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Curitiba foi planejada para um clima que já não existe mais

Foto: Gabriel Marchi/SPVS

Curitiba construiu, ao longo de décadas, uma reputação internacional associada ao planejamento urbano. Seus sistemas de transporte, parques e soluções inovadoras ajudaram a transformar a cidade no que costuma ser apontado como referência de gestão urbana de forma inovadora e valorosa.

Mas existe uma pergunta que se torna cada vez mais urgente diante da emergência climática: o modelo de cidade que ajudou a projetar Curitiba internacionalmente continua adequado para enfrentar os desafios climáticos do século XXI? E a questão não se restringe à capital paranaense: se aplica à maioria das cidades brasileiras.

Grande parte dos nossos centros urbanos foi planejada baseando-se em um clima diferente do que observamos hoje. Chuvas mais intensas e concentradas, ondas de calor mais frequentes, períodos prolongados de estiagem e eventos extremos cada vez mais recorrentes e intensos desafiam infraestruturas e modelos de ocupação concebidos para uma realidade que vem mudando muito rapidamente.

As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção para o futuro. Já influenciam o cotidiano das cidades, pressionam sistemas de abastecimento de água, ampliam riscos para a população, aumentam custos públicos e colocam novos desafios para a gestão dos territórios.

Recentemente, Curitiba deu um passo importante nessa discussão ao reunir representantes do poder público, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil e especialistas em um seminário sobre emergência climática realizado na Câmara Municipal, no dia 09 de junho, na Semana do Meio Ambiente.

Foto: Kim Tolentino

O encontro resultou na assinatura de uma carta-compromisso pela vereadora Laís Leão e pelo deputado estadual Goura, ambos do PDT, voltada ao fortalecimento de ações de adaptação climática e proteção da biodiversidade urbana, demonstrando que o tema começa a ganhar espaço na agenda pública local.

Essa mobilização é fundamental, porque uma das discussões mais importantes das próximas décadas será como tornar as cidades mais resilientes diante de uma realidade climática em transformação.

Durante muito tempo, áreas verdes, rios urbanos, matas ciliares, áreas úmidas e remanescentes naturais foram vistos como elementos paisagísticos ou espaços disponíveis para futuras ocupações. Hoje sabemos que eles desempenham funções muito estratégicas para a segurança e o funcionamento das cidades e a qualidade de vida das pessoas.

São esses ambientes que ajudam a infiltrar água no solo, reduzir enchentes e enxurradas, amenizar temperaturas, proteger a biodiversidade, melhorar a qualidade do ar, aumentar a capacidade dos territórios de enfrentar eventos climáticos extremos e manter a biodiversidade e processos ecológicos em bom funcionamento. Em outras palavras, estamos falando de infraestrutura e tecnologia.

Uma infraestrutura e uma tecnologia diferente daquela tradicionalmente associada ao concreto, ao aço e às obras de engenharia, mas extremamente essencial e indispensável para a qualidade de vida da população e a resiliência urbana.

Quando um rio é canalizado, uma área úmida é aterrada ou um fragmento natural é eliminado, não estamos apenas alterando a paisagem. Estamos reduzindo a capacidade daquele território de desempenhar funções ecológicas que ajudam a proteger a própria cidade.

Por isso, cidades ao redor do mundo vêm incorporando soluções baseadas na natureza como parte de suas estratégias de adaptação climática. Não se trata de substituir a infraestrutura convencional, mas de reconhecer que a infraestrutura natural oferece benefícios que dificilmente seriam alcançados apenas por meio de obras construídas e, ainda assim, sendo uma infraestrutura mais barata quando comparada à outras.

Entender que as cidades estão inseridas em ecossistemas naturais e seus territórios e dinâmicas são mais amplos que o próprio limite municipal é essencial. Buscar formas de fortalecer o relacionamento e as conexões com a região metropolitana é fundamental.

Foto: Gabriel Marchi/SPVS

E para compreender melhor essas transformações e apoiar decisões baseadas em evidências que iniciativas como o Observatório Climático do Alto Iguaçu (OCAI) vêm sendo desenvolvidas.

Coordenado pela SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) e realizado em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, o projeto busca ampliar o conhecimento sobre os impactos das mudanças climáticas na Região Metropolitana de Curitiba e fortalecer estratégias de adaptação climática nos territórios. A produção de dados, o monitoramento de indicadores e a aproximação entre ciência, gestão pública e sociedade serão cada vez mais importantes para orientar decisões capazes de reduzir riscos e aumentar a resiliência das cidades.

No Brasil, onde mais de 85% da população vive em áreas urbanas, essa agenda se torna cada vez mais urgente. A pergunta já não é se as mudanças climáticas afetarão nossas cidades. Elas já afetam. A questão agora é saber se teremos capacidade de adaptar nossos territórios à velocidade necessária para reduzir riscos, proteger vidas e garantir qualidade de vida nas próximas décadas.

Em um ano eleitoral, vale uma reflexão importante: estamos prestando atenção suficiente às propostas apresentadas para nossas cidades? Os planos de governo têm incorporado metas concretas para adaptação climática, proteção da biodiversidade urbana, segurança hídrica e redução de riscos associados aos eventos extremos?

A forma como responderemos a essas perguntas ajudará a definir não apenas o futuro das nossas cidades, mas a capacidade delas de continuar oferecendo qualidade de vida em um cenário climático cada vez mais desafiador.

A emergência climática já é parte do presente. Cabe agora à sociedade exigir que ela seja prioridade de quem pretende governar o nosso futuro.

Foto: Reprodução

Rafael Meirelles Sezerban é coordenador do Observatório Climático do Alto Iguaçu (OCAI), iniciativa da SPVS voltada à produção de conhecimento e ao fortalecimento da adaptação climática em territórios urbanos.

Foto: Reprodução

Claudia Guadagnin é jornalista, mestra em Direitos Humanos e Políticas Públicas e assessora de imprensa da SPVS e da Grande Reserva Mata Atlântica.

Claudia Guadagnin

Jornalista e Mestra em Direitos Humanos, atua em comunicação ESG e socioambiental. É defensora da biodiversidade como valor coletivo e direito humano essencial.

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