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O risco de não sentir mais nada

Foto: Arquivo pessoal

Começo com as reflexões de Yuval Harari sobre a Inteligência Artificial (ou sintética como já vem sendo chamada). Ele se apresentou no último encontro do World Economic Forum, em Davos, e lançou a preocupação: vamos deixar de pensar? Toda vez que eu quero saber algo ou revisar um texto, a tecnologia me oferece mil opções para mudar ou quer reescrever. Não quero. Quem escreve sou eu. Agora, já me conhece (me chama de Ju), não muda o que escrevi, apenas aponta eventuais erros. Aprendi também que o mais importante é o prompt. Mesmo sem uma bola de cristal, acredito que os escritores sobreviverão. Por enquanto, a IA amplia nossas capacidades, facilita as pesquisas e substitui atividades repetitivas. Mas parece ser mais do que isso.

Passo para o que li sobre South by Southwest, o SXSW, a conferência sobre o futuro  que prometeu responder a pergunta: “o que será de nós nesses tempos de incerteza”? Realizada em Austin, no Texas, no fim de março, reuniu especialistas como Faith Popcorn, Amy Webb e até Steven Spielberg, para falar de tecnologia, inovação, música e cinema. Sinto ter perdido.

  O escritor Jorge Nóbrega cobriu o evento para o jornal Valor Econômico e, com ele, soube o que já desconfiava: nosso cérebro está atrofiando. Não prestamos atenção no caminho porque o Waze nos guia. Pedimos para a AI escrever bilhetes rápidos. Deixamos que reuniões sejam gravadas para termos um resumo automático do que foi dito. Precisamos de limites? A lista continua: jovens se apaixonando pela máquina; refeições entregues por delivery (três de cada quatro preparadas); muita solidão. Parece que o “inferno” agora é a tecnologia que limita nossa criatividade, não mais “os outros”, como previu Sartre. Estariam as “capacidades extraordinárias” criando uma divisão ainda maior na espécie: os humanos comuns e os super-humanos? Temos até a tecnologia próxima da religião com a igreja “Caminho do Futuro”. 

A saída, disse Spielberg, para quem pretende criar algo diferente, é ouvir a intuição. A conclusão, infelizmente, é que ainda não existem respostas prontas para os nossos dilemas contemporâneos.

Juro que danço

Foto: Arquivo pessoal/ Jussara Voss

Na vida real, caí na pista, preciso de alegria. A casa lisérgica da Soma Galeria, um lugar de arte e bom gosto, abrigou mais uma edição do Juro que danço – a balada durante a semana, na hora do almoço, em prol da Gastromotiva. Ajudar a criar mudança social foi um dos temas da SXSW e o que tentamos fazer por aqui. Também fui conhecer o projeto do sétimo restaurante popular no bairro do Boqueirão, em Curitiba. O primeiro foi inspirado no Refettorio Gastromotiva, criado pelo chef e empreendedor David Hertz, que funcionou durante 10 anos no Rio de Janeiro. 

Enquanto avançamos no propósito de incluir, comemoro a ansiedade controlada à base de meditação. Consegui até comer um pouco, além de dançar, algo raro quando estou na organização. Entre abraços, passos de coreografia e sorrisos festejei com os amigos, conhecidos e desconhecidos. Muita gente fez tudo acontecer. Vou mencionar apenas quem suou para alegrar: Guto Zafalon e Linda Power deram um show de animação. E os djs SainTheRick e Gilda Máximo, ele com menos de 30 anos, ela com 80 anos e cinco bisnetos, levaram quase todo mundo para a pista (alguns ainda resistem).

Casa de Francisco e Clara

Antes disso, acompanhei David Hertz, a embaixadora da Gastromotiva Eloísa Aquino e Maurício Ramos na visita à Casa de Francisco e Clara, mantida pela Pontifícia Universidade Católica de Curitiba (PUC/PR). A iniciativa de abrigar projetos sociais junto à Vila Torres surgiu do apelo do Papa Francisco para mudarmos a economia da exclusão para a de inclusão. Uma economia que diminua a desigualdade, não divida o mundo entre quem tem e quem não tem, e coloque a vida e a dignidade humana no centro. “É uma economia ligada aos territórios, sem deixar ninguém para trás”, reforça Juliana de Oliveira Souza, especialista em Identidade Institucional da universidade.

Mais do que as previsões sobre o futuro, impressiona-me ainda como carregamos  preconceitos sobre a periferia. Perguntei à Maurina Carvalho, presidente da Associação dos Moradores da Vila Torres, como ela chegou ali e escuto a história que é igual a de milhares. Ela saiu do interior de Minas Gerais com a família para plantar café no Norte do Paraná. A geada de 1975 acabou com as plantações e ruiu os sonhos. Restava seguir atrás de uma oportunidade na capital para sobreviver. A ocupação que já teve vários nomes era o único lugar possível. Aos quinze anos já era mãe, trabalhava como doméstica e morava em um barraco. Impossível não se emocionar ao escutá-la. Quase 50 anos depois, nos contou sobre suas conquistas, a conclusão dos estudos e de como chegou à universidade e a alegria de ver os filhos formados. Diz que não pensa em parar e não quer sair da Vila. Assumiu a presidência da associação no ano passado planejando, entre outras coisas, acabar com a discriminação que os moradores ainda sofrem. Recentemente, ao pegar um uber escutou da motorista, “não entro lá”. A moça acabou tomando um café na casa da Maurina, que continua perseguindo seus sonhos. 

No fim, nossa preocupação maior não deveria ser sobre o que a tecnologia será capaz de fazer, mas sobre o que nós podemos mudar para incluir.

 

Jussara Voss

Jornalista, escritora e agitadora cultural. Ativista da gastronomia social, defendendo comida de qualidade e acessível para todas as pessoas.

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