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Desordem global e guerras sem fim: o legado da longa erosão da hegemonia estadunidense

Foto: Reprodução

Vivemos um momento decisivo na história global. A ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, sob os auspícios dos Estados Unidos, não parece mais atender aos interesses de seu próprio arquiteto e principal beneficiário. Em um processo que ganhou contornos “nus e crus” sob a segunda administração de Donald Trump, mas que já se desenhava anteriormente, os EUA estão, paradoxalmente, a desmantelar a estrutura de poder que eles próprios edificaram.

Para compreender a profundidade dessa transição, é essencial revisitar o processo histórico que moldou a arquitetura do poder global contemporâneo. Desde a década de 1890, a política externa dos EUA foi marcada pelo uso contínuo do seu poderio econômico e da pressão militar para abrir mercados aos seus produtos e capitais. Esse processo teve origem com a guerra contra a Espanha e, depois, com a Open Door Policy. Ao final da Segunda Guerra Mundial, os EUA emergiram como a grande potência global, seguidos de longe pela União Soviética. Naquele contexto, trataram de edificar uma nova ordem global que era, em grande medida, uma projeção de suas instituições domésticas. Nessa nova arquitetura de poder, foram fundamentais a assinatura do Tratado de Bretton Woods, a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional e a definição do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), mais tarde complementados pelo Plano Marshall, pela Doutrina Truman e por alianças regionais, como o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Nesse cenário, a União Soviética, como segunda potência global, sentiu-se ameaçada e reagiu, o que desestabilizou ainda mais a aliança costurada para enfrentar as forças do Eixo e deu origem à Guerra Fria. Apesar da polarização, a diferença de poder entre os dois blocos era abissal: enquanto a URSS enfrentava a devastação da guerra e mantinha, a duras penas, a sua área de influência negociada em Ialta e Potsdam, os EUA empregavam o seu colossal poder econômico e bélico, inclusive nuclear, para conter a adversária.

A flexibilização das regras pelos próprios criadores

A ordem internacional foi, em grande medida, planejada e executada conforme o “script” estadunidense. Contudo, ao longo da segunda metade do século XX, os EUA frequentemente desrespeitaram as próprias regras sempre que os seus policy-makers entendiam que elas obstaculizavam os seus interesses imperiais. No entanto, durante a Guerra Fria, a existência de uma outra superpotência impunha limites. Era um jogo constante de contenção mútua.

Com o fim da Guerra Fria e a desagregação do mundo soviético, emergiu um período de cerca de duas décadas de extrema preponderância do poder estadunidense. Não havia mais uma potência capaz de limitar os “apetites imperiais” dos EUA, uma vez que a Rússia, herdeira da URSS, estava enfraquecida. É notável que, sob Vladimir Putin, a Rússia tenha buscado maior integração com o Ocidente, propondo inclusive um sistema de segurança europeu com a sua participação. Tais propostas, porém, foram consistentemente rejeitadas ou simplesmente ignoradas.

De modo diverso, ao contrário das promessas efetuadas por George Bush a Gorbatchev, a partir do final da década de 1990, os EUA e os seus aliados iniciaram um processo de assédio para que países da antiga órbita soviética aderissem à Otan:

1999: República Checa, Hungria e Polônia
2004: Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia
2009: Albânia e Croácia
2017: Montenegro
2020: Macedônia do Norte
2023: Finlândia (país neutro)
2024: Suécia (país neutro)

Guerras sem fim e a desestruturação de Estados

O século XXI começou para os EUA com os ataques de 11 de setembro de 2001, o que impulsionou o país a um conjunto de “guerras sem fim”, muitas vezes baseadas em informações questionáveis, como no Iraque. O ponto crucial é que, desde então, os EUA passaram a agir, eventualmente com o apoio de aliados europeus, outras vezes de forma unilateral, e a ação militar fora de suas fronteiras foi naturalizada no “Mundo Ocidental”. Tais ações foram frequentemente apresentadas como uma luta em defesa da liberdade e da democracia. Paradoxalmente, ações semelhantes da Rússia ou da China mesmo próximas às suas fronteiras são invariavelmente caracterizadas como atos de agressão.

