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Respeitar o tempo das uvas para bons vinhos

Foto: Reprodução/ Vinsel

Acho que morro e não entendo de vinho como gostaria. Muito menos entendo as pessoas (nem eu mesma). Alérgica ao ácido acetilsalicílico, a anti-inflamatórios e à tartrazina (corante amarelo), carrego uma injeção de adrenalina quando arrisco excursões em terras mais longínquas ou pouco habitadas. Coloquei na bolsa para atravessar o Brasil voltando do Equador. Foi comprada no exterior, aqui não se encontra, a não ser em hospitais, e nem vou tentar explicar isso. Seria fatal sem o seu uso, em caso de um choque anafilático, carrego um trauma por conta disso. O que tem a ver com vinho? Não sei. É que escrever é assim mesmo, as palavras vão pulando na tua frente, se juntam em frases e depois vão para onde querem. Acontece também quando você lê alguma coisa e aquilo fica reverberando na tua cabeça. O capítulo sobre sustentabilidade do livro Conversas acerca do vinho, da Gabi Monteleone, grudou em mim. Tive vertigem ao descobrir quantas substâncias podem entrar na produção do vinho. Já escrevi sobre isso aqui e volto ao tema, impossível esquecê-lo.

Pensando bem, é por isso que acabei falando das alergias. Sorte que os ventos parecem mudar na direção do consumidor, uma legislação em curso obrigará que conste nos rótulos tudo o que foi usado. Assim como é feito com os alimentos. Pegue as taças, vamos comemorar. Na Europa, a rotulagem de vinhos entrou em vigor (regulamentação da União Europeia – EU 2021/2017) a partir da colheita de 2024 e exige que os produtores informem os ingredientes usados. Podem estar nos rótulos ou ser acessadas por QR codes. Pela primeira vez é possível saber o que estamos bebendo.

Após descobrir as minhas alergias e comunicar aos restaurantes, fiquei surpresa com o uso do corante (E 102) na alimentação, além de em cremes e shampoos. É proibido em alguns países da Europa e nos EUA, e ainda permitido no Brasil. A tartrazina pode causar reações alérgicas e intensificar sintomas de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças. Sigo assustada.

Vinho moderno

O jornalista Jorge Lucki, que escreve semanalmente no Valor Econômico, diz: nós queremos, digo nós porque concordo, “um vinho limpo, com pureza, precisão e equilíbrio, sem excessos, nem desvios, ou camadas artificiais tentando corrigir ou disfarçar o que a bebida não tem. “O vinho moderno, em muitos casos, é resultado de uma série de intervenções… recursos que, quando usados sem critério, aproximam o vinho de um produto moldado mais pelo objetivo de agradar do que expressar”. Encontro eco nos conceitos de Zygmunt Bauman. O “mundo líquido”, de que ele falou, é do consumo acelerado, do excesso de informação e até respinga nos vínculos que são rápidos. Bebe-se sem prestar atenção.

Mas o que me levou a voltar a escrever sobre o assunto foi também ter lido no texto do especialista o depoimento de um produtor no Festival Vale dos Vinhedos. Na apresentação dos seus vinhos Douglas Chamon, da vinícola Chamon Garbin, falou que “não usava goma arábica”, um aditivo utilizado para “suavizar taninos, aumentar a sensação de volume e dar uma impressão de maior equilíbrio ao vinho”. Com isso, seus vinhos são exatamente o que o vinhedo e a safra permitiram. O lema dele é “o resgate do vinho clássico” – um compromisso com a integridade. Saber que existem pessoas conscientes traz alívio. Uma brecha para escapar da “modernidade líquida” em que tudo é provisório, ralo.

Uma vinícola para chamar de sua

Pego um desvio. Discussões recentes sobre a cobrança da rolha revelam o quanto o vinho virou assunto e também território de disputa entre o restaurante que precisa lucrar e o cliente. Quer levar um vinho especial que o restaurante não tem na carta, paga-se pelo serviço e pela estrutura. Mas deixo a polêmica de lado porque me detive em um projeto que me deu vontade de produzir vinho, isso já não é mais um sonho. Um pouco parecido com a Wines of Mendoza, que tem entre os proprietários do empreendimento vários brasileiros, Eduardo Andrade de Carvalho resolveu apostar em um modelo nacional no interior de São Paulo. Recentemente, ele lançou seu livro “Pequenas tentações – Cidades, arquitetura e outros passeios” e, ao mesmo tempo, seu primeiro projeto: a Fazenda Sede. A proposta não é de um condomínio em uma vinícola, ao contrário, cada proprietário terá seu próprio vinhedo e poderá fazer seu vinho. A orientação ficará sob a responsabilidade de um vinhateiro do Douro, o português Paulo Monteiro, que será o diretor agrícola do projeto. Jorge Lucki será o consultor. Estarão disponíveis para compra 46 glebas, cada propriedade terá entre 20 mil e 25 mil metros quadrados. O complexo, localizado em Jacutinga, na divisa com Minas Gerais, a 180 quilômetros de São Paulo, é uma região de vinícolas. Previsto para 2028, o espaço ainda inclui 40 jabuticabeiras antigas e terá uma loja de vinhos, wine bar e hotel.

​Antes de voltar a Curitiba estiquei a viagem até o Rio de Janeiro. Depois segui para Foz do Iguaçu. Sei que terei muitos assuntos. Ainda não entendo de vinho como gostaria, mas aprendi que as melhores coisas pedem tempo. “O gosto caprichado das coisas fora do seu tempo desejadas”.

Jussara Voss

Jornalista, escritora e agitadora cultural. Ativista da gastronomia social, defendendo comida de qualidade e acessível para todas as pessoas.

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