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Monotonia no prato: Como viver melhor, dieta diversificada e dois livros ajudam

“Chega de veneno e comida monótona”. A frase me chegou por e-mail. Você já leu algum relatório sobre produção de alimentos? É uma coisa estarrecedora. Ler “veneno” tira o sono. O uso indiscriminado de defensivos – inclusive proibidos lá fora – somado ao avanço dos ultraprocessados, dita o ritmo dessa dieta repetitiva. O link para a matéria estava no informe Cidadania e Consumo, do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), retirado do jornal da Universidade de São Paulo (USP). Resumo: a segurança alimentar contemporânea está ameaçada pela tríplice monotonia do sistema agroalimentar. Tudo está concentrado na produção, consumo e cultura alimentar em poucas opções de insumos.

No mundo, temos cerca de sete mil produtos comestíveis. Apenas 400 são cultiváveis. De acordo com a FAO (State of the World’s Biodiversity for Food and Agriculture), menos de 200 são cultivadas. E 75% das calorias que consumimos vêm de apenas seis produtos: trigo, milho, arroz, batata, soja e cana-de-açúcar. É difícil acreditar e não é a pior parte da notícia. A pior parte é a necessidade de reduzir o uso de antibióticos na produção. A boa notícia é que os países do G20 – grupo de representantes das maiores economias do mundo – se comprometem a combater isso. A má notícia é que depende da gente. O problema é que parte da população não gosta de mudar e não quer, parte não pode, parte acha que é uma grande bobagem. Interesses econômicos passam por cima. 

Biodiversidade e resistência

As estimativas indicam que quem mantém estáveis 80% da biodiversidade global e manejam 42% dos territórios em boas condições ecológicas são os indígenas. São dados da pesquisa da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Brasil tem mais de 300 povos indígenas e centenas de comunidades quilombolas que preservam os ecossistemas. Vão na contramão e precisam lutar para não serem engolidos por quem não acredita em nada disso.

O professor Ricardo Abramovay, do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, traduz o relatório do G20 pra gente. Ele participou da reunião realizada na África do Sul, recentemente. A leitura é recomendada.

Abramovay cita no documento a primeira recomendação: reduzir o uso de antibióticos nas criações animais, sobretudo de aves e de suínos. A resistência aos antibióticos com as superbactérias é séria, atesta a Organização Mundial da Saúde (OMS). E quem pode criar galinha ou porco ou consumir apenas os criados soltos e não alimentados com ração? Ao mesmo tempo, empresas lançam sementes que exigem o uso de produtos químicos prejudiciais à saúde. Lucro acima de tudo.

No último fim de ano, dois amigos que foram à praia tinham familiares com uma virose forte. Coincidência. Liguei os fatos (sem comprovação científica nenhuma). São reflexões de cronista e não de jornalista. 

Prato colorido, diz a nutricionista. Não é fácil. Difícil também é tentar convencer alguém a consumir ingredientes integrais. Começa com as escolhas. É preciso saber ler um rótulo. Não são as letras grandes de “artesanal, integral e natural” ou frases como “produto saudável” que você vai saber o que está comprando. É preciso ler a relação dos ingredientes. Prepare-se para o susto.

O porco que veio de longe

Continua a cronista. Em um restaurante chic da cidade leio no cardápio que a carne de porco usada em um prato vem de outro país. Entendo que deve ser especial pra ter viajado tanto. Pergunto para a atendente: que porco é esse? É criado solto? O que come? Porque o que interessa é o bem-estar animal e saber como foi alimentado. A moça olha constrangida para mim. Ninguém nunca lhe perguntou isso, deduzo. Na mesa, sou motivo de piada. Temos um porco autóctone criado solto, o Moura, que vive feliz, não come ração e nos presenteia com uma carne saborosa. O único problema é o seu valor. Conclusão: deveríamos comer menos carne, digo. Riem de mim novamente. Mas, pelo menos, a panqueca deveria honrar a carne de porco especial que a envolveu. Não foi o caso.

Essa resistência em mudar, em ter empatia, me faz pensar que tudo começa na infância. Não consigo esquecer a morte do Orelha, o cão morto por jovens. Mudo de psicanalista. Saio de Lacan para Jung. Gosto do profissional, na primeira sessão já me jogou na cara algumas coisas. Saio aturdida e resolvo entrar em um retiro espiritual no carnaval. 

Educação 

Volto ao paladar porque a chef Manu Buffara e a nutricionista Juliana Dieterich lançaram o Comidinhas mágicas – Aventuras culinárias pelo mundo. O livro pretende ensinar a olhar e despertar a curiosidade para a natureza e a imaginação. Fico apavorada com crianças que só comem macarrão com molho branco, batata frita e hambúrguer. Leite condensado e achocolatado para sobremesa. Depois viram adolescentes que crescem dizendo “eu não gosto”. 

