Em decorrência de um debate que surgiu em alguns grupos ancorados nas chamadas redes sociais, após a publicação do meu artigo anterior no BFC (O que as elites predatórias brasileiras não querem que você saiba sobre o fim da escala 6 X 1) vou ousar recuperar, mesmo que de modo sucinto, a prodigiosa reflexão do grande pensador brasileiro Darcy Ribeiro. Na SBPC de 1977, realizada na PUC de São Paulo, ele discorreu sobre o óbvio (o texto foi posteriormente publicado e republicado ao longo de décadas). Na ocasião, Darcy Ribeiro empregou uma das mais engenhosas metáforas epistemológicas para explicar a diferença entre a aparência (o senso comum) e a essência (a ciência, o pensamento crítico).

De início, Darcy Ribeiro narrou que todos os dias via o sol nascer a Leste e se por a Oeste. Afirmou então que era óbvio que o Sol girava ao redor da Terra. Nesse ínterim, com base na ciência, ele iniciou a desconstrução da falsa assertiva e mostrou que nem tudo é o que aparenta ser. Conquanto essa desconstrução do “óbvio” movimento do Sol esteja ancorada em uma premissa clássica da filosofia da ciência, Darcy Ribeiro a utilizou de forma magistral em suas reflexões, conferências e ensaios sobre a educação e a sociedade brasileira, mormente ao final da década de 1970 e durante a seguinte.
A construção argumentativa que Darcy Ribeiro empregou tinha como objetivo levar o leitor do campo das ciências naturais para o das ciências humanas. Outras falsas obviedades foram desconstruídas por intermédio da análise crítica. Dentre elas, algumas merecem menção, como, por exemplo, a de os pobres vivem às custas dos ricos. Nessa outrora imagem consolidada no senso comum:
“Está na cara? Sem os ricos, o que é que seria dos pobres? Quem é que poderia fazer uma caridade? Me dá um empreguinho aí! Seria impossível arranjar qualquer ajuda. Me dá um dinheirinho aí! Sem rico o mundo estaria incompleto, os pobres estariam perdidos” (Ribeiro, 2013).
Nesse ponto, está o núcleo da crítica social desenvolvida por Darcy Ribeiro. Ele desconstrói a ideia de que a desigualdade é o resultado direto do mérito ou da preguiça individual. Ele demonstra como a desigualdade é estruturalmente produzida por relações sociais históricas de exploração (colonialismo, capitalismo dependente, exclusão educacional).
Ainda nesse périplo contra as obviedades construídas à revelia da ciência, Darcy Ribeiro discorre sobre a suposta obviedade de que os negros fossem inferiores aos brancos. Ribeiro apresentou o seguinte raciocínio então perenizado no imaginário popular
“Uma terceira obviedade que vocês conhecem bem, por ser patente, é que os negros são inferiores aos brancos. Basta olhar! Eles fazem um esforço danado para ganhar a vida, mas não ascendem como a gente. Sua situação é de uma inferioridade social e cultural tão visível, tão evidente, que é óbvia” (Ribeiro, 2013).
Na sequência o professor desconstrói essa visão deturpada de mundo que cumpria (e, como vemos, ainda cumpre!!!) um papel fundamental na imposição da perspectiva das elites e, por consequência, na dominação e no controle social. Ele afirma que os negros foram colocados nessa posição de inferioridade social por questões históricas. Para Darcy Ribeiro, essas razões nada têm a ver com as capacidades e as aptidões inatas, mas são resultado da imposição de interesses concretos das elites.
Por fim, Ribeiro falou da enganosa obviedade de que o brasileiro é um povo chinfrim. Aliás, a não-elite tupiniquim nunca abandona essa perspectiva. Ela prefere desempenhar um papel de subordinada das elites capitalistas dos chamados países centrais, do que trilhar o caminho do desenvolvimento nacional e estruturar políticas de soberania nacional. Novamente, Darcy Ribeiro desmantela a suposta obviedade.
