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O Ceará é o que há

Theatro José de Alencar
Teatro José de Alencar. (Foto: Arquivo Pessoal)

Pensa num lugar “bonito pra chover”, como dizem no Ceará, onde as chuvas são mais raras e, portanto, bem vindas.

A frase está escrita na entrada da Pinacoteca, um equipamento cultural inaugurado há 3 anos mas que não deixa a desejar aos mais interessantes museus de Arte contemporânea do mundo. Com a vantagem de estar conectada com a cultura popular e com o que se produz nos diferentes territórios de Fortaleza e do Ceará.

Em Fortaleza, eu só vi céu azul e mar turquesa. Água quente e limpa, como um verdadeiro Caribe no Brasil. Povo na orla, muita atividade de economia social e solidária. 

Mas este texto não tem vocação para ser guia turístico. O que eu quero lhe contar é sobre, como sempre, política. 

Uma prefeitura engajada com a transformação social, num Estado progressista, no país do Lula. O alinhamento dos planetas produz algo de realmente interessante em termos de políticas públicas. Claro que as dificuldades são ainda grandes e nós todos conhecemos o Brasil para não negar isso. Mas os progressos também são significativos. E se nós, do campo democrático e da transformação social, não reconhecermos, não são os outros que o farão. 

Poderia falar da educação no Estado, que é a melhor do país, principalmente no combate ao analfabetismo, com medidas de suporte entre ação estadual e municipal. Mas vou falar de uma área próxima, do setor da cultura. A terra de Belchior, em poucos anos, tirou do chão um verdadeiro complexo cultural, com uma dezena de equipamentos interligados e dinâmicos, que se somam aos já existentes e também únicos, como o teatro José de Alencar e o centro Dragão do Mar. 

No centro de Fortaleza, além da já citada Pinacoteca, uma Estação de trem desativada foi transformada em espaço cultural, onde são feitos shows, exposições, Forró e espaço de gastronomia local sustentável, a Estação das Artes. Ao lado, fica o Kuya, centro de design do Ceará, com exposições e criações. Perto, está a comunidade Moura Brasil, também conhecida como Oitão Preto. Um lugar de memória e de vida da classe trabalhadora brasileira, frequentemente excluída do mundo das “benesses” do consumo capitalista e do acesso aos serviços públicos de qualidade.

A chegada da Estação das artes não é feita sem um diálogo com os habitantes locais, inclusive com os moradores em situação de rua. O institututo Mirante, responsável pela gestão de 9 equipamentos culturais do Estado na cidade, trabalha com a Assessoria da promoção das Ações Afirmativas. Ou seja, junto com a política cultural são feitos vários projetos para a população local, que é incluída como bolsista, nos setores de trabalho, na produção do jornal, na promoção de novas atividades culturais, de gestão do espaço, inclusive com jardins coletivos.

Estamos conscientes de que a cultura não faz milagre de um dia para o outro, coisa que nem padre Cícero deu conta. Mas ela muda a vida de muita gente, de forma direta ou indireta, como fazedores culturais ou como usuários de um espaço comum. O que seria das grandes cidades como Nova Iorque e Paris sem o patrimônio cultural? Portanto, em Fortaleza, e também nas suas periferias, também não é diferente. 

Os eventos culturais acontecem junto com a chegada de serviços, como consultórios ambulantes ou a presença de assistentes sociais, ajudando a população no acesso à saúde e aos direitos (inscrição nos programas de fomento, no bolsa aluguel para tirar pessoas da rua, entre outros).

Um dos projetos que mais chamou minha atenção foi o mapeamento afetivo. Trata-se de uma cartografia participativa dos bairros populares, construída com moradores, que coloca em valor a cultura, a gastronomia, a memória e a história locais. A iniciativa propõe uma redescoberta dos bairros, valoriza a atividade existente e ajuda a revelar novas práticas e artistas.

O memorial da liberdade, ligado ao MIS (Museu da Imagem e do Som) é outra realização recente que  simboliza bem esse processo de reapropriação da cidade. O lugar era antes um mausoléu do primeiro general que assumiu a presidência depois do golpe, Castelo Branco. Os restos mortais foram devolvidos à família e ali se construiu um novo espaço de exposição engajado com a democracia brasileira, como faz jus a exposição atualmente em cartaz do coletivo Aparecidos Políticos. O prédio é lindíssimo. 

O Ceará é hoje uma metonímia do Nordeste do Brasil, esse lugar de riqueza cultural singular no mundo e em plena transformação social. Terra dos povos indígenas Tremembé, primeiro Estado a abolir a escravidão, em 1884, graças à ação do jangadeiro Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, e do protagonismo feminista, com a sociedade das mulheres libertadoras, dentre outras. 

Terra que hoje é pioneira na transformação cultural e educativa. Muita potência que precisa ser conhecida no Brasil e no mundo, como parte do enfrentamento social que ainda temos de fazer. E faremos.  Eu pretendo trazer um pouco dessa pulsão criativa para cá, do outro lado do Atlântico. E voltar sempre ao Nordeste, com mais mais tempo e frequência. No mais, a gente pode seguir para sempre fazendo o L, pois realmente vale muito a pena. 

Sílvia Capanema

Historiadora e Professora Doutora na Sorbonne Paris Nord, parlamentar na França e ativista da RED-Br. Pesquisa movimentos sociais e memória popular.

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