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O Natural, Por Favor: o reino vegetal, a escrita à mão e a autenticidade

Foto: Arquivo pessoal/ Jussara Voss

O pesquisador italiano Stefano Mancuso, em “Fitópolis”, lembra o quanto nos afastamos do “nosso lar natural”. Ele aposta no reino vegetal menosprezado pelo homem moderno para ser um modelo de regeneração. O tema da neurobiologia vegetal me atrai. Já imaginei um debate entre botânicos, arquitetos, médicos homeopatas e antropólogos para desenhar a planta de uma cidade ideal.

A semente dessa revolução, que “parta da cooperação, não da competição”, é fundamentada na tese do darwinista Patrick Geddes (Cidades em evolução, de 1915). J.R.R. Tolkien ajuda a confirmar a importância do mundo vegetal. “A floresta é viva e se regenera”, observou Matheus Lopes Quirino ao resenhar a obra de Mancuso para o Valor Econômico.

Mancuso aponta as políticas de reflorestamento como escudos contra o calor gerado pelo aquecimento global, entre outros fatores que afetam diretamente a nossa saúde. E, vejam só, Curitiba é citada como exemplo de cidade verde. Há 55 anos, o então prefeito Jaime Lerner deu vida a um projeto visionário de arborização: revitalizou o Passeio Público; devolveu uma rua aos pedestres e multiplicou parques, entre outras ações. Quando vejo os parques cheios, faço o meu mea culpa por ter achado um exagero. O tempo provou a necessidade.

Aos poucos, tento montar meu próprio quebra-cabeça do bem viver para, no mínimo, reduzir o meu impacto de existir no mundo. Comecei com a adesão ao movimento internacional “segunda sem carne”. Resgatei o hábito de reduzir a ingestão de carne vermelha. A solução, afinal, vive na terra e nas plantas, até mesmo para a cura do nosso corpo. 

Outro hábito que experimento é escrever em uma caderneta antes de passar o texto para o computador. Quero testar se deixar a caneta na gaveta atrofia o cérebro. Também me assustei ao ouvir de um neurocientista que ainda teremos uma geração que não escreverá, nem lerá.

Sou amparada por outro artigo: o do cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre e membro titular da Academia Nacional de Medicina, José J. Camargo. Ele alerta que a digitação prejudica a memória, o aprendizado e a coordenação fina.

Camargo não cita a fonte dos estudos que “indicam que o ato físico de escrever ativa áreas cerebrais essenciais para o aprendizado e o raciocínio crítico, de forma mais intensa do que a digitação”. Mas detalha informações sobre o que acontece no cérebro. Fui convencida. A memória tem falhado e sei que não estou sozinha.

Sei também que a paciência de caprichar na caligrafia dura apenas um parágrafo. Começo a escrever bonitinho e logo incorporo um espírito rebelde que solta garranchos incompreensíveis e me faz abandonar a ideia de adotar a rotina de papel e caneta. O médico lembra que “a escrita manual é uma tarefa multissensorial”. Tenho certeza de que não quero atrofiar minhas “habilidades motoras delicadas”, então comecei o treino. Ontem, deu certo. Também faço planos para voltar a desenhar e cantar. A dança, essa, eu não abandono.

Vinho          

O vegetal e a escrita manual como protagonistas se intrometeram aqui por acaso. Ao provar uvas orgânicas, de bagas pequenas e doces, logo após o almoço, lembrei de que a intenção original era escrever sobre vinho. 

Aprendi com Lis Cereja que, se cuidamos do que comemos, deveríamos prestar atenção no que bebemos. O vinho é parte da cultura alimentar da humanidade, nem sempre produzido com autenticidade e ética (que respeita o tempo). Diferentemente da comida, não sabemos o que foi usado na elaboração da bebida. No rótulo, constam apenas as uvas e o uso de sulfito. Parece que a legislação, começando pela Europa, deve apresentar novidades em breve. 

Sonho em pisar na Geórgia, berço ancestral da bebida, guiada pela Lis. Seus roteiros para conhecer produtores e provar vinhos deixam a gente com vontade. Mais um feito dela que nos enche de orgulho é a realização da feira Naturebas, em São Paulo. Sempre está na minha agenda e recomendo conhecer. 

Outra mulher admirável nesse universo é Gabi Monteleone. Ela assume o papel de “contar histórias, aproximar o consumidor das pessoas dos vinhedos, da terra, dos caminhos”, como ninguém. Conheci a sommelier ainda no restaurante  D.O.M. e, depois, acompanhei seu projeto Tão Longe, Tão Perto, que conecta produtores a consumidores.

Admiro a profissional além do trabalho na elaboração de cartas para restaurantes, como o Clandestino (SP), e o Manu (PR). Sem falar no livro “Conversas acerca do vinho”. Recomendo para quem quer saber sobre esse mundo. Gabi destaca que o objetivo da publicação “não é apresentar respostas, mas provocar reflexões, questionamentos, escuta e uma busca por um novo caminho. Um caminho de respeito. Às pessoas, aos saberes, à terra”.

