Eu tenho orgulho de Curitiba. Orgulho da sua inteligência urbana, da capacidade histórica de planejar, de estruturar transporte, de organizar o crescimento com método. Mas amar uma cidade não é poupá-la de críticas. É querer que ela seja melhor.
Ali, na Rua Barão de Guaraúna, no encontro do Alto da Glória com o Juvevê, a oficina de Fine Arts de Nathan McCartney — australiano que escolheu Curitiba como casa — está sendo desmontada. Ele e outras casas da quadra receberam uma carta de desocupação curtíssima. Poucos dias para encaixotar anos de história.
Não é apenas um imóvel que fecha. É um pedaço de vida urbana que desaparece.
Curitiba foi referência ao estruturar seus eixos de transporte coletivo e orientar o crescimento ao longo deles. A ideia era aproximar moradia e mobilidade, garantir acesso à cidade. Com o tempo, porém, a infraestrutura pública valorizou o solo — e o mercado capturou essa valorização.
Áreas centrais e bem servidas tornaram-se cada vez mais caras. Populações de baixa renda foram sendo empurradas para as bordas da cidade e da região metropolitana. A Curitiba-modelo consolidou-se nos cartões-postais; a Curitiba trabalhadora alongou seus deslocamentos.
Quando a política urbana não enfrenta a especulação, ela passa a servi-la.
Isso também aparece na concentração comercial. Shopping Centers e Hiper Mercados ocupam quadras inteiras, substituem casas, árvores e pequenos negócios. Ao concentrar consumo em espaços fechados, esvaziam as ruas. O comércio de bairro — que sustenta circulação, encontro e pertencimento — perde força. A cidade fica mais homogênea, menos viva.
A verticalização, por si, não é o problema. Adensar pode ser necessário. O risco está no adensamento guiado apenas pelo potencial construtivo máximo, sem diálogo com o entorno, sem infraestrutura proporcional, sem cuidado com a memória. Torres sobem. Casas caem. Vínculos se desfazem.

A Barão de Guaraúna é um retrato dessa dinâmica. Ali circularam iniciativas, histórias, relações de vizinhança. Agora, com uma notificação seca, tudo precisa ser desmontado às pressas. A cidade muda na velocidade do mercado; a vida das pessoas não acompanha esse ritmo.
É nesse cenário que a revisão do Plano Diretor se torna decisiva. Conduzido pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba e debatido na Câmara Municipal, o processo envolve temas centrais: sustentabilidade, mobilidade, adensamento, regularização fundiária, adaptação climática. O prefeito Eduardo Pimentel afirma buscar diálogo.
Mas planejar cidade é lidar com conflito. Entre interesse público e interesse privado. Entre crescimento e permanência. Entre memória e rentabilidade.
Cada alteração de zoneamento tem endereço. Cada flexibilização normativa tem impacto concreto. A carta de desocupação na Barão de Guaraúna é um ato administrativo, mas seus efeitos são profundamente políticos.
Ela nos obriga a perguntar: desenvolvimento para quem? Valorização para quem? Permanência de quem?
Curitiba pode ser melhor. Pode articular técnica e cidadania com mais profundidade. Pode transformar o Plano Diretor em espaço real de escuta, onde conhecimento científico dialogue com o saber de quem vive o território e onde participação signifique influência concreta.
Se quisermos uma Curitiba verdadeiramente justa, sustentável e viva, precisamos de mais política — no sentido profundo da palavra. Política que enfrente a especulação, que proteja o comum, que garanta que crescimento não signifique exclusão.
Continuo tendo orgulho da cidade. É justamente por isso que não naturalizo processos que desmontam memórias e encurtam permanências.
Ali, naquela esquina, não está apenas um ateliê sendo fechado. Está uma síntese das escolhas urbanas que fazemos.
Cidade boa não é só a que aparece em ranking.
É a que permite que as pessoas fiquem.
