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Do Sertão à Câmara: a trajetória de luta de Luiz Couto contra a exploração e as injustiças

Quando Luiz Couto nasceu, em meados dos anos 1940, na pequena cidade de Soledade, no sertão da Paraíba, a região era dominada pelo coronelismo, em que hegemonia das elites agrárias sobre a política local era sustentada pela violência e a opressão. Filho de família de trabalhadores rurais sem-terra “meieros” que tinham que entregar metade de sua produção ao dono da propriedade, ele desde pequeno aprendeu a lutar contra as injustiças. E levou esta coragem para toda a vida. 

Ordenado padre nos anos 1970, logo se associou à teologia da libertação, que pregava que a missão da Igreja e dos cristãos era se colocar ao lado dos pobres e oprimidos em sua luta por dignidade e justiça. Décadas depois foi suspenso da Igreja por um arcebispo, após defender os direitos das minorias, incluindo a comunidade LGBTQI+, o uso de preservativos e o fim da obrigatoriedade do celibato. Foi salvo pela comunidade, que exigiu sua reincorporação, e pela intervenção do Papa Francisco. 

Antes, nos anos 1980, filiou-se ao PT e iniciou uma longa carreira no Legislativo. Hoje, no quinto mandato consecutivo na Câmara Federal, Luiz Couto é um dos mais longevos e experientes parlamentares do partido e uma referência na defesa dos direitos humanos. Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, ele conta um pouco dessa história, desde a infância pobre no agreste paraibano, o período no seminário, as lutas contra a exploração sexual de crianças e o crime organizado que o obrigaram a ter proteção da Polícia Federal após ameaças de morte. 

BFC: o começo no sertão paraibano

(Foto: divulgação)

Luiz Couto: desde pequeno sempre gostei de trabalhar para que as pessoas não fossem exploradas. E é essa luta está presente na minha vida. Depois fui pra o seminário. Antes, trabalhei também no movimento da juventude. E no seminário, trabalhamos nesse sentido, para que possamos dar a condição de viver com dignidade. E eu fico muito triste quando vejo alguém ser ameaçado ou então, ser não reconhecido. 

Meus pais não tinham terra. Produziam, mas tinham que devolver uma parte para o dono da terra. No seminário, a igreja já começava a ter uma movimentação, porque tudo lá era fechado, trancado. O nosso grupo fez uma revolução. Era proibido falar com as outras pessoas. E a gente fez uma ação com outros companheiros e conseguimos fazer com que isso pudesse acontecer. 

Também a humilhação muitas vezes acontecia. Não aceito que as pessoas sejam humilhadas. Eu luto. Eu vou lá e digo: “Olha, você não tem direito de fazer isso. Você é importante, aquele também é importante e a gente tem que reconhecer”. Minha luta é em defesa dos direitos humanos, das minorias. Fui por três vezes presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (da Câmara Federal). Trabalhei, andei muitos estados, também lutei contra o crime organizado, o narcotráfico.

Chegou um tempo em que eu tive a Polícia Federal dando proteção, porque as ameaças de morte aconteciam muito. As pessoas ligavam para minha casa e diziam: “Olha, você está vendo aqui, amanhã eu já tenho uma formiga aí para acabar. Você vai ficar como uma formiga que vai desaparecer”. 

A gente tem essa preocupação de lutar porque o Brasil precisa ainda avançar muito. O racismo é um elemento que a gente não pode aceitar. O problema da violência contra a comunidade LBTQIA+ é outra coisa que nós não podemos aceitar. A questão do negro, da negra, dos indígenas, tudo isso está dentro da minha luta em favor da dignidade das pessoas, da liberdade. Precisamos, primeiro, estarmos atentos àquilo que está acontecendo no mundo.

Estamos vendo agora a ação que cada vez mais cresce do crime organizado, do narcotráfico. Além disso, temos a extrema direita quase que tomando conta dos espaços. No Congresso eles têm maioria. O PL tem 99 parlamentares. Juntou-se com o Centrão, dominam. Estão querendo intervir no Ministério Público. “Vamos montar agora na Justiça”.

Querem também invadir o Supremo, querendo subverter aquilo que está na lei, na nossa lei maior. Temos o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Cada um tem sua liberdade. Deve-se trabalhar de forma articulada. Mas esse pessoal quer efetivamente mandar em todo o canto. Quer destruir tudo. 

