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A verdade mora no que escolhemos lembrar

Foto: Jussara Voss

Entrei de novo em uma agrofloresta nem cinco dias após ter saído de outra. Desta vez, uma visita mais demorada à Fazenda Bicho Preguiça, guiada pelo André Arista, um tipo de ‘homem da mata’ moderno, cujas mãos conhecem segredos de desbravar. Provei várias frutas desconhecidas, que me fizeram entender a possibilidade de sobreviver sem um supermercado. Levaria um tempo até conseguir a destreza dele para abrir um coco, por exemplo, mas sobreviveria. Imediatamente, lembrei do personagem de Daniel Defoe: o Robinson Crusoé. Somos adaptáveis.

Mesmo conhecendo a história, escrita em 1719, fui ler (ou reler) porque um grande escritor amigo nomeou-o como obra-prima que é. Em pouco tempo, náufrago em uma ilha, Crusoé construiu moradia, organizou a vida, fez amigos (mesmo que não humanos), arriscou-se e sofreu com fantasmas imaginários. Teve medo, aprendeu a plantar, a fazer cerâmica e a criar cabras, até conseguir um amigo, que chamou de Sexta-feira, dia do seu aparecimento. Quando retornou ao seu país, Crusoé não aguentou ficar; a vida de aventureiro e desafios era melhor. Voltou aos mares e às descobertas.

Com um considerável atraso, abro outra obra obrigatória: Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Sempre é tempo, dizem. “Queria escrever um livro grande”, o escritor costumava falar, desmontando qualquer possível nuance de afetação. Penso na minha pretensão impublicável. Talvez a recente ida à Bahia tenha provocado a leitura ou o Clube de Cultura do Calma Urgente, do trio Alessandra Orofino, Bruno Torturra e Gregório Duvivier. Já na epígrafe da obra de mais de 800 páginas encontro o norte: “O segredo da verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”. Aqui vou narrar a dos irmãos Kaywa e Thabata Hilton e seus dois restaurantes: Boia e Maré.

Como alma encarnada, sei que não aprendo nada e, como as demais, “sonho desvairadamente”. É isso que me faz entrar em um avião para me aventurar (não tão arrojada quanto Crusoé). Recebi o convite para conhecer os restaurantes e alguns projetos na Praia do Forte e fui.

Os irmãos

Filho e filha de mãe francesa, foi natural ambos irem para à Europa estudar. Imagino o impacto do jovem que nasceu em uma comunidade no Vale do Matutu, Sul de Minas Gerais, ao chegar em Paris. Ao contrário do esperado, ele achou na cozinha um jeito de resolver a dificuldade de concentração. Thabata nasceu em Salvador e escolheu a formação em uma escola de hotelaria na Suíça. Quando pequenos, ele ajudava a mãe na cozinha, enquanto ela preparava a mesa das refeições. A herança genética de avós hoteleiros e a educação do paladar com a mãe pavimentaram o caminho profissional de ambos.

Meio aflita sem saber para onde as palavras corriam, devo escrever sobre eles em outro espaço, de repente fiquei confusa, não poderia repetir o texto. A campainha interrompeu meus pensamentos. Recebo “Um tempo todo para ser nosso – 10 mulheres artistas em seus espaços de trabalho. Resolvi abri-lo e parar para um lanche. Folheio o livro. Leio na apresentação que Virginia Woolf teria falado sobre as condições mínimas para que uma mulher trabalhasse e como Carolina Maria de Jesus precisou revestir seu quarto de despejo, no qual vivia e criava os filhos, em “ambiente de fantasia” para esquecer que estava na favela e poder escrever. Lembro-me da artista Efigênia Rolim, que eu me acostumei a encontrar (e admirar) nos corredores da Secretaria da Cultura, criava arte com o corpo, papeis de bala coloridos e objetos descartados nas ruas.

Isso dá a dimensão da publicação, que nasceu do desejo de entender como os ateliês revelam processos, escolhas e modos de fazer. Sinto uma pontinha de inveja ao olhar para o meu espaço de trabalho acanhado, uma instalação provisória que já atravessa anos, criado com a família aumentada. Escrivaninha colada à cama, comprimida entre o armário, livros e papeis em uma desordem meio organizada. Lembro ainda de que a vocação das artes foi desviada por muitas circunstâncias. Não imagino castelos, mas fixo a memória no que vejo nas viagens que embarco (dentro ou fora da minha cidade).

