O Brasil possui uma característica curiosa: nossas maiores discussões éticas e morais frequentemente eclodem em volta de uma piscina vigiada por câmeras. Quando um episódio de assédio e violência ocorre dentro do Big Brother Brasil, o choque não vem da novidade do ato, mas da frieza com que a dinâmica do “não” ignorado se manifesta em rede nacional. Ali, a tentativa de beijo forçado e a insistência agressiva deixam de ser estatísticas invisíveis para se tornarem um espelho desconfortável de uma sociedade machista que se recusa a respeitar o limite do outro.
Essa cena, no entanto, não é um evento isolado de um programa de entretenimento; ela é um fato profundamente político. A política, em sua essência, trata de quem tem o direito de decidir sobre o quê. E quando um homem se sente no direito de invadir o espaço físico de uma mulher, ele está exercendo uma forma arcaica, machista e autoritária de poder. O que está em jogo não é apenas o comportamento de um indivíduo, mas a estrutura que ainda permite que a vontade masculina se sobreponha à autonomia feminina sem nenhum constrangimento.
É nesse cenário que a importância de termos mulheres ocupando espaços de decisão se torna urgente e prática. Vou explicar! Frequentemente, a ausência de vozes femininas nos centros de poder, sejam eles o Congresso Nacional ou as salas de direção de grandes emissoras, resulta no que chamamos de ‘miopia institucional’. Onde uma mulher enxerga violência e desrespeito, um olhar masculino enxerga apenas “entretenimento”, “vontade”, “equívocos” ou “drama”. A presença de mulheres na política e na liderança não é apenas uma questão de estética democrática, mas de sobrevivência. É o olhar feminino que transforma o desconforto da vítima em lei, como vimos na criação da Lei de Importunação Sexual, uma conquista que só foi possível porque houve articulação de quem sabe o que é ser alvo.
Se as regras do convívio social são escritas majoritariamente por homens, elas naturalmente negligenciarão os medos e as barreiras que as mulheres enfrentam diariamente. A política institucional é a ferramenta que temos para reeducar o olhar da sociedade. Sem representantes que sintam na pele a urgência do consentimento, continuaremos dependendo da indignação passageira das redes sociais para que algo seja feito. A punição de um agressor em um reality show é um alívio momentâneo, mas a verdadeira mudança é sistêmica: é sobre colocar no poder quem não precisa de uma explicação detalhada para entender que o corpo da mulher não é espaço público e atravessá-lo, seja lá como for, gera consequências gravíssimas.
No fim das contas, o que o episódio no reality denuncia é que a nossa democracia ainda é incompleta enquanto o corpo feminino for tratado como um território a ser conquistado. Precisamos de mais mulheres na política para que o “não” passe a ser, definitivamente, o ponto final de qualquer interação. A política é, afinal, o caminho para que a liberdade de uma mulher não dependa da boa vontade de um homem, mas da força intransponível da lei e do respeito.
Gabriela Sabino
Mestre em políticas públicas e doutoranda em economia