BFC: os novos coronéis

(Foto: divulgação)

Luiz Couto: No início eram os coronéis. Mandavam em tudo. E quem não obedecesse, ou era preso, ou assassinado. Quando a pessoa resolve não enfrentar aquilo, vai aumentando cada vez mais. Os coronéis do Nordeste, Centro-Oeste, agora estão no parlamento. Querendo subverter a educação, a saúde. A ditadura é outro elemento. A ditadura foi fazendo com que: “Olha, você pode falar, mas não pode falar daquilo, tem que obedecer, tem que estar triste”. E foi um momento em que vários companheiros e companheiras que foram assassinados. Ninguém sabe ainda o que, onde os corpos foram colocados. 

Essa luta que a gente trava cada dia para que as pessoas possam dizer: “Olha, não tenha medo, não. Tem que ter a coragem de enfrentar”. Não seja uma pessoa que fica: “Não, eu não vou, não, porque vou perder o emprego. Pode fazer com que a minha família seja pressionada”. Estamos aqui para lutar para que possamos ter as pessoas vivendo com felicidade, alegria, o sentimento do respeito à dignidade de cada um. Lutar também contra a maldade, exploração sexual de crianças e adolescentes. 

Participei em uma CPI sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes na região Nordeste. As forças que exploravam tentaram me matar e foi preciso colocar a Polícia Federal dando o suporte para que eu continuasse. Mas eu não parei. Depois fui para outra comissão do crime organizado, do narcotráfico. E as pessoas: “Mas você só pega coisas disso”. “E vocês não lutam?”.

Aprendi com minha mãe e meu pai, que já estão lá no céu, que a gente não pode baixar a cabeça. Tem que estar sempre atento e lutando. É coragem, firmeza. Aprendi com meu avô, que era um homem analfabeto, mas tinha o sentimento de vivência.

BFC: intervenção do papa

(Foto: divulgação)

Fui suspenso pelo arcebispo Dom Aldo Pagotto, que agora não está mais vivo. Faz mais ou menos uns 15 anos. Mas juntamos o povo de João Pessoa. A comunidade toda. Ele teve que pedir perdão, porque a pressão foi grande. O pessoal ia celebrar missa na frente do espaço dele e a palavra de ordem era: “Fora Dom Aldo”. Foi retirado.

O Papa Francisco disse para ele: “Ou você sai, ou a gente vai suspender você por uma série de coisas que aconteceram”. Um jornalista perguntou uma vez: “E o celibato?” Eu disse: “Não acho que deveria ser obrigatório”. Têm igrejas onde os padres são casados e aqueles que não são casados, mas é uma opção. A outra era sobre a questão da camisinha. Eu disse: “É por questão de saúde”. 

BFC: segurança pública

(Foto: divulgação)

Luiz Couto: Me lembro que logo no início do governo Lula como presidente, a Polícia Federal exerceu muitas tarefas. Quando chega o Bolsonaro e também as organizações militares que deram suporte para que ele fosse eleito. A proposta de querer matar um presidente, um vice-presidente, um ministro. Precisamos que respeitem a ideia: “você não é obrigado a aceitar aquilo que eu falo, a forma como a gente vive”. Mas respeita. Isso fundamental na vida. Infelizmente, acabou isso.

O fundamentalismo tomou conta de várias igrejas. Tudo é proibido. E Jesus disse: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância”. Ele quer vida, dignidade. Que as pessoas sejam respeitadas. Você viver como ser humano, de respeitar e ter a sua dignidade, o seu desejo também, a sua sexualidade. Nem tudo que a gente pensa, pode querer que o outro seja obrigado a aceitar.

BFC: liberdade

(Foto: divulgação)

Luiz Couto: Deus nos fez criaturas livres. Cada um tem a sua opinião, ideologia, a sua forma de ter fé, cuidar das pessoas. A fé é muito importante, mas é importante que você tenha liberdade. Muitas vezes, o segmento religioso é muito fechado. Jesus diz para Maria Madalena: “ninguém te condenou. Também eu não te condeno”.

Jesus não veio para condenar. Veio para fazer com que as pessoas pudessem ter vida plena, amor. A luta pela justiça, por uma sociedade livre, solidária. Às vezes as pessoas não aceitam, mas continuamos lutando porque consideramos que o ser humano não pode ser um instrumento para o mal. O ser humano tem que cuidar para que todos tenham vida, dignidade, coragem de enfrentar os problemas.

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Ivan Santos

Jornalista com três décadas de experiência, com passagem pelos jornais Indústria & Comércio, Correio de Notícias, Folha de Londrina e Gazeta do Povo. Foi editor de Política do Jornal do Estado/portal Bem Paraná.

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