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O Prefeito Negro: crônica de uma vitória popular na periferia de Paris

Sílvia Capanema e Bally Bagayoko. Foto: Acevo pessoal, Sílvia Capanema

Dia 15 de março de 2026. Bally Bagayoko, recém-eleito prefeito de Saint-Denis no primeiro turno, é carregado nos braços da multidão que invade o belo salão da prefeitura, cuja pintura expõe os nomes dos meses do calendário revolucionário (Brumário, Germinal, etc). Saint-Denis, com 150 mil habitantes, é a segunda maior cidade da região da Ile de France, logo depois de Paris. Uma cidade grande na escala francesa. A periferia popular, terra de imigrações, de moradias operárias, mas também da Basílica gótica monumental que serviu de modelo para a Notre Dame, onde estão enterrados todos os reis e rainhas da França, é um legítimo território da esquerda francesa, com um passado de 100 anos de municipalidades comunistas quase sem interrupção, de 1920, ano de criação do PCF,  até 2020. Naquele ano, o PCF (Partido Comunista Francês) perdeu para o PS (Partido Socialista), que fez uma gestão gentrificadora e pouco democrática.

Novos ventos sopraram nas eleições municipais de março passado, anunciando literalmente a chegada de uma nova primavera. Em 2026, Saint-Denis se tornou a maior cidade francesa a ser dirigida pelo Movimento da França Insubmissa, a nova força de esquerda de transformação social, levando Bally Bagayoko a se tornar o primeiro prefeito filho de imigrantes africanos da cidade, primeiro homem negro eleito numa grande cidade da França. Histórico. E eu posso contar esta história de “dentro”, como parte integrante do novo grupo municipal, já que fui, na mesma chapa, também eleita vereadora novamente.

A vitória triunfante, com mais de 50% dos votos já no primeiro turno, apesar da alta abstenção, uma realidade local, provocou um verdadeiro rebuliço nas redes sociais e na grande mídia. Fato é que, desde a campanha, expressões racistas eram frequentes na internet. Por exemplo, falsos perfis perguntavam em qual cidade da África se passava a nossa campanha. Eleito, Bally foi cobiçado por toda a imprensa. Em uma entrevista, citou uma frase clássica de um poeta local, Jean Marcenat, que define Saint-Denis como “cidade dos reis mortos e do povo vivo”. As palavras “rois” (reis) e “noirs” (negros) tem a mesma terminação sonora em francês. Não tardou para que uma fakenews de cunho preconceituoso circulasse, segundo a qual Bagayoko teria afirmado que Saint-Denis era a “cidade dos negros”. E não ficou só nisso, na sequência, Bally Bagayoko continuou sendo convidado em todos canais de televisão, com entrevistas na França e no exterior. Uma jornalista famosa de um dos maiores canais de comunicação, Appoline de Malherbe, ao entrevistar o novo prefeito, interrogou-o sobre a frase, como se fosse verdadeira, sem verificação. Bally Bagayoko foi nobre e digno ao responder, mas não deixou de perceber que havia nesses muitos momentos de ”incompreensão” uma leitura enviesada por parte da branquitude francesa, como se “alguma coisa não estivesse no seu lugar”. Como reagir diante de um prefeito negro? Um homem negro, de esquerda radical, muçulmano, na liderança de uma grande cidade francesa? Como disse Lilian Thuram, zagueiro campeão da Copa de 1998, nascido no Caribe francês e uma das vozes mais atuantes do pensamento antirracista no país, sobre o “caso Bally Bagayoko” :

“Pouco importa se somos prefeito, atleta, médico, intelectual, ou uma criança, para o narcisista branco, somos apenas um ‘negro’ e um ‘negro’ continua sendo um ‘negro’.”

Não podemos esquecer, como já escrevi em outros textos desta coluna, que a grande mídia francesa está concentrada nas mãos de somente uma dezena de grandes grupos de empresários multimilionários. Todos homens brancos.

À medida que o fenômeno midiático em torno de Bally continuava pelo país, a mídia da extrema direita e reacionária, representada pelo Canal CNNews e outros, também revelava a sua face. Em debates, Bally foi comparado a um macaco, e figuras públicas, como o filósofo Michel Onfray, chegaram a comparar o seu papel com o de uma “liderança tribal”. O nível do debate francês era de regresso à era colonial. Porém, a juventude e movimentos antirracistas não se acomodaram e não se acorvadaram. Junto com Bally, foi organizada a maior manifestação antirracista dos últimos tempos. No dia 04 de abril, dezenas de milhares de pessoas vieram num ato em Saint-Denis. A multidão, que reividica a existencia de uma “nova França”, multicultural, antirracista, solidária, feminista, fez uma grande parte do caminho a pé, pois o metrô foi interrompido durante uma parte da tarde. Desde as revoltas de maio de 1968, foi a maior manifestação política organizada na cidade, talvez a maior da história, com a presença de centenas de parlamentares locais e nacionais, franceses descendentes da imigração pós-colonial, todos de esquerda. Uma nova geração. Literalmente uma nova França.

