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Não existe nuvem sem chão: o que Milton Santos ainda explica sobre o Brasil

Foto: Antipode Online

Vivemos falando de nuvem, como se o mundo tivesse perdido o chão. Mas talvez o maior erro do nosso tempo seja esquecer que nada do que chamamos de “digital” existe sem território. Foi lendo Milton Santos que comecei a entender isso — devagar. Não é um autor de leitura contínua. Duas páginas bastam, e o resto do dia vira reflexão. Leio assim: com o livro aberto e o computador ao lado, tentando alcançar seus conceitos, voltando, relendo, ligando ideias. Hoje, no dia em que ele completaria 100 anos, essa leitura ganha outro peso. É também o dia em que meu pai, Luiz Cláudio Mehl, completaria 80. Foi com ele que aprendi a olhar a cidade — a perceber que por trás de cada rua, de cada obra, de cada infraestrutura, existe uma escolha sobre como a vida vai acontecer. Talvez por isso Milton Santos faça tanto sentido agora: ele nos ensina justamente isso — a ver o território como aquilo que organiza a vida.

Um dos conceitos que mais me atravessaram foi o dos circuitos espaciais da produção. Ele mostra que nada do que consumimos nasce pronto ou em um único lugar. Tudo percorre um circuito: produção, transporte, comando, informação, consumo. Esse circuito se distribui no território. E, junto com ele, Milton Santos formula outra ideia poderosa: a existência de dois circuitos da economia urbana — não como mundos separados, mas como partes de um mesmo sistema. Um circuito superior, concentrado, tecnológico, que controla os fluxos, os dados e o dinheiro. E um circuito inferior, intensivo em trabalho, que sustenta o cotidiano e a circulação da vida concreta. O que impressiona é perceber como isso não ficou no passado — ao contrário, foi aprofundado. Porque, apesar do discurso da “nuvem”, é preciso lembrar: não há plataforma digital sem território. Não há aplicativo sem cidade. Não há algoritmo sem trabalhador circulando. Não há entrega “instantânea” sem motocicleta, rua, combustível, chuva, calor, periferia, centro, corpo cansado e tempo roubado. O digital não eliminou o território. Ele passou a depender ainda mais dele.

É aqui que entra outro par fundamental na obra de Santos: horizontalidades e verticalidades. As horizontalidades são os espaços da vida que se tocam — o bairro, o trajeto, o comércio de esquina, o encontro cotidiano. Já as verticalidades são os vetores de força que vêm de longe — normas globais, fluxos financeiros, algoritmos, decisões tomadas à distância, que organizam o que acontece no chão. O território vivido está sempre nessa tensão. O entregador de aplicativo, por exemplo, conhece a rua, calcula o tempo, decide o caminho — mas sua ação está continuamente organizada por uma lógica que não está ali, que vem de fora e que define o ritmo, o valor e a possibilidade do seu trabalho. O território não é só o que está perto — é também a forma como o que está longe nos atravessa.

Quando discutimos jornadas como a escala 6×1, não estamos falando apenas de horas de trabalho, mas de como o território organiza o tempo da vida. Quem atravessa a cidade todos os dias, quem depende de longos deslocamentos, quem trabalha mediado por aplicativos, vive uma forma específica de uso do território — muitas vezes exaustiva. E é preciso dizer isso com clareza: o circuito inferior não pode ser romantizado. É nele que a vida resiste, mas também onde a exploração se reorganiza, onde o trabalho se fragmenta e onde os direitos se tornam mais frágeis. Ninguém escolhe viver no limite por prazer. As pessoas fazem o que é possível dentro das condições que existem. O que Milton Santos nos ajuda a enxergar é que essas condições não são naturais — elas são produzidas. E, justamente por isso, podem ser transformadas.

Talvez seja aí que seu pensamento mais nos ajude a olhar para frente. Quando Milton Santos fala do território usado, ele insiste que o espaço é formado por objetos e ações — por infraestrutura, mas também por escolhas, usos e possibilidades. Seu método nos permite pensar a emergência climática não como um tema abstrato, mas como uma disputa concreta sobre o território: onde investir, o que proteger, como reorganizar a vida urbana. Falar em empregos verdes, em soluções baseadas na natureza, em iniciativas como o Arvoredo, só faz sentido quando entendemos que essas transformações precisam de chão — precisam acontecer onde a vida já está em curso, onde os problemas são mais intensos e onde as respostas podem ser construídas com quem vive o território todos os dias.

Celebrar Milton Santos, então, não é apenas lembrar sua obra. É aceitar seu convite: aprender a ver o mundo com mais rigor, mais sensibilidade e mais responsabilidade. Porque, uma vez que a gente entende que o território organiza a vida — entre o perto e o longe, entre o cotidiano e as forças que vêm de fora —, isso deixa de ser apenas uma ideia. Passa a nos implicar diretamente.

João Paulo Mehl

Atua em cultura digital, sustentabilidade e fomento cultural. Coordena projetos na UFPR, no Soylocoporti, no Terraço Verde e no Propulsão Cultural.

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