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Circularidade – A folha corrida do Bolsonarinho é bastante para o prender num eterno “correr atrás do próprio rabo”

(Foto: Pedro França/Agência Senado)

Os ônibus “circulares” fizeram parte do cenário do transporte coletivo carioca por décadas. E significavam uma vantagem, ainda que modesta, para os trabalhadores.

Eram linhas que transportavam os passageiros de qualquer ponto do circuito a outro, sem a comum distinção entre viagens de ida e de volta. Isso possibilitava que os usuários pagassem uma só passagem, em lugar de duas, quando precisavam se deslocar passando pela parada final.

O trajeto circular do omnibus (do latim “para todos”) sem início ou fim, pode ser representado pela antiga figura do ouroboros (do grego “consome a própria cauda”). E ouroboros, por sua vez, serviu de chave interpretativa para entender a grande chacina de nosso tempo.

Em 2017, a extraordinária artista visual e cineasta de origem palestina Basma Alsharif apresentou seu “Ouroboros”, documentário experimental sobre Gaza, no qual a brutal destruição israelense e a resistente reconstrução palestina foram mostradas como etapas de um agônico e infinito ciclo.

No entanto, desde que “Ouroboros” foi lançado, a intensificação do genocídio palestino ameaça romper a “serpente autofágica” com a aniquilação pura e simples dos reconstrutores.

Israel, teocracia atômica, absolutista e racista, desceu ao mais vil patamar moral a que um país pode baixar, igualando-se à Alemanha fascista de 1933-1945. E, exatamente por representar o que há de pior na humanidade, Israel atrai figuras como Bolsonaro e seu “Zerohum”, o senador da República Flávio Incitatus Bolsonarinho.

Pré-candidato a palhaço-mor do fascismo brasileiro, o submerso em lama Bolsonarinho foi a Israel submergir no Jordão, num caricato “rebatismo”. Não se duvide de que Bolsonarinho volte a mergulhar no rio de João Batista, uma vez para cada denominação religiosa de seu satânico arco de aliança, invalidando a cada novo banho a dialética de Heráclito de Éfeso. Podem mudar as águas do Jordão, as igrejas e os pastores do rito, mas o caráter de Bolsonarinho continuará o mesmo. Prova disso foram os recados que nos enviou diretamente da Terra Santa.

Bolsonarinho prometeu “varrer o antissemitismo” do Brasil; inventou que o Hezbollah atua na nossa Tríplice Fronteira com Argentina e Paraguai; e convidou o militarismo dos EUA a se apossar do Rio de Janeiro. Na aguda leitura do imprescindível Ualid Rabad, Bolsonarinho declarou: apoiar “o maior extermínio humano de todos os tempos, o dos palestinos em Gaza”; e defendeu a aplicação da mesma carnificina em larga escala às populações pobres e “indesejadas” do Brasil.

É mandatório recordar que, já antes dessa grotesca e desumana manifestação, Bolsonarinho se apresentou à rinha presidencial com uma longuíssima folha corrida a lhe escapar das calças. Homenagens, apoio, acobertamento e acumpliciamento ao crime organizado, se mesclam à rachadinha dos vencimentos de servidores fantasmas, ao assédio a mulheres em praias usando quadriciclos, e à consolidação de uma verdadeira capitania hereditária imobiliária, surgida sem causa aparente, lírico e didático exemplo acadêmico do que seja “enriquecimento sem causa”.

Tudo sabido e sopesado, a dúvida era quanto ao momento da campanha presidencial em que Bolsonarinho tentaria engolir sua folha corrida, para a ocultar dos eleitores, ganindo atrás do próprio rabo em patética versão do ouroboros. Esta incerteza foi esclarecida por uma outra circularidade, um outro ouroboros, o do Banco Master.

O Master de Vorcaro foi autorizado a atuar por Bolsonaro, via parceiro Bob Fields 3°. Captando recursos sem os lastros exigidos pelo Banco Central de todos as demais instituições, o dinheiro dos servidores do Rio de Janeiro, de Goiás, do Distrito Federal, do Amapá, e também algum dinheiro público do estado de São Paulo, foi carreado aos milhões para as campanhas de Bolsonaro, de Bolsonarinho, de Fascista de Freitas, de Cláudio Castro, de Caiado, da dupla Ibaneis-Celina, e do grupo de Alcolumbre.

Para quem não entendeu o ouroboros, desenhemos em três lances: (a) os políticos bolsonaristas injetavam dinheiro público no banco de Vorcaro; (b) Vorcaro embolsava boa parte dessas fortunas e doava o restante às campanhas eleitorais dos mesmos políticos bolsonaristas; (c) uma vez eleitos, a fonte de mais dinheiro público para Vorcaro estava garantida!

Tudo revelado por mensagens de texto e por diversos áudios, como aquele amoroso registro sonoro de Bolsonarinho, direcionado a Vorcaro trazido à luz do sol a que o clã é avesso.

A partir da revelação, Bolsonarinho foi tão precocemente transformado num ouroboros a perseguir o próprio rabo que, na sexta, 15, editorial do “Estadão” (jornal sempre cioso da consciência de classe dos ricos) clamava por uma candidatura da “direita democrática”.

“Direita democrática” é uma entidade mitológica mais ou menos da época em que os gregos inventaram o ouroboros. Costuma ser celebrada pelos saudosos da Atenas do Século de Péricles, para a classe dominante um exemplo de “democracia”, pouco importando que a economia daquela cidade fosse calcada em trabalho escravizado.

De modo semelhante, o trabalho que sustenta o Brasil é escravizado pelo agro, pela pejotização, pelas plataformas digitais e pela escala 6×1. Mas, ao menos, esses escravizados têm um campeão na corrida eleitoral, e ele se chama Lula.

É hora de Lula agir. Enquanto Bolsonarinho, o “ouroburro”, corre atrás do próprio rabo, o presidente deveria entregar aos trabalhadores a tarifa zero no transporte coletivo urbano, cujas diretrizes são de competência da União.

Se o ônibus circular foi uma boa vantagem, imagine-se o que seria a realização do omnibus realmente “para todos” com a tarifa zero. Combinada com o fim da escala 6×1, importaria numa revolução na qualidade de vida dos trabalhadores.

E quebraria o ouroboros escravista.

Normando Rodrigues

Advogado, mestre em Direito, assessor da FUP, ex-professor da UFRJ e apresentador do programa Trilhas da Democracia.

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