O Brasil voltou a registrar, em 2025, um recorde de afastamentos do trabalho motivados por transtornos mentais, consolidando uma tendência que já havia se manifestado no ano anterior. Dados do Ministério da Previdência Social indicam que mais de 546 mil trabalhadores precisaram interromper suas atividades por questões psicológicas, número 15% superior ao de 2024. No total, cerca de 4 milhões de licenças médicas foram concedidas no país no ano passado, o maior volume dos últimos cinco anos.
Um levantamento que analisou mais de duas mil ocupações, elaborado a partir de dados do INSS, sistematizado pela plataforma SmartLab, iniciativa da Organização Internacional do Trabalho em parceria com o Ministério Público do Trabalho, e revelado pelo portal g1, mostra que os afastamentos se concentram principalmente em profissões essenciais ao funcionamento cotidiano das cidades.
Vendedores do comércio varejista, faxineiros, auxiliares de escritório, assistentes administrativos e trabalhadores da linha de produção lideram o ranking nacional.
Especialistas apontam que essas atividades compartilham características estruturais semelhantes: contratos frágeis, alta rotatividade, pressão constante por metas e jornadas prolongadas. Soma-se a isso a baixa autonomia no trabalho e, em algumas funções, a exposição direta à violência urbana, como no caso de motoristas e vigilantes.
Esse conjunto de fatores cria um ambiente propício ao adoecimento psíquico, especialmente entre trabalhadores com menor poder de negociação e maior dependência do emprego para garantir renda.
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Entre os diagnósticos mais frequentes estão os transtornos de ansiedade e os episódios depressivos, que juntos respondem pela maior parte das licenças concedidas em 2025. Também houve crescimento nos afastamentos por transtorno bipolar, estresse grave, dependência química e esquizofrenia.
O impacto financeiro é expressivo: estimativas indicam que os benefícios pagos por licenças relacionadas à saúde mental podem ter se aproximado de R$ 4 bilhões no ano, com predominância de afastamentos entre mulheres, que representam cerca de 63% dos casos.
O cenário reforça que a saúde mental deixou de ser apenas um tema de bem-estar individual e passou a ocupar o centro do debate econômico e trabalhista. A Organização Mundial da Saúde estima que ansiedade e depressão provoquem, globalmente, a perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com prejuízo de cerca de US$ 1 trilhão à economia mundial.
No Brasil, a discussão ganhou novos contornos com o adiamento da atualização da Norma Regulamentadora nº 1, que prevê a fiscalização de riscos psicossociais nas empresas. O governo afirma que não haverá nova prorrogação, enquanto trabalhadores e especialistas aguardam medidas capazes de frear uma crise que já afeta milhões de pessoas.
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