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A coragem de navegar

Foto: Jussara Voss/ Arquivo pessoal

Começo essa história de trás para frente. Cantamos o fado brasileiro – “Navegar é preciso, viver não é preciso” – de Caetano Veloso, como se a frase fosse dele e nossa desde sempre. Cantei-o, recentemente, mãos dadas em uma roda com mais de 100 pessoas, dentro do rio Negro, cujas águas são escuras e cristalinas, acredite, quentes e sem mosquitos. Até que a roda fosse feita, segurei forte as mãos de desconhecidas ao meu lado com medo de me afogar. Quem estava em um dos lados me perguntou se eu preferia ir para o raso. Disse que não. Deve ter percebido a aflição. Sobrevivi. Apesar de saber nadar, me agonia um pouco perder o chão, o fantasma da minha avó morta em uma travessia de rio, sempre me ronda. Era o momento da despedida de mais uma edição do Navegar é Preciso, o cruzeiro fluvial da Livraria da Vila, que repete o passeio há 14 anos, organizado pela Aurora Eco. Foi a minha segunda expedição.

Antes da música e do poema de Fernando Pessoa (1888-1935), que queria para si o espírito da frase, o general romano Pompeu, no século I a.C., teria dito aos marinheiros para enfrentarem o mau tempo: “Navigare necesse, vivere non est necesse” – cumprir o dever antes de pensar na própria vida. Copiei da revista Prosa, verso e arte, que copiou da Universidade de Coimbra. Depois, no século XIV, o poeta italiano Petrarca não deixou a expressão morrer. Pessoa colocou-a em um poema. Entendia como o que é necessário na vida é criar. A vida é incerta e vivê-la não é apenas existir, é preciso criar e contribuir para algo maior – o verdadeiro propósito da vida. Seria buscar um sentido para viver, largando a fórmula previsível que nos é dada ao nascer. Talvez inconscientemente, seja esse o espírito de todos que embarcam na viagem de quatro dias pelo rio Negro, inclusive dos organizadores, tornar a existência de significado e enfrentar os  medos (não só da água). Um deles pra mim foi mergulhar no rio e colocar biquíni tendo público em volta. Na primeira vez, ignorei os passeios que incluíam os banhos. Canto e sigo. 

Os escritores

Sentei-me no bote ao lado do Itamar Vieira Júnior, autor de Torto Arado, traduzido em 33 línguas, que vendeu mais de um milhão de livros, a caminho de um banho de rio, como se isso acontecesse sempre. Não que tenha me tornado íntima, embora já o tivesse encontrado no grupo de leituras “Extremos”, do escritor José Castello e Hena Lemgruber. A timidez não foi dominada (ainda), só troquei algumas palavras, tentando afastar da minha cara o enorme colete salva-vidas. Impossível não se envolver com a história de Bibiana e Belonísia. De volta ao navio, Itamar falou sobre território, ancestralidade e pertencimento. Explicou como o texto nasce do encontro entre experiência, observação e escuta das pessoas do campo. A literatura como recurso de recuperar memórias apagadas – histórias contadas entre gerações. “Há saberes que continuam vivos fora dos livros”.

Misturo a ordem dos acontecimentos, tudo da experiência me vem ao mesmo tempo. Teve o dia em que saímos para navegar entre as ilhas, são mais de 400, e os igarapés do rio. Manhã cedo, e o céu, um breu. Andando entre as árvores afundadas na água – na temporada das cheias, o rio sobe quase 15 metros – mesmo assim, mal conseguíamos ver as suas copas. Elas chegam a 40 metros, imponentes como um exército valente encurralando você. Não dá medo, ao contrário, parece que você pertence ao lugar. O silêncio, quando o motor desligado, e os cheiros organizam a mente. De repente, as nuvens se juntaram e mandaram para baixo toda água do mundo. O piloto acelerou, nós nos encolhemos – os pingos chegavam a doer, uma massagem forçada. Até conseguir desempacotar a minha capa de chuva de plástico, aquelas que a gente ganha em shows, que mora na minha bolsa, já estava quase ensopada. Sentia a água escorrer por dentro da roupa. Meu batismo de banho de chuva foi na Amazônia e me senti o máximo. Um banho quente na chegada resolveu o incômodo. O único susto foi ver o raio a poucos metros. Com tanta gente famosa por perto, se morresse não seria notícia, estaria “entre outros”, escutamos e rimos.

