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Briga de escorpiões é prenúncio de bom tempo

(Foto: Freepik/Reprodução)

Os Mercúcio, donos de terras, do gado, mercados, escolas, da rádio e até do alto-falante na Praça da Matriz. Os Tebaldo controlavam contratos públicos, transportes, postos de saúde, a fábrica de cimento que enchia de poeira os pulmões dos moradores, a outra rádio e o alto-falante na Praça do Mercado.

Desde tempos imemoriais viviam em trégua silenciosa, repartindo votos, mandos e desmandos. Trocavam favores, casavam os filhos, revezavam-se no poder. Ninguém conseguia viver sem ser benzido por uma das famílias. Comércio? Negócios? Só os autorizados. Empregos? Fossem porteiros, coveiros, vigilantes, professores, prefeitos, deputados, secretários, párocos, pastores, magistrados, todo e qualquer cargo público era tratado como propriedade de Mercúcios e Tebaldos.

Não havia regulamentos, placas, cercas ou avisos. Apenas olhares, silêncios, vieses calados. Regras não ditas, porém, ninguém desconhecia. As pessoas portavam-se com cautela, como se dependessem de autorização para circular. A região vivia sob a tutela de senhores.

No entanto, algo não explicado, pouco falado, abalou a calmaria de superfície. Talvez um amor proibido enleado nas tramas e entrelinhas de algum contrato milionário mal combinado. O acordo rachou e fez estremecer alicerces, até então, considerados inabaláveis.

Num domingo, Mercúcio-pai foi visto saindo da missa sem cumprimentar Tebaldo-mãe. Na segunda, um vereador da base mudou de lado. Na terça, começaram as acusações públicas: incompetência, corrupção, tráfico de influência. Na quarta, surgiram dossiês. Na quinta, a rádio Mercúcio chama os Tebaldo de parasitas. A rádio Tebaldo responde chamando os Mercúcio de dinastia decadente. Para delírio da patuleia, no sábado emergem saborosas fofocas de alcova.

Saltitaram os envolvimentos com atividades inconfessáveis. Uso indevido da máquina pública. Desinformação. Manipulação. Apropriação de bens da prefeitura e da paróquia – imóveis, presentes, jóias, documentos, memórias. Tudo exposto à luz do sol no burburinho das praças.

Em meio ao rebuliço, quem disfarçava sorrisos era Beto Cambeta. Figura velha da política local, nunca concorreu a nada, mas conhecia todos os podres. Memória privilegiada, capaz de reter informações soterradas debaixo de quarenta séculos.  Sorriso enviesado e um talento raro: mestre em plantar veneno com palavras doces. Pernas tortas, cambeteava ao caminhar. Circulava entre os dois lados como quem anda à toa sem ter para onde ir. Aparecia nas rodas de conversa com histórias mal contadas, meias-verdades ou suspeitas temperadas com humor.

Foi ele quem comentou, perto de um ouvido assessor, sobre um possível acordo dos Tebaldo com empresa de fora. Não foi outro quem cochichou sobre uma possível cooperativa de fachada dos Mercúcio.

Depois, cruzava os braços e esperava, dando batidinhas com a bengala no chão. O estrago viria logo.

— Vocês souberam do carguinho novo criado para agradar o mocinho amigo do herdeiro dos Tebaldo? O herdeiro nunca foi visto com alguma amiga, só amiguinhos alegres, perceberam? Dizia com riso curto.

— Repararam como o gado dos Mercúcio anda vistoso? Só come ração super… superfaturada — largava na feira, ao lado da banca de frutas.

E sumia antes de perguntarem a origem da tal informação.

E o povo? Ah! O povo festejava.

— Agora sim! — comemoravam na feira.

— Vai chover cesta básica! — dizia outro.

— Os shows vão ser de graça de novo, anota aí!

— Até buracos de beco vão ser tapados!

A briga entre os escorpiões prenunciava bom tempo. Asfalto novo. Médico, enfermeiros e remédios no Posto de Saúde. Cobertura na quadra de esportes da escola. Um prometia calçadas alinhadas. Outro, internet gratuita nas duas praças. O povo jogava conforme a biruta apontava a direção do vento.

Nas feiras, nas novenas, praças, salas de aula, bares, até no truco, as fofocas faziam a alegria.  Não havia hora nem lugar. Todos sabiam de tudo. Ou, quando não sabiam, inventavam.

— Eu sou Tebaldo, sempre! — dizia dona Lourdes, secando as mãos no avental verde.

— Nunca! Mercúcio até morrer! — gritava seu Osvaldo, coçando a cabeça com o boné amarelo.

Na verdade, eram os dois e nenhum.

E quando alguém finalmente encurralava Beto Cambeta, perguntando com firmeza:

— Mas, seu Teoberto… afinal, de que lado o senhor está?

Ele ajeitava o chapéu, fazia uma pausa dramática, respondia com o sorriso torto e a bengala dando voltas no ar:

— Eu? Eu torço pela briga.

Experiente, Beto Cambeta não guardava ilusões, passado o terremoto, as pedras rolariam para os mesmos lugares de sempre.

Delman Ferreira

Especialista no setor elétrico, ex-assessor técnico no Senado e escritor, escritor e coautor de "Sai da frente, estafermo".

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