Nos bastidores do bolsonarismo, a ordem nas últimas semanas tem sido reduzir a temperatura do discurso contra o STF (Supremo Tribunal Federal). A mudança de estratégia atende a um objetivo claro: criar um ambiente político mais favorável à análise do pedido de prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. A orientação para conter ataques partiu da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e passou a circular tanto em conversas reservadas quanto em grupos internos do partido.
Desde a prisão do ex-presidente, Michelle assumiu papel mais ativo na articulação política e tem defendido que o momento exige cautela. A avaliação compartilhada por dirigentes do PL é de que novos embates públicos com ministros da Corte poderiam dificultar a construção de um clima minimamente receptivo ao pleito. O confronto institucional, que por anos serviu como ferramenta de mobilização da base, passou a ser visto como um obstáculo.
No mês passado, a ex-primeira-dama esteve com os ministros Alexandre de Moraes, relator do processo sobre a trama golpista, e Gilmar Mendes, decano do tribunal. Após os encontros, a linha defendida internamente passou a priorizar argumentos humanitários, sobretudo ligados à saúde, com a convicção de que esse enquadramento ganha força em um ambiente menos tensionado. Integrantes do STF, sob reserva, relatam que o pedido de prisão domiciliar passou a ser examinado com maior atenção, o que reforçou o cuidado com a retórica.
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O efeito prático foi um ajuste no vocabulário público. Expressões de enfrentamento deram lugar a referências a direitos individuais, dignidade e condições médicas. A mudança também apareceu em gestos de aliados, como na recente mobilização liderada pelo deputado Nikolas Ferreira, que adotou tom mais comedido em relação a decisões do Supremo durante o percurso até Brasília. A senadora Damares Alves e lideranças religiosas próximas ao ex-presidente reforçaram o foco no quadro clínico de Bolsonaro.
Além do aspecto jurídico, a eventual prisão domiciliar é vista por aliados como peça-chave para recolocar Bolsonaro no centro das articulações eleitorais. O ex-presidente já sinalizou apoio ao filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, como herdeiro político.
Pessoas próximas a Michelle avaliam que, com o marido em casa, cenários alternativos, como uma eventual chapa com o governador paulista Tarcísio de Freitas, poderiam ser reavaliados. Após visita recente ao ex-presidente, contudo, Tarcísio reiterou apoio a Flávio e confirmou a intenção de disputar a reeleição em São Paulo.
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