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Como aprendi que a segurança do paciente também depende da saúde emocional da enfermagem

Foto: Arquivo pessoal/ Roberta Lopes Guizzo

Era uma segunda-feira de sol, dia 4 de julho de 2022. Foi a última vez que dei um beijo na minha filha — um beijo em um corpinho que já estava gelado. Durante um ano e 13 dias de vida da Isabel, mantê-la aquecida era um objetivo prioritário; senti-la fria foi o peso concreto da minha maior perda.

No dia em que buscamos as cinzas dela, meu filho Lucas nos convidou para brincar de pega-pega. Foi ali, no contraste entre a caixa nas minhas mãos e a corrida do meu filho, que percebi que precisava continuar caminhando.

Foto: Arquivo pessoal/ Roberta Lopes Guizzo

Minha jornada com a Isabel foi marcada por danos que poderiam ter sido evitados nos cuidados em saúde, desde a gestação até o fim da vida. Vivi inúmeras vezes a sensação de que o “óbvio precisava ter sido dito” — e não foi. No entanto, foi no auge da fragilidade da UTI que uma enfermeira me fez a pergunta que mudou minha forma de enxergar o cuidado:

“O que você acha que é qualidade de vida para a Isabel hoje?”

Respondi com base naquilo que eu mesma sempre considerei essencial: liberdade, lazer, autonomia. Mas, ao ser confrontada com o que aquilo significava para a Isabel, vivi uma mudança profunda de perspectiva. Entendi que, para ela, qualidade de vida não estava ligada à independência ou desempenho, mas a cuidados básicos bem executados, respeito, conforto e afeto. Pequenos gestos, como um banho, faziam toda a diferença.

Foi também durante a trajetória da Isabel que comecei a enxergar de outra forma quem estava do outro lado do cuidado. Percebi que a comunicação entre profissionais e famílias depende profundamente do estado emocional de quem está naquele encontro clínico. Depende do repertório emocional, da formação, da capacidade de escuta e até de necessidades humanas básicas estarem — ou não — minimamente atendidas.

Compreendi que profissionais de saúde também sofrem diante daquilo que não sai como foi planejado ou desejado. E percebi, também, que muitos talvez não tenham plena dimensão do impacto que suas atitudes podem causar na vida de pacientes e familiares.

Foto: Arquivo pessoal/ Roberta Lopes Guizzo

Ao conhecer o Plano Global de Segurança do Paciente, da Organização Mundial da Saúde (OMS), encontrei minha história refletida em dados, evidências e diretrizes. Isso me trouxe alívio, por perceber que eu não estava sozinha, mas também indignação diante da dimensão desse problema. Milhões de vidas são impactadas todos os anos por falhas evitáveis nos cuidados em saúde, e ainda nos chocamos pouco, como sociedade, diante dessa realidade.

O mesmo documento afirma algo que confirmou minha percepção: a segurança do paciente começa pela segurança de quem o atende.

O plano da OMS estabelece que o bem-estar do profissional é indissociável da recuperação do paciente. Ignorar o burnout, a exaustão e a sobrecarga enfrentadas pela enfermagem é ignorar uma das causas centrais dos danos evitáveis. Proteger a saúde mental de quem cuida é, em última instância, uma medida de segurança para todos.

Maio é tradicionalmente um mês de reflexão sobre o papel da enfermagem, marcado pelo Dia Internacional da Enfermagem, em 12 de maio, e pelo Dia do Técnico e Auxiliar de Enfermagem, em 20 de maio. Mais do que homenagens simbólicas, acredito que precisamos aproveitar esse momento para avançar naquilo que as evidências chamam de Cultura Justa.

Não se trata de ignorar falhas, mas de compreender que o erro raramente é resultado de uma escolha individual. Na maioria das vezes, ele nasce de processos que falharam, sistemas sobrecarregados e ambientes que adoecem quem cuida.

A Isabel me deixou o legado da compaixão. Entendo que essa compaixão também precisa alcançar os profissionais de saúde.

Profissionais da enfermagem precisam de mais do que reconhecimento simbólico. Precisam de segurança psicológica, acolhimento e condições dignas para exercer o cuidado.

Em um contexto de crescimento dos afastamentos por sofrimento psíquico entre profissionais da saúde, essa discussão deixou de ser apenas trabalhista ou emocional. Ela passou a ser também uma questão de segurança do paciente.

Minha filha não pôde fazer escolhas. Mas nós podemos. Podemos escolher transformar o sistema de saúde em um lugar onde o cuidado também comece por quem cuida. Obrigada por cuidar. Desejo que você também possa ser cuidado.

Foto: Arquivo pessoal/ Roberta Lopes Guizzo

Coluna por Roberta Lopes Guizzo, mãe da Isabel.

Roberta Lopes Guizzo

Relações Públicas e pós-graduanda em Direito do Paciente. Diretora do Instituto Dando Voz ao Coração, atua em segurança do paciente, direitos em saúde e comunicação.

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