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Memória contra o abandono, verde contra o colapso: a cultura como projeto de país

Foto: Vino Carvalho/Comitê de Cultura do Paraná

A visita da ministra da Cultura Margareth Menezes ao Paraná não foi agenda protocolar. Foi gesto político carregado de significado. Ao escolher Paranaguá e Colombo como destinos, o governo federal desenhou uma mensagem nítida: a política cultural precisa estar onde a memória resiste e onde o futuro se disputa no presente.

O que une o litoral histórico à periferia metropolitana não é geografia, é diagnóstico. São dois territórios que carregam as marcas de um modelo de desenvolvimento que tratou cultura como ornamento, patrimônio como estorvo e periferia como problema. A agenda da ministra propôs o inverso: cultura como infraestrutura, território como ponto de partida.

Em Paranaguá, a pauta era o patrimônio. Mas não se tratava apenas de casarões coloniais ou fachadas pitorescas. O que está em jogo é um ecossistema vivo: cultura caiçara, modos de fazer, saberes, festas, fé, relações com o porto e com o mar. Cada imóvel preservado conta parte dessa história. Cada abandono, cada incêndio — como o que devastou o Instituto de Educação em abril — é uma página que se perde.

Esse incêndio não pode ser tratado como episódio isolado. Ele escancara uma ferida maior: a ausência de uma política patrimonial consistente, que vá além do tombamento simbólico. Preservar exige disputa. Disputa com a especulação imobiliária que pressiona os centros históricos. Disputa com uma lógica de desenvolvimento que precisa reconciliar atividade econômica, vida comunitária e preservação da memória. Disputa com a ideia rasa de que desenvolvimento rima com demolição.

O Programa Conviver, lançado ali, aponta um caminho. Ao articular restauro, educação patrimonial, assistência técnica e participação social, reconhece que patrimônio não é cenário turístico — é território habitado, tensionado, vivido. Mas sua efetividade dependerá da capacidade de mediar conflitos reais e de não transformar memória em mercadoria. É preciso envolver de fato quem nem sempre é ouvido: comunidades caiçaras, pequenos comerciantes, mestres de fandango, moradores, trabalhadores, universidades e juventudes dos territórios populares do litoral.

Por isso, a recuperação do centro histórico de Paranaguá precisa ser assumida como uma grande frente pública e social. Uma frente capaz de reunir Iphan, universidades, prefeituras, governo do Estado, governo federal, empresários locais, setor cultural e sociedade civil. Também é preciso mobilizar instrumentos concretos de financiamento, em especial a Lei Rouanet, para que a preservação deixe de ser apenas desejo e se transforme em obra, formação, trabalho, turismo cultural, pertencimento e desenvolvimento regional.

Já em Colombo, o lançamento do Programa Territórios Verdes da Cultura trouxe outra peça do mesmo quebra-cabeça. A proposta é transformar equipamentos culturais — CEUs das Artes, CEUs da Cultura — em plataformas de adaptação climática. Bibliotecas, teatros e centros comunitários podem ser também espaços de educação ambiental, segurança alimentar, economia circular e acolhimento em situações de crise com as soluções baseadas na natureza.

A potência é evidente. Dialoga com o que as periferias já sabem: quando a chuva castiga, quando a enchente chega, quando o calor extremo aperta, os primeiros a pagar são os mesmos — os mais vulneráveis. O desafio está em garantir que o verde não seja usado como maquiagem para processos cinzentos: gentrificação disfarçada, remoções justificadas por requalificação ou projetos que chegam prontos sem escuta real.

Aqui, Paranaguá e Colombo se tocam. Em ambas, a cultura deixa de ser setor e vira eixo. Em ambas, a ancestralidade aparece como força — nos saberes caiçaras, nas estratégias populares de sobrevivência e reinvenção do chão. Em ambas, um mesmo alerta: não basta lançar programa; é preciso sustentar política onde há tensão.

E há complexidades a enfrentar. O próprio desenho federativo brasileiro impõe desafios: patrimônios históricos que dependem de múltiplas esferas para sua preservação, periferias que seguem com acesso desigual a equipamentos culturais, a sempre delicada costura entre União, estados e municípios em torno de agendas comuns. A grande frente pública que o momento exige demanda mais do que boas intenções. Exige pactuação concreta, recursos partilhados e, sobretudo, a decisão política de tratar cultura como prioridade e não como acessório. É um trabalho em construção, com avanços e lacunas, como costuma ser toda travessia que vale a pena.

É nessa brecha que certas experiências ganham relevo. Iniciativas que articulam cultura, território, tecnologia, formação e participação popular mostram que é possível fazer diferente — a partir da escuta, não da imposição. Quando a universidade pública se encontra com a sociedade civil, quando o conhecimento popular é tratado com respeito, quando a política cultural se enraíza no chão e não no balcão, algo novo se desenha.

É desse acúmulo que precisamos. Porque há um projeto em disputa no Brasil. De um lado, a cultura como evento, o patrimônio como estorvo, o território como mercadoria, a crise climática como externalidade a ser terceirizada aos mais pobres. De outro, a cultura como direito, a memória como infraestrutura, o território como espaço de pertencimento e a sustentabilidade como condição de futuro.

O que a visita da ministra revelou, na escolha precisa desses dois territórios, é que esse segundo projeto existe. Está em construção. Tem lastro na realidade, nas comunidades, nas universidades, nos movimentos. E tem rumo. Não por acaso, essa agenda desembarca no Paraná com a marca de Gleisi Hoffmann, que fez da costura federativa e da escuta aos territórios método político, e se inscreve no horizonte estratégico do presidente Lula, que devolveu a cultura ao centro da ideia de desenvolvimento nacional.

É essa disputa que organiza o Brasil de hoje. De um lado, o atraso que abandona o patrimônio, empurra as periferias para a margem, trata cultura como gasto e encara a crise climática como fatalidade. De outro, o projeto que o governo Lula vem reconstruindo: memória como infraestrutura, território como pertencimento, sustentabilidade como condição de futuro e cultura como força de desenvolvimento nacional. A visita de Margareth Menezes ao Paraná mostrou que essa reconstrução está em movimento. Nossa tarefa é empurrar essa reconstrução para a frente: ampliar programas, enraizar políticas, disputar o imaginário social e construir uma estética de luta que mostre onde está o verdadeiro enfrentamento ao sistema — não no atraso que olha para trás, mas na coragem de cuidar da memória, reorganizar os territórios e inventar futuro com o povo brasileiro.

João Paulo Mehl

Atua em cultura digital, sustentabilidade e fomento cultural. Coordena projetos na UFPR, no Soylocoporti, no Terraço Verde e no Propulsão Cultural.

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