Acho que finalmente aprendi a ver graça onde às vezes ela escapa. Ri muito enfrentando o temporal, tem horas que só o riso ajuda. O jornalista e escritor Antônio Prata sabe disso. Ele mostrou a sua ironia inteligente e falou do cotidiano: cenas domésticas, relações amorosas, redes sociais, desigualdade social e tensões políticas. Histórias para achar graça e refletir. O humor como uma tentativa de sobreviver às contradições da vida. “O profundo se revela pelo banal”. 

E se não der para rir, dá para organizar dores, memórias e segredos com a escrita. Explicou Tatiana Salem Levy. “O silêncio adoece”. Ela falou da angústia de carregar assuntos presos, da violência contra as mulheres, do estrago da morte em nós quando perdemos quem amamos. Só consegui abrir o seu “Melhor não contar” depois de escutá-la. Não me arrependi.

As estruturas escravocratas ainda vivas assustam, foram expostas pela escritora Eliana Alves Cruz. Trabalho doméstico, corpos controlados, os quartos de empregada como solitárias, o cansaço das mulheres negras e a dificuldade de sonhar quando a vida exige apenas sobrevivência. “O direito ao sonho é nosso também”. Corri para comprar uma das obras delas, que não conhecia.

O “tacacá das letras”, como disse Giovana Madalosso no seu Instagram, foi um privilégio para quem esteve lá ao lado de escritores geniais, como ela, que escreve e segura a gente pela mão até o fim da prosa cotidiana que domina. Batida só, seu último romance, está vivo mesmo depois de meses da leitura. Não sei porque não anotei nada da sua entrevista, nem de Zeca Baleiro. Dele sei que estava mais interessada em cantar junto e curtir o show intimista. Não sabia que era também escritor. Escutar as histórias do seu pai foi inspirador. Dela reproduzo uma frase que disse em 2023, que justifica meus arroubos existenciais. “Por isso viajar nos faz tão bem, porque ali, em outra geografia, nos readmitimos como ignorantes – pressuposto básico para se maravilhar – e assim, desarmados, de olhos e plexo bem abertos, somos tomados pelas surpresas e pelos prazeres que vêm junto com elas. E que fazem a vida valer”. Ouvindo os escritores, tem-se a impressão de que a busca é por colocar a experiência em linguagem sem perder a verdade do que se quer contar. Escrever não resolve, mas organiza a vida. Desconfio disso desde criança. 

Fundação Almerinda Malaquias

Hora de entregar os livros infantis que trouxemos na bagagem. Descemos dos botes rumo a Fundação Almerinda Malaquias. Era a década de 1980 quando Miguel Rocha da Silva viu o município de Novo Airão perder seu apogeu com a exploração da borracha e restos de madeira acumularem-se ao serem descartados pela construção naval. Imaginou uma alternativa para beneficiar as famílias ribeirinhas, principalmente os jovens do local. A ideia era ensinar marcenaria, criar renda sem destruir a floresta. Máquinas e recursos vieram do acaso. O suíço Jean-Daniel Vallotton em viagem pela Amazônia conhece o caboclo. Vai para o seu país e estrutura a iniciativa. A história não terminaria. Vallotton volta e casa-se com a filha do amazonense e passa a morar ali. Assim surge a Fundação Almerinda Malaquias – nome dos pais do seu sogro. Hoje, a fundação vai além da marcenaria, é um espaço de aprendizado e de atividades culturais, até com roda de leituras. Uma vez por ano promove uma feira, na qual as crianças apresentam trabalhos sobre a cultura amazônica. O objetivo é fortalecer a cultura local. Andando pela fundação com uma funcionária, sou surpreendida por um garoto que correu para me abraçar. Andamos passos miúdos em silêncio até nos despedirmos. Carrego essa imagem comigo que é a própria Amazônia. Navegamos do jeito que dá, para mudar o que conseguimos, mesmo que às vezes não alcancemos o fundo com os pés. 

Foto: Jussara Voss/ Arquivo pessoal

“Navegar é preciso; viver não é preciso“

Fernando Pessoa


Quero para mim o espírito desta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. 

 

Fernando Pessoa

 

Jussara Voss

Jornalista, escritora e agitadora cultural. Ativista da gastronomia social, defendendo comida de qualidade e acessível para todas as pessoas.

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