
JENNIFER
O metrô vinha lento e parava por uma encarnação. É estranho, as pessoas vão entrando sem que se perceba que a lotação estava em níveis sobre-humanos. Certamente, a experiência acumulada já ensinou que todo trem poderá ser o último e que os trens obedecem a critérios ditados por pessoas que não os utilizam, bacanas engravatados que andam de carro blindado; não imaginam o que é a sensação de ser deixado, plantado, pelo trem que leva a noite, o cansaço, a família, a hora-extra, o bico, a escola noturna, a amante, o bar.
A linha Sé-Palmeiras/Barra Funda era a plateia para Jennifer exibir seus talentos, sua performance era perfeita e era seu sorriso e sua risada, de uma felicidade contagiante.
“RESPEITÁVEL PÚBLICO: COM USTEDS, LO MÁS CONTAGIANTE SORRISO DEL PLANETA, JENNIFER!!!”
Havia pouco, eu passava pela Praça da Sé, um poema concreto de caos e diversidade: um transformista assistia maravilhado à pregação de um pastor maluco, que anunciava para algumas horas o Apocalipse, que viria sem que ninguém percebesse. A poucos metros do Apocalipse do pastor, Robério cantava com os olhos fechados e um violão que cumpria magnificamente sua missão, que é a de ser dolente e penetrante. Ele cantava para suas plateias: a real, os poucos desajambrados que o ouviam; a imaginária, os milhares, as loiras falsas da cerveja, o craque da hora. A música arrancou lágrimas de um vendedor de ervas e beberagens, o “homem da cobra”, que prometia curar picadas de serpentes, sem se dar conta que as cascáveis metropolitanas são bem sutis e traiçoeiras.
Ajudei Evelyn, a muito jovem mãe a levar aquela mala comunitária para algum lugar. “A gente vai ali, na padaria, no ônibus do Partido”, maneira como as pessoas que possuem visitas mas não possuem o dinheiro da passagem se referem a esse aspecto assistencial da facção. Ela vai visitar o pai pela primeira vez. “O senhor me ajuda?” Jennifer levava na mala roupas e agasalhos para o pai e para seus colegas de cela, muito fria, segundo me disse a mãe, uma avó surgida de última hora.
Levei a mala até a padaria. Havia dezenas de Evelyns e Jennifers, felizes. Uma, mais experiente,me reconheceu e sorriu. Jennifer teria uma apresentação, uma performance: sorrir para o pai, preso. Longe dali, na plateia dos desassistidos, o homem da cobra, o pregador maluco, o cantor romântico, a Praça da Sé, louca e revolucionária aplaudiriam Jennifer de pé.
Pedindo bis.
Continue lendo
O Brasil voltou a crescer gerando empregos
O Brasil chega ao meio de 2026 com uma notícia que merece ser compreendida em toda a sua dimensão econômica, social e política. Os novos dados...
A caminhada civilizatória e as falácias tecnocratas: o caso do seguro desemprego
"A economia que não se preocupa com a justiça social é uma economia que condena os povos — o que está acontecendo no mundo inteiro —...
Trabalho decente exige coerência, não protecionismo
O sistema internacional vive um período de crescente instabilidade. Tensões geopolíticas, guerras, disputas tecnológicas, reorganização das cadeias globais de produção e inaceitáveis movimentos protecionistas recolocam o...
Considerações sobre um episódio da biografia do presidente Lula, tal como narrada por Fernando Morais
O escritor Fernando Morais, autor de ampla e aclamada obra, divulgou, recentemente, o segundo volume da biografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alcançando previsível...
A sexualidade humana é um oceano
Participei recentemente de um Fórum Global sobre orientação sexual e identidade de gênero na Universidade de Utrecht, na Holanda. Durante o encontro, dialoguei com pesquisadores e...
Você viu todas as matérias.
Não foi possível carregar. Toque para tentar de novo.





