
Considerações sobre um episódio da biografia do presidente Lula, tal como narrada por Fernando Morais
O escritor Fernando Morais, autor de ampla e aclamada obra, divulgou, recentemente, o segundo volume da biografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alcançando previsível e merecida repercussão.
Na divulgação desse livro, ao participar de entrevistas veiculadas pelas mídias tradicionais e digitais, Morais destacou um fato ocorrido na antevéspera da disputa presidencial de 1994, envolvendo o PT e o PSDB. Segundo a sua narrativa, vocalizada nas entrevistas e descrita no livro, os presidentes desses dois partidos, Lula e Tasso Jereissati, teriam alinhavado, por meio de reuniões de bastidores, uma aliança eleitoralvisando à sucessão de Itamar Franco. Líder das pesquisas de intenção de voto, Lula ocuparia a cabeça da chapa e Jereissati seria o vice.
Condensada no capítulo 11 do livro, a narrativa dos fatos relacionados à articulação da aliança é rica em detalhes. Não é o caso de resumir aqui o que o leitor pode encontrar nas páginas do livro, beneficiando-se da maestria da escrita do autor. Para ilustrar, indico apenas alguns fatos balizadores. Primeiramente, Morais situa a origem dessa articulação no curso do movimento político pelo impeachment do presidente Collor, quando houve aproximação entre Lula e Jereissati. Em seguida, revela que, conduzida em sigilo, “a heterodoxa aliança só veio a público ao ser vazada pelo jornal O Estado de S. Paulo, em meados de janeiro”, merecendo página inteira do importante periódico, sem desmentido dos envolvidos, que se limitaram a declarações evasivas. Informa, ainda, que as tratativas se mantiveram e avançaram em paralelo à participação do PSDB no governo Itamar e ao período em que Fernando Henrique Cardoso, assumindo o comando do Ministério da Fazenda, desencadeava os primeiros passos do que viria a ser o Plano Real.
Por fim, salienta, em linguagem contundente, o desenlace:
“Sem exalar um único suspiro, o sonhado casamento entre Lula e Tasso não morreu de causas naturais, mas por atropelamento”.
Em fevereiro de 1994, o ministro da Fazenda obteve apoio do PFL para aprovar o Fundo Social de Emergência, instrumento fiscal considerado basilar para o sucesso do Plano Real. Em março, a entrada em vigor da URV, a moeda de transição que precedeu o Real, mudou a fase do plano. Daí em diante, a hipótese da candidatura de FHC mostrou-se viável na razão direta dos resultados preliminares do plano na contenção da espiral inflacionária. O resultado, como sabemos, foi a vitória de FHC no primeiro turno.
Não se trata de questionar a narrativa do autor, cuja credibilidade não está em pauta, mas de escrutinar os limites de sua interpretação. Uma primeira constatação deriva do tom que conduziu tanto a escrita quanto a divulgação. Os episódios são revelados como se fossem algo muito fora da curva para os padrões da época. Em certa medida, essa ‘aliança heterodoxa’ seria o prenúncio não realizado da inflexão pragmática que o PT adotaria no início do atual século, quando preparava a primeira vitória na corrida presidencial.
É preciso tomar cuidado com o anacronismo. Quem toma ciência agora, após duas décadas de disputas presidenciais entre PT e PSDB como polos da política nacional, talvez se surpreenda com tal revelação. Todavia, no início da década de 1990, tais tratativas estavam no leque de possibilidades da tática oficial petista. Contrariando o que acentuou Morais, a eventual aliança não chegava a ser heterodoxa.
Em 1989, como demonstram os documentos partidários da época, o PSDB estava na órbita da política de alianças da campanha Lula. A esse respeito, escreveu Wladimir Pomar, coordenador nacional da campanha Lula de 1989, no livro Quase lá, editado no início de 1990:
“Nas eleições presidenciais de 1989, o PT trabalhou, desde o início, para formar uma aliança em torno de Lula, englobando PV, PSB, PCdoB, PCB, PDT, PSDB e setores progressistas do PMDB. Ao contrário do que afirmaram os mais diferentes analistas políticos, em geral desconhecedores da política do PT, este se empenhou para que tal aliança ou coligação se materializasse desde o primeiro turno”.
Naquele primeiro turno, PDT e PSDB tinham candidaturas competitivas e aspiravam à liderança da política nacional. Além disso, eventual aliança pressupunha negociações programáticas.
