O Banco Central instaurou uma investigação interna para reconstruir, passo a passo, o caminho que levou ao colapso do Banco Master e à sua liquidação extrajudicial. A apuração, conduzida pela corregedoria sob sigilo, busca identificar possíveis falhas nos mecanismos de fiscalização e na atuação das áreas técnicas responsáveis por acompanhar a instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro.
A decisão de abrir a sindicância partiu do presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, ainda no fim do ano passado, logo após a intervenção no banco.
No rastro da investigação, dois nomes centrais da supervisão bancária deixaram seus cargos. Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, que estavam à frente do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), pediram exoneração em meio ao avanço das apurações. Até o momento, não há acusações formais contra nenhum dos dois.
O Banco Central sustenta que mudanças em cargos comissionados fazem parte da rotina administrativa, mas internamente o entendimento é de que a liquidação de um banco exige uma revisão minuciosa de todos os procedimentos adotados.
A sindicância não tem caráter punitivo imediato. A lógica, segundo técnicos do BC, é semelhante à investigação de um acidente aéreo: compreender o que deu errado, em que momento e por quais razões, para evitar novos episódios no futuro.
O foco está, sobretudo, em entender por que o crescimento acelerado do Master, sustentado por captação agressiva via CDBs com rendimentos muito acima do mercado, demorou a acender alertas mais contundentes.
O modelo começou a ruir quando o banco passou a ter dificuldades para honrar compromissos, o que levou a um monitoramento mais próximo a partir de 2024. Em meio à crise, houve negociações para a venda da instituição ao BRB, que já vinha atuando como comprador de carteiras de crédito. O desfecho ocorreu em novembro de 2025, quando o BC decretou a liquidação, afastou os administradores e bloqueou bens para pagamento de credores.
Paralelamente, investigações da Polícia Federal e do próprio Banco Central levantaram suspeitas sobre operações bilionárias envolvendo carteiras de crédito e a relação do Master com a gestora Reag DTVM, também liquidada. As apurações apontam para transações em cadeia que teriam inflado artificialmente resultados de fundos, com recursos retornando ao próprio banco na forma de aplicações financeiras.
O caso ganhou novas frentes ao chegar ao Tribunal de Contas da União, que determinou a inspeção de documentos do processo de liquidação. Após recuar de um recurso, o Banco Central autorizou o avanço da análise. Sem prazo para conclusão, a sindicância interna pretende não apenas esclarecer responsabilidades, mas também reforçar os mecanismos de governança e supervisão do sistema financeiro.
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