No dia 12 de fevereiro passado, um jovem neonazista de 23 anos, Quentin Deranque, faleceu em Lyon num confronto com antifascistas. A morte de um jovem é sempre chocante, algo que merece respeito e reflexão. O evento foi rapidamente instrumentalizado nas grandes mídias contra o principal partido de esquerda, a França Insubmissa, e contra todo movimento antifascista. Porém, esses setores da esquerda não se intimidaram, mas demonstraram os erros das coberturas da mídia, que na França estão nas mãos de 9 grandes fortunas. A frente comum antifascista orienta agora a federação das esquerdas.
Nesta coluna, publico a tradução de uma tribuna de opinião que saiu no jornal comunista L’Humanité em 20 de fevereiro de 2026, com assinatura de 180 intelectuais e personalidades que denunciam a exploração dessa tragédia pela extrema-direita, pela direita, pelo governo e pela grande mídia, que buscavam, assim, inverter os papéis entre fascistas e antifascistas.

Afirmar nosso antifascismo, o dever do momento
Vivemos tempos perigosos, em que os grupos supremacistas, a extrema-direita e o neofascismo se encontram em posição de força em todo o mundo. Infelizmente, a França não é exceção a essa tendência global. Isso envolve tanto a ascensão da extrema-direita institucional quanto uma guinada extrema à direita na mídia e no discurso político em geral, além do aumento da violência nas ruas. Podemos enfrentar esse perigo se o campo antifascista estiver unido e determinado a impedir que o país mergulhe no pior cenário.
Nesse sentido, estamos em um momento de virada. No dia 12 de fevereiro, ocorreu uma tragédia em Lyon: a morte de um ativista de extrema-direita, que claramente tinha ido participar de uma rixa contra ativistas antifascistas. A morte violenta de um jovem de 23 anos é sempre inaceitável e nos horroriza. Desde essa tragédia, temos assistido com consternação às tentativas de impor um verdadeiro bloqueio sobre as esquerdas e as forças antifascistas, sejam elas institucionais ou oriundas do movimento social.
A extrema-direita, em todas as suas formas, impôs uma narrativa unidimensional, estabelecendo uma continuidade simplista entre os responsáveis pela morte de Quentin Deranque, todos os ativistas antifascistas e a França Insubmissa. Essa interpretação dos eventos foi adotada sem qualquer distanciamento crítico pela grande mídia, pelo governo e por grande parte da classe política. Permitir que o campo supremacista dite sua interpretação dos acontecimentos é irresponsável. Isso favorece a extrema-direita e auxilia uma manobra que visa, pela primeira vez desde a Libertação [quando foram derrotados os nazistas que ocupavam a França com a colaboração do Marechal Pétain, no final da segunda guerra mundial], inverter os papéis entre fascistas e antifascistas.
Lançamos um sinal de alerta: historicamente, a extrema-direita sempre explorou a violência para intimidar a sociedade. Em 1930, a morte do ativista nazista Horst Wessel, membro da SA, foi transformada em mito por Goebbels para reforçar a narrativa de vitimização do partido nazista. É claro que esse evento tem sua própria especificidade histórica e não pode ser simplesmente aplicado à nossa realidade contemporânea. Mas, mais perto de nós, lembremos como, nos Estados Unidos, Trump e seus apoiadores exploraram o assassinato de Charlie Kirk para reprimir movimentos sociais e classificar oficialmente os antifascistas como uma organização terrorista.
Nosso dever é não juntar nossas vozes ao coro de condenação contra o movimento antifascista ou contra a França Insubmissa. A tarefa urgente é unir forças e reafirmar uma realidade que todos os números demonstram: a violência política origina-se principalmente da extrema-direita. Noventa por cento dos assassinatos políticos entre 1986 e 2021 foram cometidos por eles. Desde 2022, doze pessoas foram mortas pela extrema-direita em nosso país. Somente nos últimos dias, locais políticos e sindicais, bares e outros locais de convívio social foram alvos de ataques, resultando em vários feridos.
Precisamos ser muitos para rejeitar a demonização do antifascismo e seu corolário, a normalização do fascismo.
Primeiros signatários:
Annie Ernaux, escritora, prêmio Nobel de literatura de 2022
Johann Chapoutot, historiador
Abdourahman Waberi, escritor
Frédéric Lordon, filósofo
Bernard Friot, sociólogo e economista
Michael Löwy, sociólogo
Sophie Wahnich, historiadora, pesquisadora do CNRS
Éric Vuillard, escritor, prêmio Goncourt de 2017
Edouard Louis, escritor
Sabina Issehnane, economista
Joseph Andras, escritor
Sandra Lucbert, escritora
Mathilde Larrère, historiadora
Eric Fassin, sociólogo
Laurent Binet, escritor
Xavier Mathieu, ator
Marwan Mohammed, sociólogo
Zarah Sultana, deputada inglesa
Fanny Gallot, historiadora
Ugo Palheta, sociólogo
Jean-Marc Schiappa, historiador
Para ler o texto original e a lista completa de signatários:
https://www.humanite.fr/en-debat/extreme-droite/affirmer-notre-antifascisme-le-devoir-du-moment
