Skip to content Skip to footer

A VOZ DE HIND RAJAB

Cartaz do filme, "A Voz de Hind Rajab".

O que é humanidade? O que é desumanidade? Simploriamente, são conceitos éticos e morais de quem  não aceita como “humano” atos ordenados e cometidos por humanos. 

Se ainda desejamos construir “humanidade”, então é necessário ver “A Voz de Hind Rajab”.

Anne Frank relatou em um diário o seu flagelo, no desabrochar da adolescência, imposto pelos nazistas. Outras tantas milhões de crianças e adolescentes assassinadas por senhores da guerra tiveram seus vestígios apagados. Assim, seus dramas são caquinhos de história coletiva. Não tiveram direito à experiência de viver, deixar registros, criar memória. Anne teve força para olhar a si mesma e escrever suas paixões.

Hind Rajab, mesmo não ciente, deixou seu sofrimento, história e memória em registros telefônicos digitais. Agonia, dor e resiliência em alta tecnologia. Enquanto a heróica equipe do centro de atendimento do Crescente Vermelho tentava distraí-la em seu sofrimento, ela relatava sem subterfúgios:

“o tanque está avançando”, “estão atirando”, “estão mortos”, “eu vou morrer”. Hind Rajab, seis anos de idade.

A consciência da morte é uma passagem dolorosa da infância. Meu “ex-pequeno” filho caiu em prantos quando elaborou a finitude. Um choro longo, doído, porque em sua rede de afetos a vida é boa, é dádiva. Idade próxima à de Hind Rajab, que também viveu em dádiva, cultivando imaginações, experimentando o mundo com os olhos, as mãos, a boca; os sentidos. Sentiu o vento a percorrer a pele na beira do Mediterrâneo de Gaza. Hind Rajab amava brincar na praia, adorava o mar.

Mas naquele dia 29 de um janeiro de 2024, Hindi não ia ao mar. De fato, era levada de carro por seus tios, na companhia de primas e primos, para qualquer lugar distante das ameaças bélicas em Tel-al-Hawa (Gaza). Mas as metralhadoras, fuzis, mísseis, em mãos humanas, interromperam os planos de fuga.

Quando a história de Hind Hajab saiu na imprensa mundial em 2024, seu drama disputava espaço nos sites de notícias com cotações de moedas, roubos, mega-senas, influencers, feminicídios, viagens espaciais, turismo, implantes dentários e outras guerras. Me poupo desse consumismo informacional-disfuncional. Ler aquela notícia, seria um sopro de tristeza a se esquecer sugundos depois no correr do dia. Ou não?

Fato é que a Voz de Hind Rajab nos chega novamente. Agora em obra cinematográfica.

A pré-estreia em São Paulo foi no dia 21 de janeiro às 20:00. Patrícia Rabello, obrigado pelo convite. Em trocadilho mental, fui para a sessão no dia 20 às 21:00. Obviamente, portas fechadas. De vez em quando, apronto dessas. De todo modo, poderia ficar quieto e ver em qualquer streaming nas próximas semanas. Porém, na semana seguinte, fomos ver a Voz de Hind Rajab no cinema.

Por que assistir no cinema? O que a sala de cinema tem de especial? Qual a função do cinema? Hoje, essas perguntas já são disfuncionais? O cinema pode ser tanta coisa. Tudo pode ser colocado no cinema. E a sala escura é o espaço ideal para encarar o desafio cinematográfico proposto pelas(os) realizadoras(os). Afinal, o cinema é a arte do tempo. E estar na sala de cinema requer atenção.

Por isso, se fala em crise das salas de cinema. Não é pelo conteúdo, mas pela forma. A imersão em um espaço escuro. A atenção voltada à luz projetada na tela. O templo cinematográfico. A sala escura. A luz. Uma única atenção por duas horas.

Assim, entre a notícia e o filme sobre Hind Rajab, optei pelo filme, que talvez nem existisse.

Foi preciso que uma equipe capitaneada pela diretora tunisiana Kaouther Ben Hania olhasse para o caso de Hind. Escutasse cada segundo dos registros sonoros com sua voz e decidisse a forma de contar. Argumento, roteiro. Sofrimento e depuração, ambos fazem parte do processo de criação, pois exige reflexão, tempo!

E o drama de Hind não podia ficar restrito a uma notícia digital entre os morticínios diários no conflito Israel-Gaza. O cinema lhe resgata a dignidade, a voz, cada segundo de vida, sua memória, seu relato. Hindi, tal qual a libélula efemérida, voando à beira mar. 

Humanidade. Desumanidade. Demasiado humano. No filme, também conhecemos a equipe de emergência do Crescente Vermelho, similar à Cruz Vermelha, que a cada minuto age para que a humanidade não se vá, mesmo que em vão.

Cleisson Vidal

Mais Matérias

10 mar 2026

Feminicídio: o antes e o depois da “fraquejada”

O Brasil nunca foi um exemplo de respeito à integridade física, psicológica, social, laboral e política da mulher.
09 mar 2026

Reduzir a jornada de trabalho no Brasil: oportunidade histórica, viabilidade econômica, maturidade política e justiça social

A redução da jornada de trabalho volta ao centro do debate público brasileiro em um momento decisivo, o que é muito bom!
09 mar 2026

Encurralados: A Verticalização Predatória versus a Cultura de Bairro

Próximo da unanimidade, existe um sentimento geral de moradores da Vila Mariana que a cultura do bairro
06 mar 2026

Antifascismo, nosso denominador comum

A morte de um jovem é sempre chocante, algo que merece respeito e reflexão.
06 mar 2026

Colarinho branco, mangas sujas

A dinâmica revelada deu outra dimensão ao que, de longa data, se convencionou chamar de “crime organizado”.

Como você se sente com esta matéria?

Vamos construir a notícia juntos