O que isso tudo tem a ver com o nosso tema? Eu retomei o grande pensador brasileiro para mostrar como certas construções sociais cumprem um papel colossal na edificação de uma arquitetura de poder sobre a qual se assentam as nossas não-elites. Poderia para isso retomar Jessé de Souza e discorrer sobre as “elites do atraso”, mas penso que nem mesmo o papel de elite essa gente assume. A coisa chega ao extremo de agir contra os interesses nacionais (e às vezes contra os seus próprios objetivos de classe) para angariar papeis subalternos nos círculos das elites globais. É o velho complexo de vira-latas. Em decorrência, emprego o termo não-elite numa espécie de provocação para chamar essa pseudo-classe dominante brasileira de estúpida.
Nesses tempos de predomínio das informações transmitidas pelas redes sociais, ocorre aquilo que o grande historiador italiano Umberto Eco advertiu havia cerca de uma década: a Internet deu voz a uma multidão de imbecis. Nessa senda, proliferam as notícias falsas (por incrível que pareça, aqui no Brasil, é mais fácil encontrar nas mídias o termo fake-news). A coisa chegou a um ponto, que muita gente se orgulha de defender que a Terra é plana (e muitos ganham dinheiro com isso), afinal é óbvio que se olho para a frente e vejo um horizonte plano, o planeta só pode ser plano. Não!!! Taxativamente não é assim!!! As coisas não são o que aparentam ser.
Nesse ponto, é necessário pensar criticamente e diferenciar a aparência da essência das coisas. Num mundo onde algoritmos amplificam velhos preconceitos e impulsionam novos mitos; onde o capitalismo mascara a exploração como liberdade individual, duvidar do “óbvio” torna-se um ato político revolucionário.
A tarefa proposta por Darcy Ribeiro, de substituir a crença na aparência pela análise crítica, é a mesma necessária para enfrentar os dilemas do nosso Tempo Presente. Então,Darcy Ribeiro continua atualíssimo pois o seu texto é um guia de resistência epistemológica. Nessa senda, recomendo atentarmos para as falsas notícias (fake news) e para as máscaras criadas pelas elites para controlarem a classe trabalhadora. Elas operam exatamente na lógica do “óbvio” desconstruído por Darcy Ribeiro. Elas são planejadas para apelar às nossas percepções cognitivas distorcidas pelas máscaras ideológicas sobrepostas ao real, de modo a ocultá-lo. Ainda, essas falsas informações têm por objetivo alimentar preconceitos solidamente ancorados nas relações sociais vigentes.
Uma notícia falsa funciona porque ela se apresenta como “verdade” para quem já tem uma predisposição a acreditar nela. Ela oferece explicações simples, diretas e emocionais para problemas complexos. Desconstruir essas falsas explicações demanda o mesmo esforço científico de entender que a Terra gira em torno do Sol: é preciso ir além da tela. É necessário pesquisar as fontes, compreender os interesses empresariais das big techs (grandes corporações de tecnologia da informação) expressos nos algoritmos ocultos que definem sobre o que e como as pessoas serão (des)informadas. A superficialidade das redes sociais é um terreno fértil para a imposição da tirania do óbvio.
Nessa senda, as redes definem o que e como a maioria vai pensar e agir. Mais do que isso, definem o que as pessoas comerão, que roupas usarão, que músicas ouvirão, quem odiarão, como amarão, como farão sexo, como votarão e aí por diante. Desse modo, multidões de seres autômatos passam a operar contra os seus próprios interesses, convictas de que estão a proceder de forma livre e independente. Vejam como isso tudo é muito grave e impacta as suas condições de sobrevivência e a sua própria forma de viver.
Nesse contexto em que o real é dissimulado por explicações enganosas, é necessário retirar as máscaras que distorcem a percepção da realidade. Comecemos pelo processo de exploração realizado no capitalismo contemporâneo ou, como alguns denominam, “capitalismo de plataforma” (a denominada uberização do trabalho). Esse modelo de exploração está alicerçado na criação de novas “obviedades”. Hoje, no senso comum, está consolidado como óbvio que quem trabalha por aplicativo é uma pessoa “empreendedora”. Nessa lógica perversa, o trabalhador superexplorado acredita que é o “seu próprio chefe” e que ele é livre para definir os seus horários e a sua forma de trabalho. Doce ilusão!!!