Em relação ao PSDB, havia divergências apreciáveis sobre temas nevrálgicos.Com efeito, a campanha capitaneada por Mário Covas propunha um choque de capitalismo. Em termos de ações práticas, em um contexto em que a agenda da privatização estava em debate, para se distinguir de Fernando Collor e Guilherme Afif, Covas vocalizou a necessidade de desestatização. Para os padrões da esquerda do período, a consequência não era muito diferente, ou seja, implicava privatização.
Por sua vez, o PT procurava traduzir os princípios do programa democrático-popular aprovado em seu 5º. Encontro Nacional e pôr em prática a estratégia derivada daquelas diretrizes. No contraste com a proposta do PSDB para o tema citado acima, o programa de governo de Lula falava em desprivatizar o Estado e no fortalecimento e democratização da gestão de suas agências e empresas.
Wladimir Pomar assinala a repercussão das divergências programáticas nas tratativas para alinhavar o apoio no segundo turno: “O PSDB levantava objeções a um suposto poder sindical proposto no programa da Frente e também à reforma agrária, pressionando para que o programa fosse amaciado”. Além disso, também mapeia a resistência empreendida por alguns cardeais do tucanato:
“Montoro, Richa e Tasso Jereissati trabalhavam contra a aliança de seu partido com a Frente Brasil Popular, […] impedindo Covas de jogar peso no Movimento Lula Presidente até quase o comício do dia 12 de dezembro, em São Paulo”.
Faltavam cinco dias para o segundo turno, ocorrido em 17 de dezembro.
Naturalmente, entre o período que separa as duas eleições presidenciais, no qual houve a ascensão e queda de Collor, além de eleições de âmbito estadual e municipal, a conjuntura nacional sofreu deslocamentos significativos de agenda governamental e de posicionamento e estratégia dos partidos políticos. Na antevéspera da eleição de 1994, a persistente crise nacional alavancava Lula como favorito para a sucessão de Itamar Franco.
A análise dos documentos partidários demonstra que o PT manteve o PSDB em seu campo de alianças, mas atento às nuanças internas dessa legenda e ao seu posicionamento concreto sobre a política e a agenda nacional naqueles anos turbulentos.
No 8º. Encontro Nacional do PT, realizado em junho de 1993, a política de alianças para a eleição de 1994 foi assim circunscrita:
“A necessidade de construir um arco de alianças que viabilize a vitória, e também o cumprimento do programa transformador, exige uma composição partidária mais ampla que a dos partidos que se assumem como esquerda, como o PSB, o PPS, o PCdoB, o PC e o PSTU. Merecem análise à parte os partidos e articulações de centro-esquerda, particularmente Brizola, com seu PDT, e o PSDB, que vêm tendo políticas ambíguas, mas que poderão interferir decisivamente na disputa de hegemonia posta na conjuntura”.
Ao discorrer especificamente sobre os potenciais aliados, a resolução define o PSDB como “um campo em disputa”. Analisando a trajetória e o perfil dessa legenda, a resolução infere:
“Partido de sustentação ao governo Itamar, sua trajetória vem sendo marcada por ambiguidades: apoiou Lula no segundo turno das eleições de 1989, mas chegou a ter ministros na fase terminal do Governo Collor; apoiou Suplicy no segundo turno das eleições de 1992, mas tem um secretário no Governo Maluf; coligou-se com o PT em diversas cidades, mas noutras serviu de legenda para políticos de direita. Esse comportamento ambíguo expressa, em certa medida, o caráter contraditório da política e da base social e eleitoral dos tucanos. O PSDB apresenta fortes diferenciações regionais, sendo dominado, em vários estados, por setores conservadores. No seu conjunto e nacionalmente, tem predominado no interior do PSDB um programa inspirado no ideário neoliberal (grifos de minha responsabilidade). Ao mesmo tempo, o PSDB tem apresentado uma dinâmica estatal com fortes componentes fisiológicos. No entanto, apesar de não integrar o campo democrático e popular, o PSDB abriga setores progressistas. Hoje, predomina no PSDB a busca da terceira via, mas amanhã pode estar mais próximo de nós. Por isso, o PT deve disputar o apoio da militância e do eleitorado tucano, a começar pelas cidades onde coligamos, polarizando o máximo de forças para uma aliança com esse partido, a partir de um programa democrático e popular”.
Na conclusão, aponta os encaminhamentos práticos:
“Temos que disputar as bases, militante e social, desses partidos, visando incorporar o PSDB, o PPS e o PSB à oposição ao governo Itamar e à candidatura Lula-94”.
