coragem e ganhando a sociedade cada vez mais.

BFC: desafios para 2026

Maria do Rosário: o maior desafio do campo progressista neste ano é vencer as eleições com o presidente Lula e ampliar significativamente ou fazer maioria no Congresso. A vitória deste campo no Brasil é importante para nós brasileiros e brasileiras, mas é fundamental para a América Latina, hoje ameaçada com a ocupação da Venezuela pelos Estados Unidos. O mundo está mudando muito rapidamente e não é em um sentido positivo.

O Brasil com o Lula é hoje é a principal nação a oferecer alguma esperança para o mundo do trabalho, para os trabalhadores e trabalhadoras, para a natureza, o meio ambiente, as mulheres. Para um projeto de civilização contra a barbárie. Isto é para nós fundamental. Essa disputa não se dá apenas na objetividade dos números e de políticas internas. Se dá com símbolos.

É uma vitória nossa quando o presidente Lula consegue defender a soberania nacional sem se dobrar ao governo estadunidense, que é absolutamente violento com os povos e também com o Brasil. Os imigrantes, agora (a deportação) de crianças, tudo isso que acontece. É uma vitória do Brasil quando há uma melhoria da renda, mas precisamos ter uma vitória em termos de concepção de mundo. Para uma vida e um mundo mais fraterno protegido e humano. Eu acho que esse é o nosso desafio de 2026.

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Ivan Santos

Jornalista com três décadas de experiência, com passagem pelos jornais Indústria & Comércio, Correio de Notícias, Folha de Londrina e Gazeta do Povo. Foi editor de Política do Jornal do Estado/portal Bem Paraná.

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