No último 25 de abril, data da libertação da Itália do nazifascismo, enquanto o país voltava a disputar a memória do antifascismo e o próprio sentido da democracia italiana, uma pergunta tornava-se inevitável: onde estão as mulheres na resistência italiana?
A Itália vive sob ocupação nazista entre 1943 e 1945 e, em meio ao medo que se infiltra no cotidiano, nasce a Resistência, inicialmente dispersa e depois progressivamente articulada. Pessoas comuns de diferentes origens chegam, por caminhos próprios, à decisão comum de agir e tornar-se partigiane
A palavra partigiano vem de “parte”. Indica quem escolhe um lado. Os partigiani compreenderam que neutralidade significa cumplicidade e que a indiferença e a resignação já não aliviam a consciência.
Durante muito tempo, a história foi narrada a partir de rostos e trajetórias masculinas, enquanto milhares de mulheres, muitas muito jovens, exerciam funções decisivas em espaços não reconhecidos e fora dos holofotes
As staffette atravessam controles militares transportando mensagens, armas e medicamentos. Organizam redes de comunicação e transmitem informações. As mulheres escondem perseguidos e documentos. Estruturam a resistência civil e participam diretamente da luta armada. Planejam sabotagens e integram operações.
A invisibilidade social, que historicamente as limitava, torna-se recurso político. Transformam uma estrutura de opressão em instrumento de ação política.
Essa organização começa a se formar a partir de iniciativas de mulheres isoladas e de pequenos comitês locais. Com o tempo, ganha forma mais estruturada também nos GAP e SAP (Gruppi e Squadre di Azione Patriottica) e Grupos de Defesa da Mulher que assumem um papel central, tornando-se um espaço de emancipação e reivindicação de igualdade jurídica, política e econômica.
É nesses grupos que as mulheres passam a compreender e discutir seus direitos, adquirindo consciência crítica. A resistência deixa de ser reação à ocupação e assume dimensão de transformação social, tornando-se um momento de descoberta da política, de emancipação e de formulação de reivindicações concretas por igualdade jurídica, política e econômica. Ao mesmo tempo essas mulheres se engajam em uma intensa mobilização entre outras mulheres, incentivando a participação e ampliando redes de apoio, inclusive atuando para enfraquecer as fileiras do exército da República Social Italiana.
Carla Capponi participa de ataques e operações clandestinas; Francesca Laura Wronowski atua em missões para minar pontes e atacar comboios. Gina Galeotti Bianchi é morta grávida em Milão. Ada Gobetti registra o cotidiano da resistência. Giustina Abbà organiza uma greve de fome. Teresa Noce, Nilde Iotti e Tina Anselmi a democracia do pós-guerra, participando da vida política.
Muitas delas escolhem a coerência e a lealdade a custo da vida.
Alma Vivoda é considerada a primeira mulher morta em combate; Irma Bandiera, capturada, torturada e cegada, é executada por não denunciar os companheiros; Gabriella Degli Esposti, grávida, tem os seios amputados, os olhos arrancados e o ventre dilacerado, por não entregar informações até ser morta. Iris Versar, ferida,i tira a própria vida para não dificultar a fuga dos companheiros e para não cair nas mãos inimigas, tendo o corpo pendurado em praça pública pelos fascistas como forma de intimidação. E ainda Teresa Adele Binda, torturada e fuzilada.
Ao lado dessas trajetórias existem milhares de mulheres, ausentes das fotografias e dos relatos mais conhecidos, que foram presas, deportadas ou mortas após sofrerem violências.
Os números confirmam essa presença. Cerca de 35 mil mulheres atuaram como combatentes partigiane, 20 mil em funções de apoio e 70 mil nos Grupos de Defesa da Mulher; 4500 foram presas e torturadas, 2.750 deportadas para campos nazistas e 623 morta. E, ainda assim, pouquíssimas foram reconhecidas oficialmente.
Muitas foram excluídas até das celebrações da vitória, sendo por vezes expulsas para não diminuir a atuação masculina como no caso de Tersilia Fenoglio.
A libertação da Itália contou com forças de vários países, incluindo a Força Expedicionária Brasileira que enviou tropas. Também ali, a presença das mulheres foi decisiva.
Cerca de setenta enfermeiras brasileiras atuam no sistema hospitalar aliado. Entre elas, Elza Cansanção Medeiros que se voluntariou para lutar, mas foi direcionada à enfermagem e Virgínia Portocarrero. Depois da guerra, ambas ajudaram a preservar a memória das mulheres da FEB.
Em 2021, a Itália reconheceu essa presença com um monumento às “Mulheres da FEB” em Pistoia onde funcionou o 16º Hospital de Campanha que acolheu o maior número de enfermeiras brasileiras durante o conflito.
Também na América do Sul, mulheres italianas e sul-americanas participam da construção de espaços antifascistas em solidariedade à resistência italiana, organizando redes de apoio. Figuras como Giorgina Levi e experiências coletivas como a Acción Femenina por la Victoria mostram que o antifascismo feminino atravessou o Atlântico, convertendo a luta partigiana em prática política transnacional.
A Resistência italiana não termina em 1945. Ela se materializa na Constituição italiana, de caráter antifascista. As mulheres avançam na conquista de direitos, do voto e da participação política, consolidando uma democracia ligada à liberdade, igualdade e cidadania feminina.
Essa herança, no entanto, não está garantida. Ela enfrenta pressões concretas que afetam especialmente as mulheres. A presença de uma mulher no poder, como a Primeira Ministra Giorgia Meloni, não garante, por si só, compromisso com os direitos das mulheres, dependendo das escolhas políticas e do projeto de sociedade.
Nesse contexto, o 25 de abril torna-se um campo de disputa. Quando reduzido pelo governo Meloni a data a ser comemorada com um sentido de reconciliação, perde-se a clareza de que houve uma escolha entre fascismo e antifascismo.
Quando são colocados no mesmo plano, a resistência deixa de ser reconhecida como uma ruptura necessária contra um regime autoritário. Isso enfraquece a própria democracia nascida dessa escolha. Torna-se mais difícil perceber as tentativas revisionistas e o potencial de perigo de determinadas escolhas políticas, cujos efeitos continuam a atingir, sobretudo, as camadas mais vulneráveis e especialmente as mulheres.
Falar da resistência delas hoje é reconhecer que os direitos das mulheres continuam em disputa. Diante da fragilidade das políticas de igualdade, dos feminicídios, de modelos que limitam sua autonomia e das dificuldades de acesso à saúde reprodutiva, resistir continua sendo uma escolha e uma necessidade.
Ser antifascista hoje, como posição diante da história, é rejeitar o autoritarismo, a tortura, a opressão e qualquer forma de poder que negue a liberdade, a igualdade e a dignidade humana. É não esquecer as câmaras de gás, os campos de concentração, a violência organizada e o medo transformado em instrumento de poder. É reconhecer que direitos conquistados podem ser esvaziados.
Por isso, essa história não pertence apenas ao passado. Ela continua presente e exige escolhas. E, hoje, isso significa que as mulheres precisam, novamente, ser partigiane —defendendo os direitos que continuam ameaçados, mesmo diante de novas formas de invisibilidade.
Uma escolha e uma necessidade que seguem inscritas na própria defesa da democracia.