Além de ensinar didaticamente os processos e detalhes técnicos da produção, Gabi mostra que quem trabalha com mínima intervenção e agroecologia defende a vida acima de tudo. É a opção por um método de elaboração “que protege a saúde e a natureza e sustenta uma cadeia que começa no produtor familiar”. É a minha escolha, seja produzido aqui ou em outro país.

Chamou a minha atenção no livro o capítulo sobre as leveduras. É assunto obscuro para quem toma a bebida. “Sabe-se que o vinho é o sumo da uva fermentado, mas o processo da fermentação, no imaginário do consumidor, é aquele artesanal, que acontece em barricas, naturalmente”. Não é bem assim. 

De acordo com Gabi, há muitas técnicas para o uso de leveduras. “Voltadas para obter determinado resultado na bebida. Uma delas é o uso de leveduras artificiais, exógenas, comerciais ou enológicas”. Resultado: uma “estética padronizada de bebida”. Justifico assim a minha preferência por vinhos naturais, sem o uso de leveduras comerciais. 

Pense nisso. Pense que existem “vinhos químicos”, “que passam por intervenção química do manejo do vinhedo à vinificação. Sofrem intervenção, com uma série de aditivos. São herbicidas, pesticidas, fungicidas, inseticidas, fertilizantes e inclusive hormônios “reguladores”. Temos mais de 50 grupos de produtos aditivos. É possível entender (e se assustar) mais sobre o tema no capítulo: Conheça os tipos de vinho sob o olhar da sustentabilidade.

Desafios

Se falar de levedura é falar de terroir, desembarco em São Luiz do Purunã, no Paraná, na sede da Unus Mundus, da qual sou fã. Vamos reduzir a emissão de carbono, valorizar um produto da nossa região e aproveitar que temos rótulos de qualidade? Lembro da paisagem, a encosta com uvas diferentes, como Lagrein e Rebo, de forte personalidade, que provei recentemente. Plantadas tendo a Escarpa Devoniana como testemunha, são videiras que se revelam com o tempo e passam por um método de extração cuidadoso. O crédito é do casal de psicanalistas Juliano e Carol. A produção do vinho autoral é pequena, alguns de pouco mais de 300 garrafas, que carregam identidade própria. O projeto de vida deles nasce desse arrojo de fazer um vinho que traz a memória das uvas europeias interpretadas nos Campos Gerais.

Outro assunto que chama a minha atenção é a queda do consumo da bebida, inclusive na França. O mercado, que cresceu na pandemia com as pessoas confinadas em casa, agora parece encolher. A explicação são os hábitos das novas gerações, que não estão consumindo álcool. Brasil, Rússia, Espanha e Portugal não seguem essa tendência. O premiado chef e empresário Thiago Bañares se revela cético. Em reportagem, aposta que o declínio se deve à adesão a um estilo de vida mais saudável, ao aumento dos custos de produção das bebidas alcoólicas e ao baixo poder aquisitivo das novas gerações.

Preocupação real é o alerta da OMS de que qualquer bebida alcoólica é cancerígena, independentemente da quantidade ingerida. Li a notícia estarrecedora na coluna do especialista no assunto Jorge Lucki. Vamos aguardar mais estudos. Talvez possamos relaxar com as bebidas derivadas da cannabis, que já existem. Ula-lá. 

No fim, tudo se conecta e a natureza manda. Fugir da digitação – a escrita à mão exige paciência, que quase não temos mais – e dos “vinhos químicos” não seria uma maneira de voltar a escutar a terra e viver melhor? Lembro-me de que preciso de poesia e termino com a Ode ao Vinho, de Neruda. 

 

Vinho da cor do dia,
vinho da cor da noite,
vinho com pés de púrpura
ou sangue de topázio,
vinho,
rutilante filho
da terra,
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um antigo veludo,
vinho encaracolado
e suspenso,
amoroso,
marinho,
jamais coubeste numa taça,
numa canção, num homem,
num coro, tens o sentido gregário,
ou pelo menos, comum.

Mas tu, vinho da vida, não és
somente amor,
escaldante beijo
ou coração queimado,
és também
amizade dos seres, transparência,
coro de disciplina,
abundância de flores.
Amo, quando se fala
à mesa, da luz de uma garrafa
de inteligente vinho.
Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro
ou taça de topázio
ou colher de púrpura
que o Outono trabalhou
até encher de vinho as vasilhas
e que o músculo homem aprenda,
no cerimonial do seu negócio,
a recordar a terra e os seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.

 

Tradução de Luis Pignatelli
in Odes Elementares, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977.

Ode ao vinho

Jussara Voss

Jornalista, escritora e agitadora cultural. Ativista da gastronomia social, defendendo comida de qualidade e acessível para todas as pessoas.

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