Quem são as dez artistas do livro?  Carina Weidle, Cláudia Lara, Eliane Brasil, Eliane Prolik, Érica Storer, Guita Soifer, Lígia Borba, Maya Weishof, Milla Jung e Vilma Slomp. Pego a agenda e marco o dia do lançamento: 1. de abril, das 17h às 19h, no Museu Paranaense.

Sem saber se termino o texto ou respondo às demandas sobre a organização do Juro que danço. A proposta é um manifesto contra a rigidez da semana: uma balada, na hora do almoço, com o lucro revertido para a Gastromotiva, que inclui pela gastronomia. A concentração escapa. Resolvo me arrumar e sair.

Aceito o convite para conhecer o Ciclo de Práticas da Memória – Entre Lembrar e Esquecer porque está aí algo que me fascina: a memória. Achei curioso uma Roda de Fogo em pleno centro histórico de Curitiba. Descubro um lugar inusitado onde funcionou uma alfaiataria. A casa histórica foi toda reformada e hoje abriga outra “Alfaiataria” que reúne pessoas e costura arte. Passo pelo corredor comprido da entrada e desço as escadas até chegar no quintal (sim, tem um quintal) e encontrar o grupo em volta de um disco de arado com fogo. Deslizo o olhar pela roda, vejo o vento fazer a fumaça dançar e os prédios ao redor espiarem o movimento.

Logo, Jana Matter, diretora artística do espaço, começa a leitura de “Bracatinga”, texto da Julie Fank, a primeira convidada do ciclo para refletir sobre a memória com prática viva. A proposta de quatro encontros em 2026 foi idealizada por Francisco Mallmann. Entro na história extraída da tese de doutorado dela. Saio dali com indicações preciosas e promessa de um encontro com Julie, afinal não posso ser escritora de um livro apenas, que só aconteceu por causa dela. Além de doutora em Escrita Criativa (dentre outros tantos títulos), é criadora da Esc. Escola de Escrita e especialista em espremer as pessoas, esgotando a imaginação até que produzam alguma coisa digna de publicar.

E se “a vida é o que a gente lembra pra contar” – escutei ontem na Alfaiataria – e só existem histórias, devo, pelo menos, falar da agrofloresta. Há 23 anos, a fazenda Bicho Preguiça nasceu de um solo devastado para se tornar santuário e recebeu o título da Unesco de Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Maria Antonieta, alemã pioneira, adquiriu 70 hectares e iniciou o lento retorno de um oásis na Praia do Forte, na Bahia. Hoje, o território é refúgio para espécies acuadas pelo desmatamento vizinho. Apenas em um mês, quase 20 bichos preguiças-de-coleira ameaçados, ganharam a liberdade nesse corredor ecológico formado por três florestas (Sapiranga, Camipe e Aruá). Imaginei-os cruzando as copas das árvores por cordas marítimas, que fariam inveja às invenções de Crusoé.

A intenção ali é plantar com uma agricultura que mimetize a floresta. André e a família são guardiães e também proprietários desse experimento. Ao final da caminhada, de 10 quilômetros, sob a sombra generosa que acalmava o sol de 30 graus, entendi um pouco mais sobre a memória como prática viva. Provamos açaí, sapoti, rambutã e cupuaçu. Fizemos um copo com a casca do fruto do cacau para tomar água de coco à sombra da mata e não esqueço.

Sou ajudada por Silviano Santiago: “A memória não é o que se lembra, mas o que nos esquece e, de repente, volta para nos assombrar ou salvar”. Para ele, a memória habita o espaço entre o fato e a invenção. Faz sentido. Entre o gosto das frutas exóticas (para mim) e o fogo no disco de arado, as histórias se costuram. O náufrago de Defoe, o povo brasileiro de Ubaldo e o silêncio da floresta baiana agora habitam o meu quintal.

Espero vocês:
  • Juro que danço: Nossa balada na hora do almoço com lucro revertido para a Gastromotiva. Uma pausa necessária no ritmo da semana.

Quando: Terça-feira, 31 de março, na Soma Galeria

Rua José Bernardino Bormann, 730

Link para comprar o ingresso no perfil do Instagram: @juroquedanco

  • Lançamento do livro “Um tempo todo para ser nosso”: Um mergulho nos ateliês de dez artistas que admiro.

Quando: 1º de abril, das 17h às 19h.

Museu Paranaense
Rua Kellers, 289 São Francisco

Onde: Museu Paranaense.

Jussara Voss

Jornalista, escritora e agitadora cultural. Ativista da gastronomia social, defendendo comida de qualidade e acessível para todas as pessoas.

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