Skip to content Skip to footer

SÉRGIO MAMBERTI – MEMÓRIAS DO BRASIL

Foto: Acervo Globo

Ver e escrever a ferro e fogo une prática, necessidade laboral e prazer. Meu compromisso é com a terceira condição, o prazer. 

No generoso convite e espaço aberto pelo BFC pretendo escrever por prazer sobre o que me proporciona prazer, desde um acontecimento fortuito a comentários sobre obras cinematográficas, em especial documentários, já que navego profissionalmente por esses mares. Um espaço para reunir memórias pessoais, que conectam pessoas, obras e se tornam memórias sociais.

Então vamos a Evaldo Mocarzel e logo chegaremos a “Sérgio Mamberti – Memórias do Brasil”. 

Era possivelmente 2006, em uma festa na Cinemateca Brasileira/SP, que conheci Evaldo Mocarzel. Ele se destacava no cenário do cinema documentário com filmes sociais como À Margem da Imagem e, naquele ano, com Do Luto à Luta, obra super premiada, e à qual tive a oportunidade de ter meu primeiro filme, Missionários, exibido na mesma edição do festival É Tudo Verdade/2005. Lá se vão 20 anos. 

Na época, era um noviço na paulicéia, tateando em nova etapa da vida com casamento e o primeiro rebento, nessa nova terra desvairada.  Na festa, me aproximo de Evaldo, comento dos nossos filmes no festival e me disponho a trabalhar com ele como fotógrafo, que era o meu ofício “oficial”. Trocamos telefone. Na manhã seguinte já me liga: “meu caro amigo Cleisson, grande brodaço, tenho uma guerrilha a lhe propor”. Nesse instante, começo a conhecer um sujeito apaixonado pelas artes em todas as formas. Jornalista, ex-editor do caderno de cultura do jornal Estado de São Paulo, o novo projeto de Evaldo era documentar os grupos teatrais de São Paulo em atividade, através de linguagens distintas do registro teatral filmado. Evaldo levou seu projeto a frente por anos, com poucos recursos, mas pleno de muita paixão, conhecimento e pragmatismo nos objetivos. O resultado desses anos de imersão com distintos grupos foi a criação de uma memória única sobre o teatro paulistano da primeira quinzena do século XXI, que se transformou em teses de mestrado e doutorado e hoje é fonte primorosa para os estudos teatrais. 

Em sua paixão pela arte teatral, Evaldo sempre destacou o fascínio que tem pelos artistas. Em suas palavras, “os artistas são pessoas que se sujeitam ao risco em cena e ao julgo do público”. Esse fascínio está impresso em “Sérgio Mamberti – Memórias do Brasil”. Construído por uma longa entrevista em off, o filme apresenta um ser humano apaixonado pela vida, que fez do ato artístico a ferramenta de luta política diante de um longo governo ditatorial, que tinha como projeto de país, ótimos resultados para poucos e uma consequente e crescente desigualdade social. 

Sérgio Mamberti teve lado e propósito, que o forjou a ser um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Sabia bem o mal do reacionarismo em uma sociedade forjada por 400 anos mercantilização de vidas, como a tragédia da escravidão e a servidão do trabalho em troca de migalhas, espalhadas pelo país. Por isso, Mamberti exprime sua ação política na condição de que a arte é também uma ferramenta de emancipação dos corpos e pensamentos frente ao arcaísmo. Foi libertário e democrata. Libertário sim,  palavra hoje em processo de sequestro por reacionários ultraliberais, que desejam explorar tudo e nada compartilhar. E essa liberdade Mamberti praticou em vida, respeitando e convivendo com as diferenças, certo da compreensão do desejo como fonte emancipadora da repressão dos costumes. Assim, viveu movimentos culturais de liberação dos corpos e mentes como expressões criativas e de contestação de ditaduras e imposições repressoras. Encarou a ditadura com altivez e ironia refinada. Liberou artistas de prisões arbitrárias, a exemplo do ocorrido com o grupo inglês Living Theatre no Brasil. Lutou por papéis, vide a magnífica interpretação de juiz de direito na mítica encenação de O Balcão, dirigida por Victor Garcia. 

Em um filme forjado com vasto material de arquivo e uma carpintaria de edição de imagem e sonora, Evaldo biografa um ser humano pleno, seguro de si, antagonizado pelas neuroses sociais e os podres poderes da ditadura militar.

Ao fim da sessão na Cinemateca, dentro da DH Fest (Mostra de Direitos Humanos) , a cineasta Ana Petta comenta com Evaldo sobre a elegância que o filme imprime, uma das características do próprio Sérgio Mamberti. Um dos três filhos de Sérgio, o ator Duda Mamberti, relata o privilégio de viver com o pai nos últimos anos sob o mesmo teto, unindo seu prazer em cozinhar e dividir a mesa com Sérgio, e, diariamente, também compartilhar sessões de cinema e teatro, e conversar.

Cleisson Vidal

Mais Matérias

17 mar 2026

Justiça italiana em referendo: o que está em jogo para a democracia

Muitos cidadãos italianos que vivem fora da Itália, especialmente no Brasil e na América do Sul
17 mar 2026

A Agressão do Império e seus Reflexos Ambientais: Petróleo, Água e o Fósforo Branco

A invasão do Irã, também denominada pelos yankees como “Operação Fúria Épica”, completou mais de quinze dias da escalada do conflito.
16 mar 2026

FALCON DE PIJAMA

Nasci em outubro de 1974, cume da ditadura. Naquele ano, em março, Geisel substituiu Médici na presidência…
13 mar 2026

Carta aberta de Toni Reis ao Ratinho sobre Erika Hilton: da datilografia à inteligência artificial

Caro Ratinho, Você é hoje um grande formador de opinião para muitos setores da sociedade brasileira…
12 mar 2026

As mudanças que dão sentido

Entre teorias e açaí colhido no pé, verdades que costumamos ignorar

Como você se sente com esta matéria?

Vamos construir a notícia juntos