Quando Karl Marx escreveu O 18 Brumário de Luís Bonaparte, em 1852, não estava apenas analisando um episódio da França do século XIX. Estava oferecendo uma chave de leitura poderosa para entender como crises políticas profundas abrem espaço para figuras autoritárias que se apresentam como “salvadores da pátria”, enquanto reorganizam o poder em benefício das classes dominantes. Ali nasce a célebre formulação: a história se repete, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
Escrevo este texto a partir de um lugar muito concreto. Ele nasce como resposta a uma prova de seleção para a turma de mestrado em Sociologia da UFPR de 2026 — processo no qual fui aprovado!! Não é um detalhe menor: minha formação acadêmica de origem é a Administração. A Sociologia, especialmente a teoria marxista, não foi parte estruturante da minha trajetória universitária formal. Cheguei a Marx pela militância, por cursos de formação política, por palestras, leituras fragmentadas e, sobretudo, pela prática. Escrever sobre O 18 Brumário foi, ao mesmo tempo, desafio intelectual e afirmação de percurso. Um exercício de rigor, mas também de orgulho.
O texto de Marx analisa como Luís Bonaparte ascende ao poder apoiado numa sociedade fragmentada, exausta de conflitos, incapaz de produzir mediações políticas estáveis. O bonapartismo não é simplesmente um golpe clássico: é uma forma de dominação que se sustenta na aparência de neutralidade, no apelo direto às massas e no enfraquecimento deliberado das instituições representativas. O líder se apresenta como acima das classes, quando na verdade governa para preservar a ordem existente.
É difícil não reconhecer ecos disso no Brasil recente. O bolsonarismo não surgiu do nada. Ele se alimentou de uma crise prolongada do sistema político, da corrosão da confiança nas instituições, da desorganização do campo popular após anos de ofensiva neoliberal e autoritária. Jair Bolsonaro operou como uma caricatura contemporânea do bonapartismo: um líder tosco, autoritário, que se dizia antissistema enquanto aprofundava a captura do Estado por interesses privados, militares e milicianos.
Se no século XIX Marx descreveu a “sociedade dezembrista” — grupos desorganizados, clientelistas, mobilizados artificialmente para sustentar o golpe — hoje lidamos com suas versões digitais. As milícias do século XXI operam por meio de redes sociais, fake news, disparos em massa, algoritmos e medo. O chamado “gabinete do ódio” não é um desvio moral: é uma tecnologia política de produção de consenso autoritário, adaptada às condições do capitalismo de plataforma.
Aqui, a farsa não diminui o perigo. Ao contrário. A repetição histórica, quando não enfrentada, pode produzir tragédias ainda maiores. Marx nos lembra que os sujeitos fazem a história, mas não nas condições que escolhem. As condições estão dadas: desigualdade extrema, crise ambiental, precarização do trabalho, guerra cultural permanente. O extremismo ocupou espaço no Brasil e no mundo porque encontrou terreno fértil.
Diante disso, não cabe neutralidade nem falsa moderação. A história não avança por conciliação com o autoritarismo. Avança quando forças democráticas, populares e progressistas compreendem o momento histórico e entram em movimento. Em 2026, o Brasil terá novamente a chance de impor uma derrota política ao neofascismo, com Lula na disputa. Não se trata de culto à liderança, mas de compreensão estratégica: derrotar o bolsonarismo é condição para reconstruir o país.
Este texto, que começou como prova, termina como convocação. Ler Marx hoje não é exercício de erudição: é ferramenta de luta. A história já nos mostrou o roteiro. Cabe a nós decidir se aceitaremos mais uma encenação farsesca — ou se escreveremos, coletivamente, um novo capítulo.