Os EUA têm reunido alianças para “levar a liberdade” a outros países, o que tem resultado repetidamente na destruição, na desestruturação de Estados e no saque de riquezas, como visto no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria. Nesses casos, a ordem internacional foi violada, mas ainda se buscava um “verniz de legalidade”.

Hoje, a “bola da vez” é o Irã. A guerra em curso contra o Irã viola abertamente as leis internacionais e torna a ONU um organismo quase irrelevante, processo que já havia se acelerado com a impotência da organização diante do assassinato de seus próprios funcionários, durante o genocídio perpetrado por Israel em Gaza.

O fim do multilateralismo e a competição com a China

Os ataques dos EUA à ordem internacional não param no plano militar. Eles estão a destruir o que resta do multilateralismo, que eles mesmos criaram ao final da Guerra Fria. Nessa nova via, os EUA adotaram o protecionismo como nova estratégia comercial. Por quê? Os EUA não conseguem mais competir com a China no mercado internacional. Assim, passaram a atacar outro pilar da ordem, estruturado em grande medida na Organização Mundial do Comércio (OMC). O uso da força econômica e militar para impor os seus interesses visa retardar o inexorável avanço da China. Nas últimas décadas, assistimos à transferência do polo dinâmico do capitalismo da América para a Ásia. Vivemos um momento de transição de hegemonia dos EUA para a China, um processo que, historicamente, nunca se deu de forma serena.

Declínio do soft power e a paciência chinesa

Nesse processo, ocorreu o declínio da eficácia do soft power dos EUA, enquanto a China espera pacientemente pelos novos desdobramentos. É uma estratégia de média e longa duração de Pequim. Os Estados Unidos continuam a ser o hegemon global, mas enfrentam um longo processo de erosão de sua influência. Como potência em declínio, os EUA dependem cada vez mais do uso da força militar, enquanto a China adota uma estratégia paciente e não confrontacional. Beijing procura contornar os obstáculos para crescer e se fortalecer antes de um eventual embate futuro.

Historicamente, as transições de poder global geram instabilidade. Conflitos locais e regionais tendem a se expandir, com o risco de se tornarem globais, a exemplo do que ocorreu com a decadência britânica, que desembocou em duas guerras mundiais.

O dilema atual: a agressão ao Irã

No cenário atual, a guerra contra o Irã representa um grave erro estratégicoestadunidense. Os EUA possuem uma vantagem militar incomensurável e aliados regionais fortes (Israel e monarquias do Golfo). O Irã, contudo, não conta com aliados de peso dispostos a um confronto direto; Rússia e China, provavelmente, evitarão envolvimento para priorizar seus próprios interesses (a guerra na Ucrânia e o crescimento estratégico, respectivamente). Em paralelo, o regime iraniano possui maior apoio popular e capacidade de defesa do que os EUA e Israel previram. Assim, as promessas de uma guerra rápida não foram concretizadas. Além disso, nos EUA, crescea percepção de que o conflito não atende aos interesses do país, mas de Israel. Nessa esteira, ganham corpo as manifestações contra a guerra.

Os EUA enfrentam um dilema: a manutenção do conflito desgasta o país, mas um recuo ou uma “derrota moral” (impulsionada por protestos locais e globais) degradaria severamente a sua liderança internacional. Além disso, as reverberações do conflito nas eleições de meio termo podem ocasionar a perda de maioria republicana no Congresso. Nesse cenário, crescem as possibilidades de um impeachment de Donald Trump. Trump não tem alternativa, precisa vencer ou vencer.

Sidnei J. Munhoz

Historiador, Doutor pela USP, Professor do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É pesquisador em História Contemporânea, atuando em política internacional, Guerra Fria e relações Brasil-EUA, com forte produção acadêmica.

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