Por sorte temos saída. Elas mostram que a comida nasce da terra, tem um tempo e uma história. Fazem isso muito bem, claro. As duas trabalham juntas há muito tempo e têm filhas na mesma idade.

“O paladar de uma criança é como um jardim: o que plantamos agora floresce para toda a vida”, apontam já no prefácio. E continuam: “Aprende que comer é um ato de respeito – ao alimento, a quem o cultivou, ao próprio corpo”. Ensinar que “a cultura de um povo não está apenas nos livros e museus”, dá uma esperança. Espero que muitas famílias aceitem o convite delas para descobrir o prazer de cozinhar, compartilhar e criar laços para toda a vida. A publicação é da Editora Senac.

Cérebro, menopausa e alimentação

Essas reflexões me levam até Lisa Mosconi. A neurocientista é referência mundial sobre menopausa, nutrição e cérebro. A famosa palestra “How menopause affects the brain” tem mais de quatro milhões de visualizações. Ainda não estou com o exemplar em mãos do O cérebro e a menopausa (e sem ler já recomendo). Assisti ao programa com ela no Roda Viva, da TV Cultura (também disponível no YouTube) sobre menopausa. Sem surpresas: “Dietas ricas em alimentos ultraprocessados afetam a memória, humor, foco e envelhecimento”. Tudo conectado: comer bem e saúde pública; consumo de alimentos integrais, legumes, grãos, fermentados e frutas para uma vida longa e saudável; alimentação inadequada e o aumento de doenças neurodegenerativas. 

Quando eu li a descrição do seu livro: “O cérebro e a menopausa é uma carta à feminilidade e um grito de guerra para que todas as mulheres abracem a menopausa munidas de conhecimento e confiança”, corri comprar. Ainda não sei quando a dita-cuja acaba, só sei quando começa. Espero que ela me ajude.

Comidinhas mágicas: receitas como viagens

A primeira receita do livro desperta uma curiosidade. Vem da China. Zao fàn dá uma ideia para grelhar tofu. Penso no perfume do arroz de jasmim (eles comem no café da manhã, não precisamos). Os legumes salteados inspiram. O recheio (opção vegetariana também) dos baozi, os pãezinhos no vapor, é tentador. Não é só isso. Elas dão outras ideias trocando ingredientes. Já sei que vou testar tudo.

Do Zao fàn elas vão para o asgohan, o ritual japonês para começar o dia. Esquento a água para o chá verde (é tudo o que posso fazer agora). Jok, “o segredo cremoso das manhãs tailandesas”, chega pelas páginas da publicação. Logo depois apresenta o “mexidinho da Maria, uma das filhas da Manu, que junta legumes, ovos, feijão e especiarias. Pode parecer estranho, mas é ver a foto e querer provar. Tem proteína, fibra, vitamina e antioxidantes. Depois vão para os Andes. Vem de lá as cachapas, as panquecas venezuelanas de milho fresco.

Tem o capítulo das receitas tradicionais, com irresistíveis “pãezinhos de coco”, receitas do Mediterrâneo, os smoothies da Califórnia e o sorvete de abacate. Lanchinhos criativos, que inclui o hawashi, o pão do Egito, estão lá. Depois passam pela Índia e Cuba. Enfim, muita provocação. Agora que jantei, queria as “estrelinhas da Catarina”, filha da Juliana. Só quinoa branca, chocolate amargo, raspas de laranja e flor de sal. Ainda estou na metade do livro, imagine as “receitas para refeições em família” e “os doces para crianças felizes”.

O que devemos fazer para seguirmos mais saudáveis é ligar a sensibilidade e o talento de uma chef premiada e de uma nutricionista com a ciência de uma pesquisadora. Enxergar a comida como experiência que gera transformações sociais, econômicas e culturais é o caminho. 

Lisa dedica o livro “A todas as mulheres – nossas ancestrais, nossas descendentes e todas vocês que estão abrindo o caminho comigo enquanto conversamos”. Acrescento: obrigada Lisa, Manu, Juliana e todas que com “súbitas crises de arritmia, ansiedade, depressão, falta de concentração, ondas de calor, suores noturnos, alterações de humor e distúrbios do sono”, seguem trabalhando muito. 

“Cozinhar é um modo de amar os outros”. Adélia Prado.

Jussara Voss

Jornalista, escritora e agitadora cultural. Ativista da gastronomia social, defendendo comida de qualidade e acessível para todas as pessoas.

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