Muitos jovens empregam inclusive o termo CLT de forma pejorativa para designar alguém que não quer nada com a vida. Nessa construção, os direitos conquistados em árduas lutas sociais foram metamorfoseados em fardos que precisam ser eliminados. Assim, a aparência (o óbvio) é a autonomia, enquanto a essência (a realidade estrutural) revela a precarização extrema, a ausência de direitos trabalhistas, a transferência dos custos e dos riscos do patrão para o trabalhador e a subordinação do último a um controle algorítmico invisível e implacável.
Não obstante, o legado de Darcy Ribeiro nos recomenda considerar que o pensamento crítico é, fundamentalmente, um ato de rebeldia contra as obviedades que nos são impostas para manter o status quo. Em consonância com esse legado, a crítica desafiadora deve submeter as evidências imediatas à análise rigorosa, buscar fontes, desvendar contextos históricos e interesses mascarados pela (des)informação.
A velocidade das redes torna isso ainda mais urgente, pois elas dissimulam as sofisticadas formas de exploração implementadas no capitalismo contemporâneo. Nesse contexto, o sistema capitalista plataformizado produz novas “obviedades” que naturalizam a precarização. Elas são expressas nessas “(in)verdades” disseminadas aos milhões de autômatos: “É óbvio que você é um empreendedor de si mesmo” (uberização). “É óbvio que os direitos trabalhistas engessam a economia e, ao fim, prejudicam a quem trabalha” (desregulamentação do trabalho). “É óbvio que a poluição e o desmatamento é o preço necessário a ser pago pelo progresso” (inevitabilidade da degradação ambiental).
Essas frases ocultam a ardilosa transferência de riscos para as trabalhadoras e os trabalhadores, mascaram a financeirização da vida e a degradação ambiental. A naturalização do desemprego, da terceirização e da desigualdade extrema segue a mesma lógica: transformar construções sociais em fenômenos “naturais” e“inevitáveis”.
A manutenção das ideias naturalizadas sobre a desigualdade não é nova. Outro importante brasileiro, formado em direito e escritor, o baiano João Ubaldo Ribeiro, trouxe-nos, o livro Viva o Povo Brasileiro, em 1984. Nele, cutucou certas feridas com coragem e mostrou como o próprio Exército foi constituído, ao menos em parte, por prisioneiros saídos das prisões de Portugal. De fato, em suas origens, o Exército incorporou populares desvalidos, milícias regionais, mercenários estrangeiros e presos degredados. Muitas vezes, esses soldados foram empregados para reprimir, de forma brutal, as populações de onde eles eram provenientes. O tempo passa, mas certas coisas se mantêm incrustradas na cultura autoritária ainda prevalente.
Atualmente, essas raízes são renegadas e evita-se admitir que a riqueza de uma minoria foi erguida sobre a escravidão e a exploração da maioria. Seguimos sujeitos a dinâmicas de trabalho que desgastam o corpo e a mente de quem produz. A propósito, após citar, um mineiro, um potiguar e um baiano, recordo-me de outro notável brasileiro, desta vez gaúcho: Érico Veríssimo, um nome ímpar da nossa literatura. Em sua obra, ele dava voz aos trabalhadores do Rio Grande do Sul ao escancarar a dura realidade local e ao expor as agruras das suas vidas e mostrar que, nos vastos campos verdes do território sulista, muitos perdiam a vida pelas mãos de fazendeiros e escravocratas. Envio-lhe um abraço fraterno e socialista neste Dia Internacional dos Trabalhadores. Celebramos hoje a memória dos mártires da Greve Geral de Chicago e o legado da luta pela jornada de oito horas, que neste 1º de maio completa 140 anos.
Referências
RIBEIRO, Darcy. Sobre o óbvio. In: RIBEIRO, Darcy. Ensaios insólitos, p. 3-20. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013.
