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Fórum aponta caminhos para reter talentos e discute problemas na área da hospitalidade

Foto: Arquivo Pessoal Eloisa Aquino, Rogério Gobbi e Jussara Voss no Centro Europeu, em Curitiba.

Quais os desafios de como formar e valorizar para o mercado de trabalho atravessado por mudanças

Rebolei pra dar conta de todos os eventos em dezembro e não acompanhei presencialmente o Fórum Paranaense de Captação e Retenção de Talentos, realizado pelo Centro Europeu. O tempo acelerado é uma realidade e parece que dispara nos últimos meses do ano. A jornalista recifense Michelle Prazeres tenta dar um jeito nisso ao criar o Dia Sem Pressa e a Escola do Tempo. A inspiração veio do movimento Slow Food, que surgiu nos anos 1980, na Itália, para promover o trabalho dos agricultores e reagir à instalação de uma rede de fast-food no país. Trata-se de uma das vertentes do que hoje se chama cultura do cuidado, porque a aceleração pode refletir em falta de memória, cansaço, desinteresse ou dificuldade de concentração. 

O assunto me leva a escrever uma coluna um pouco diferente. Tento entender a relação entre tempo, remuneração e outros temas, com retenção e valorização de talentos na formação de equipes de trabalho nas áreas de gastronomia, hotelaria e eventos. As nossas relações sociais, os modos de trabalhar e o ritmo de vida mudaram e exigem adaptação. 

Trabalho, tempo e autonomia

Hoje, todo mundo quer e precisa desfrutar de tempo livre, o que ajuda a explicar o surgimento da “uberização”. Ser autônomo, além de aumentar o rendimento, atrai pela liberdade de gerenciar o próprio horário. Talvez aí esteja uma das respostas para a falta de interessados no trabalho com carteira assinada. Agora é o funcionário que escolhe a vaga.

O contexto econômico ajuda a explicar. Em 2023, a pobreza caiu ao menor nível desde 2012, ainda que a desigualdade permaneça alta. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A renda per capita média brasileira aumentou. O Brasil teve, em 2024, a menor taxa média de desemprego da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua): 6,6%. A taxa de pessoas que deixaram a carteira de trabalho assinada buscando uma renda maior e flexibilidade era de 24% em 2020; hoje é de 38%, de acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). 

“A procura oscila de acordo com a economia. Há momentos em que o trabalhador tem mais poder de barganha, e outros em que a oferta favorece o empresário”, observa o empresário Beto Madalosso, que vem de uma família tradicional do ramo de restaurantes. “Escuto a reclamação de falta de pessoal qualificado desde criança”. 

A valorização do empreendedorismo e da autonomia, inclusive em regiões periféricas, reforça a preferência por modelos de trabalho flexíveis. É estimulado até pelas igrejas evangélicas cujo crescimento é uma das principais transformações das últimas décadas.

Dobrar ou triplicar o rendimento como autônomo passa a ser muito mais atraente do que a carteira de trabalho assinada, uma jornada de mais de oito horas e escala 6/1, além de muitas horas de deslocamento entre a residência e o trabalho. Antes, as pessoas aceitavam qualquer emprego e tinham medo de perdê-lo, isso mudou. 

Reflexão

Conversei sobre esses temas com o diretor do Centro Europeu, Rogério Gobbi, no final da tarde, em dezembro, logo após o evento. Eu o aguardava em uma das sedes da escola, na enorme casa tombada na esquina movimentada do Batel. Ele veio ao meu encontro, passos rápidos, vestindo um paletó azul-marinho bem cortado, sorriso no rosto, satisfeito com o resultado do debate que envolveu representantes da gastronomia, hotelaria e eventos de Curitiba. Logo depois, a embaixadora da Gastromotiva, no Rio de Janeiro, juntou-se a nós. Eloísa Aquino participaria no dia seguinte de um evento para reativar aqui as atividades da ONG que inclui pela gastronomia (o Juro que danço), e me acompanhou na conversa.

“Há um grito que atravessa esses setores e não é novo, mas ficou impossível de ignorar. Falta gente. Falta quem entre, quem fique, quem enxergue futuro”, me disse Gobbi. O diferencial do fórum foi reunir, no mesmo espaço, empresários, especialistas, educadores e poder público para enfrentar uma pergunta incômoda: por que continuamos repetindo o mesmo discurso e esperando resultados diferentes?

O diagnóstico ficou claro: a crise não se explica pela ideia confortável de dizer que “ninguém quer trabalhar”. Ela é cultural. Está na forma como os empregos são comunicados, na romantização de algumas funções e no silêncio sobre a realidade. Está na ausência de trilhas de crescimento, no pouco investimento em formação contínua e na dificuldade das empresas, especialmente pequenas e médias empresas, de estruturar a gestão de pessoas. A má remuneração, claro, faz parte do problema.

Quando a gestão funciona

Um ponto recorrente no relatório do fórum é a falta de comunicação sobre os benefícios e as possibilidades reais das carreiras na hospitalidade. Beto Madalosso lembra que uma empresa precisa ser interessante para atrair pessoas. Isso significa pagar em dia, oferecer boas condições de trabalho, manter um ambiente saudável, respeitar os funcionários e apresentar alguma perspectiva de crescimento, mesmo em um setor marcado por uma pirâmide desigual, com muitos cargos operacionais e poucos especializados. 

