Skip to content Skip to footer

Decisão histórica, aplicação frágil: por que a LGBTIfobia ainda não é tratada como racismo no Brasil?

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) tomou uma decisão histórica ao reconhecer que a LGBTIfobia deve ser enquadrada como crime de racismo. Ao julgar a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão nº 26 (ADO 26), o STF afirmou que o racismo não se limita a critérios biológicos, mas inclui práticas sociais que negam dignidade, cidadania e humanidade a grupos historicamente discriminados, como a população LGBTI+.

Passados mais de cinco anos, porém, essa decisão ainda encontra sérios obstáculos para sair do papel. Uma pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas (FGV Direito SP) revela que a aplicação do entendimento do STF pelo Judiciário brasileiro é irregular, frágil e, em muitos casos, inexistente.
Link https://direitosp.fgv.br/noticias/pesquisa-fgv-direito-sp-revela-que-equiparacao-lgbtfobia-crime-racismo-nao-reconhecida-forma

O estudo analisou decisões judiciais de tribunais estaduais em diferentes regiões do país, tanto na esfera penal quanto na cível, com foco em casos de violência e discriminação contra pessoas LGBTI+. Os resultados são alarmantes: em grande parte dos julgamentos, a motivação LGBTIfóbica não é reconhecida, mesmo quando as ofensas relacionadas à orientação sexual ou à identidade de gênero são evidentes. A pesquisa analisou 71 decisões judiciais, sendo 32 na esfera criminal e 39 na esfera civil, de cinco tribunais de Justiça estaduais: Amapá (TJAP), Bahia (TJBA), Distrito Federal (TJDFT), Paraná (TJPR) e São Paulo (TJSP).

Com frequência, a violência é tratada como “desentendimento pessoal”, “brincadeira” ou “mero aborrecimento”. Ao desconsiderar o contexto social da discriminação, o Judiciário esvazia o sentido da decisão do STF e contribui para a normalização do preconceito. Na prática, a mensagem transmitida é clara: discriminar pessoas LGBTI+ no Brasil ainda custa pouco.

Esse problema se agrava na esfera cível. Mesmo quando há condenação, os valores das indenizações por dano moral são baixos e incapazes de cumprir uma função pedagógica. Raramente se reconhece o impacto coletivo da LGBTIfobia, que não atinge apenas a vítima direta, mas toda a comunidade LGBTI+.

A pesquisa também identificou práticas institucionais que produzem revitimização, como o desrespeito ao nome social de pessoas trans, o uso de linguagem inadequada e a invisibilidade de fatores interseccionais, como raça e classe social. Em vez de proteger, o sistema de justiça frequentemente reproduz a exclusão.

Existem, é verdade, decisões que apontam caminhos positivos, reconhecendo a LGBTIfobia como forma de racismo e aplicando corretamente a ADO 26. Mas essas decisões ainda são exceções.

O desafio central hoje não é a falta de legislação, mas a ausência de vontade institucional. O Brasil precisa de protocolos nacionais de julgamento com perspectiva de diversidade sexual e de gênero, formação continuada para magistrados e servidores, padronização de dados e aplicação efetiva de instrumentos como o Formulário Rogéria, do Conselho Nacional de Justiça.

Enquanto a decisão do STF não for plenamente incorporada à prática judicial, a cidadania da população LGBTI+ seguirá incompleta. Garantir a aplicação da lei não é favor nem concessão: é dever constitucional do Estado brasileiro.

Por Toni Reis
Diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+

Toni Reis

Ativista LGBTI+, cofundador da ABGLT e do Grupo Dignidade. Diretor da Aliança Nacional LGBTI+, professor e autor premiado em direitos humanos.

Mais Matérias

30 jul 2026

PELAS MULHERES DO BUSÃO

Todos os dias, ele passa ali na Praça Cornélia, uma provinciana exceção na metrópole onde vivo…
28 jul 2026

HONESTINO

Aurélio Michiles é um artesão de extrema habilidade. A cada filme, a simbiose entre afeto e estética se apura…
28 jul 2026

E o horror sorriu para nós

E o “homem de bem” colou no peito o símbolo da eliminação de uma mulher e fez uma foto sorridente…
23 jul 2026

A geopolítica do trabalho e o tarifaço de Trump

O tarifaço imposto pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros não deve ser interpretado apenas…
23 jul 2026

DAS CONSEQUÊNCIAS HISTÓRICAS DO INSUCESSO ESPORTIVO

Sempre que a seleção brasileira é desclassificada da Copa do Mundo, ouvimos que o insucesso decorre do abandono…