Construindo a alternativa popular

E para chegar nisso é importante contar a história de como ganhamos as eleições. A campanha começou no ano da derrota, em 2020, quando Bally, que tinha sido eleito anteriormente em aliança com o PCF, lançou sua candidatura sozinho. Ele chegou em terceiro lugar. Em 2021, eu começo a militar definitivamente no grupo da França Insubmissa, e nossa campanha se intensifica a cada ano. Não como “campanha eleitoral ou eleitoreira”, mas como ativismo político permanente, junto da população. A prefeitura do PS fez um governo de “falsa esquerda”, cortando verbas da cultura e das associações, fechando centros de juventude, reduzindo linhas de ônibus e pessoal, mantendo-se surda às mobilizações sociais, de sindicatos e de pais de alunos, precarizando o sistema de moradia social em favor das operações imobiliárias privadas, concentrando os gastos com uma polícia cada vez mais armada e, obviamente, mais violenta e racista, entre outros fatores. A insatisfação era crescente.

Em paralelo, o eleitorado da cidade continuava votando bem à esquerda. Jean-Luc Mélenchon chegou a 60% dos votos na cidade nas eleições presidenciais de 2022. Um voto de classe. Mas Bally tinha ainda mais do que isso para apresentar: além de ser da França Insubmissa, ele é um próprio ”cria” de Saint-Denis. Nascido em 31 de julho de 1973 em Levallois-Perret, ele se muda para a cidade ainda pequeno, sendo o segundo dos oito filhos de um casal de imigrantes do Mali, antiga colônia francesa. Estuda nas escolas locais, e se torna executivo da empresa RATP, grande estatal de transportes da França. Ele é um produto da escola pública que funciona. Também é um produto dos clubes esportivos da cidade e se destaca como jogador e depois treinador de basquete, até as vésperas da eleição, o que acentua a sua conexão com a juventude local, como também defendeu em seus outros mandatos.

Manifestação antirracista do 4 de abril em Saint-Denis.
Foto: Acervo pessoal, Sílvia Capanema

A nossa campanha foi coletiva, nas redes e nas ruas. Ganhar de um adversário no poder, na situação, não é algo fácil, ainda mais no primeiro turno. Conseguimos politizando o debate, sem em nenhum momento negar que estamos na política para defender a maioria da população, muitas vezes contra os interesses dos poderosos. Assumimos que não acreditamos no capitalismo, mas que acreditamos em alternativas democráticas de tomada do poder e de governo, e numa economia forte a serviço do bem estar coletivo. Defendemos uma ruptura com o neoliberalismo e as políticas de austeridade econômica que vêm empobrecendo os trabalhadores. Apostamos na aliança com o PCF, mobilizamos a juventude, os bairros populares, e ainda as classes médias do centro da cidade e dos novos bairros já mais gentrificados, que também votaram majoritariamente na nossa chapa. Apostamos num programa que privilegiava reforçar os serviços públicos (e manter uma polícia de proximidade, com outra doutrina de ação), a democracia local e a dinâmica associativa, diminuir o custo de vida com políticas de gratuidade, no lugar de um discurso ultra securitário que vinha tomando a França, com muita tristeza. Apostamos na esperança no lugar do medo. Em um mês de governo, Saint-Denis já retomou a sua auto-estima popular, e uma cultura política de simplicidade e proximidade. Já estamos abrindo centros de juventude que foram fechados, e nos apoiando no patrimônio cultural local para ter benefícios para a população (a minha área de atuação neste mandado). Bally, que se tornou uma figura pública nacional com entrada no ranking das 30 personalidades preferidas dos franceses, já conta uma segunda vitória, ganhou as eleições indiretas para comandar, juntamente com a prefeitura de Saint-Denis, uma das principais aglomerações da região de Paris, Plaine Commune, que representa 450 mil habitantes.

Teremos muito a fazer nos próximos 7 anos de mandato, e temos consciência que uma das batalhas centrais, que já está em curso na opinião pública francesa, será a luta antifascista e contra a extrema direita de inspiração neocolonial e abertamente racista. Nessa batalha, de extrema importância para a vida do povo, também estamos entrando para ganhar.

Sílvia Capanema

Historiadora e Professora Doutora na Sorbonne Paris Nord, parlamentar na França e ativista da RED-Br. Pesquisa movimentos sociais e memória popular.

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