Em maio de 1994, por ocasião do 9º. Encontro Nacional, diante do fato anunciado da disputa com o PSDB, a resolução partidária avaliou:
“A trajetória do PSDB demonstra como estava correto o PT ao estabelecer, como critério para sua política de aliança, o acordo em torno do programa de governo e o apoio a Lula”.
Essas extensas citações recomendam outra reflexão, que parece não constar da interpretação de Morais. Se a aliança estava no campo das possibilidades, tendo sido praticada em outras escalas nos anos anteriores, resta saber em que bases poderia ser consolidada na corrida presidencial de 1994. História vista a partir de cima, a abordagem de Morais parte do pressuposto de que as tratativas preliminares dos dois líderes partidários seriam suficientes para chegar ao desfecho anunciado, ignorando ou menosprezando as disputas internas de cada legenda e as divergências que existiam, ou poderiam existir, entre os seus principais dirigentes. No caso do PT, entre os dirigentes e a base partidária. Acima de tudo, passa ao largo das diferenças programáticas entre as legendas e de seus projetos próprios (e legítimos) de assumir a liderança da política nacional.
Morais descreve que FHC, ao iniciar a elaboração do plano, cercou-se de economistas de perfil neoliberal, isolando outros que eram conhecidos como desenvolvimentistas, egressos do antigo MDB. Portanto, o principal ministro do governo Itamar, talvez o mais renomado intelectual do PSDB, conduzia uma formulação oposta ao ideário que guiaria o plano de governo de Lula. No entanto, Morais aponta que Lula e Jereissati “dedicavam muda indiferença aos planos que engatinhavam no Ministério da Fazenda”, referindo-se ao momento em que FHC, ainda em 1993, apresentara ao Congresso as bases do novo programa econômico do governoItamar.
O favoritismo de Lula na corrida presidencial decorria, em larga medida, do fato de os governos Collor e Itamar não serem bem-sucedidos na reorganização da economia. O PSDB participava do governo Itamar com responsabilidade crescente. Ao assumir o ministério da Fazenda, FHC se tornou uma espécie de primeiro-ministro. É o caso de indagar como esse fato poderia ser desprezado pelos líderes da composição, havendo ou não sucesso da gestão do ministro da Fazenda. Em caso de fracasso, haveriao desgaste para a legenda tucana; em caso de sucesso, o ministro se cacifaria, como aconteceu.
No caso do PT, Morais inicia o capítulo 11 citando o deslocamento de forças que ocorreu na direção partidária durante o 8º. Encontro Nacional, mediante a ascensão da ‘oposição de esquerda’, reunida na chapa Hora da Verdade. Segundo as palavras do autor, Lula sofreu “a primeira derrota dentro do partido que criara treze anos antes”. Ele explica que a oposição interna, situada à esquerda do grupo dirigente histórico, reuniu forças para eleger o primeiro vice-presidente da Comissão Executiva, que assumiria o posto principal quando Lula se desligasse da presidência partidária para disputar a eleição. Só então, na avaliação de Morais, a vitória da esquerda seria completa.
Ao que tudo indica, Morais menospreza o significado e o alcance do giro realizado pelo 8º. EN desde o início. Sua abordagem ignora as resoluções desse encontro a respeito da estratégia e da política de alianças, citadas pouco atrás pelo presente texto. O PSDB estava na política de alianças, mas definido como um campo em disputa. Portanto, havia pré-condições para que as tratativas avançassem e chegassem a termo. Presidente do partido, Lula ignorava ou menosprezava isso? Tudo indica que haveria disputas internas sobre as bases de eventual aliança. Parece que Morais enxerga a conjuntura de 1993 com o olhar de 2026, impregnado pela acentuada assimetria que existe na relação entre um líder que é um mitológico presidente da República e a estrutura partidária. Três décadas atrás, a dinâmica interna não continha assimetria dessa magnitude.
A ascensão do PSDB ao poder significou a realização de grande parte da agenda liberal que Collor foi incapaz de promover. Aceitando que o PSDB era um campo em disputa, resta saber se essa disputa teria o condão de cimentar uma aliança tendo como base um programa democrático-popular, como postulava o PT nos documentos que balizavam a estratégia daqueles anos.
Portanto, a imagem de que o projeto de aliança não foi viabilizado porque foi atropelado pelo Plano Real é forte e sugestiva para mobilizar a atenção dos leitores atuais e futuros, mas bastante superficial para explicar o que aconteceu. Não escrevi para polemizar ou refutar o autor. A maior homenagem que se pode fazer a um autor é dialogar com o que ele escreveu.
Para contato com o autor:
reginaldodias13@gmail.com
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