Beto lembra que a profissão tem outro desafio: o horário. Trabalhar à noite, aos fins de semana e ficar longe da família e dos amigos afasta muita gente. Existem ocupações que seduzem mais. 

No podcast Trocando em miúdos, da jornalista Mariella Lazaretti, a empresária Vera Helena Mirandez, sócia da rede de padarias e catering Dona Deola, amplia o debate. Com 1.200 funcionários, ela afirma conviver permanentemente com cerca de 150 vagas abertas. Chamamos centenas de pessoas para entrevistas e poucas aparecem”. De acordo com ela, muitos jovens buscam ascensão rápida, trabalho on-line, flexibilidade, e não querem repetir o modelo de sacrifício que viram os pais fazerem. Ao mesmo tempo, Vera lembra que boa parte de seus cargos de liderança é ocupada por pessoas que começaram na limpeza ou no balcão.

Empresárias como Cláudia Krauspenhar (K.Sa), Gabriela Carvalho (Quintana) e Vaneska Berçani (Mezmiz) mostram que é possível formar equipes coesas e comprometidas. Elas revelam práticas de gestão baseadas em transparência, escuta e envolvimento real das pessoas no negócio, com benefícios que podem incluir até aulas de ioga. 

Gabriela Carvalho afirma que formar equipe começa pela identificação de profissionais com disposição genuína em aprender, trocar e fazer parte de um coletivo. Mais do que experiência, ela observa valores: como a pessoa se relaciona, reage aos desafios e reconhece seus limites. “Não é para julgar, mas para entender o potencial de evolução dentro do time”. 

Para ela, nenhuma empresa se sustenta no longo prazo se apenas o empregador define as regras. É preciso compreender a realidade e o momento de vida de cada pessoa. Benefícios, plano de carreira e remuneração importam, mas aparecem como consequência de um vínculo bem construído. “Liderar é saber identificar talentos, fortalecer o que cada um faz bem e oferecer apoio estruturado para o desenvolvimento profissional”.

Da teoria à prática

O Fórum mostrou algo raro: disposição para agir imediatamente. Houve quem defendesse que não era preciso esperar 2030 (data das ações a longo prazo), algumas ideias poderiam ser aplicadas na semana seguinte. A fala da gerente de operações da Requinte, Gabriela Victoria Dreher Baptista, sintetiza esse espírito: “o que ouvi aqui hoje, aplico na semana que vem”. Ela aposta na capacitação de quem já está na equipe, em parceria com instituições de ensino, e destacou a importância de criar espaços de discussão sobre problemas comuns do setor.

Gobbi lembra que poucas áreas permitem mobilidade, experiência internacional e autonomia real como a gastronomia e a hotelaria, ainda assim, isso raramente chega ao jovem que busca emprego. Enquanto isso, esses setores perdem gente para a indústria, o comércio ou trabalhos imediatistas. Para ilustrar a urgência de investir agora, ele recorre à imagem do sobreiro, a árvore da cortiça: são necessários cerca de 40 anos para que ela produza a cortiça usada nos vinhos de guarda. “Se ninguém plantar hoje, ninguém colhe amanhã”.

O fórum deixou claro que a escassez e a alta rotatividade de profissionais na hospitalidade resultam de um desalinhamento entre expectativas, formação, comunicação e modelos de gestão. Terminou com direcionamentos objetivos: capacitar líderes e recrutadores, comunicar com transparência jornadas e possibilidades reais de crescimento, investir em formação contínua. No meio desse debate surge uma camada mais profunda: dignidade. O setor reencontra sua essência, tratar pessoas como pessoas, não como “mão de obra”. Hospitalidade não é apenas operação. É cultura. É política, no sentido mais amplo: como escolhemos cuidar uns dos outros.

Talvez a pergunta não seja mais “por que falta gente”, mas que tipo de trabalho estamos oferecendo e que história contamos sobre ele. O Fórum aponta um caminho: cooperação, educação para o trabalho, liderança preparada e valorização real das pessoas. A mensagem final é simples: o futuro da hospitalidade no Paraná não será construído apesar das pessoas, mas com elas.

Resultado

O fórum não terminou em diagnóstico, mas em direcionamentos claros para enfrentar a crise. Um dos pontos apresentados é capacitar rapidamente líderes e recrutadores, especialmente supervisores e gestores operacionais, e comunicar com mais transparência jornadas, escalas e possibilidades reais de crescimento. 

Os participantes do fórum sabem que o mercado cresce e não consegue manter equipes engajadas e que o problema não será resolvido com ações isoladas. Essa é a condição para a sobrevivência do setor. É preciso um ajuste entre as expectativas do trabalhador e do empregador. Sem liderança, clareza e alinhamento de interesses, não há crescimento. Onde há liderança presente, clara e justa, a retenção melhora.

No longo prazo, o relatório propõe a criação de um ecossistema paranaense de talentos, com dados, cooperação entre atores e políticas públicas alinhadas à realidade do trabalho. A mensagem final é clara: “investir em pessoas não é custo, é estratégia”.  

“O stress nos move e o que faz você avançar são as dificuldades”, ensina o compositor e pesquisador brasileiro Mateus Aleluia. 

O relatório final ficará disponível nas redes sociais do Centro Europeu.

Jussara Voss

Jornalista, escritora e agitadora cultural. Ativista da gastronomia social, defendendo comida de qualidade e acessível para todas as pessoas.

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