Em 29 de abril de 2015, o Centro Cívico, bairro de Curitiba onde ficam as sedes dos Três Poderes do Paraná, amanheceu sob forte tensão. De um lado, um enorme aparato de repressão que mobilizou cerca de 1.600 policiais militares do interior do estado, somado aos 4 mil da capital, totalizando mais de 5 mil homens isolando a Assembleia Legislativa (ALEP) e o Palácio Iguaçu (sede do governo).
Do outro, professores e servidores públicos ocupavam a Praça Nossa Senhora de Salete desde cedo, em protesto contra a proposta do então governador Beto Richa (PSDB-PR), que confiscava dinheiro da Previdência do funcionalismo para tapar o rombo nas contas do estado.
Já nas primeiras horas daquela quarta-feira de outono, o clima já era de “praça de guerra”. Havia snipers (atiradores de elite) nos telhados dos prédios públicos, helicópteros sobrevoando a área e o uso de jatos d’água e cães para conter os manifestantes. A Assembleia estava cercada por grades de ferro para impedir a entrada dos servidores.
Por volta das 15 horas, pouco depois de iniciada a sessão da Assembleia onde os deputados estaduais aprovariam o “pacotaço” de Richa, a violência explodiu. Foram duas horas e meia de ataques ininterruptos com bombas de efeito moral atiradas de helicópteros, disparos de balas de borracha à queima roupa e cassetetes da PM. Mais de 200 pessoas ficaram feridas, incluindo parlamentares que tentaram apaziguar a situação e foram atacados pelos cães da polícia.
Em meio a esse cenário de conflagração, uma professora da rede estadual de ensino que pedia que os policiais parassem de espancar os manifestantes foi fotografada pelo repórter Daniel Castellano em frente a uma coluna do Batalhão de Choque da PM que avançava sobre o protesto. A imagem icônica correu o Brasil e o mundo, e se tornou um registro emblemático do mais grave episódio de violência do estado sobre os professores e servidores do Paraná.
Angela Rodrigues dos Santos ou professora Angela, veria sua vida virar de cabeça para baixo depois disso. De simples docente filha de pai pedreiro e mãe costureira nascida em uma pequena cidade da região metropolitana da Capital paranaense, ela se tornou involutariamente o símbolo da luta do funcionalismo público contra o arbítrio.
Mas os desafios de Angela não pararam por aí. Eleita a primeira vereadora do PSOL de Curitiba em 2024, ela logo virou alvo de um processo de cassação do mandato por suposta quebra de decoro iniciado por parlamentares de extrema-direita. O “crime”? Promover uma audiência e elaborar e distribuir uma cartilha sobre a política de redução de danos para tratamento de dependentes químicos. Política essa recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e adotada pelo SUS há mais de quatro décadas.
O processo foi suspenso liminarmente pela Justiça, entre outros motivos, por não ter fundamento legal, conter vícios formais e também por ter mobilizado lideranças progressistas e apoiadores da vereadora, cuja atuação no Legislativo é dirigida ao combate à violência contra a mulher, à defesa dos direitos das minorias e da educação pública, entre outras bandeiras.
Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, Angela conta em detalhes como foi o dia que mudou tudo para ela, explica a origem do processo na Câmara e revela que pretende ser candidata a deputada estadual para entrar pela porta da frente na Assembleia paranaense – onde como servidora pública foi barrada tantas vezes.
BFC: família
Meu pai tem pouquíssima escolaridade mas sempre foi uma pessoa muito politizada, com bastante consciência de classe. Quando mais jovem, trabalhava na Electrolux, que era Refrigeração Paraná na época. Ele passou a ter um pouco mais de contato com esse mundo do trabalho, CLT, sindicatos. E dele veio essa veia política que os filhos acabaram herdando. Ele sempre foi bastante crítico e se filiou ao PT na década de 90. Sempre foi bastante atuante no município, mas nunca se candidatou, nunca fez parte de direção, de nada disso. Era só um filiado e um grande entusiasta do partido e acabou passando para nós essa vontade de mudar as coisas, de participar, de entender que a gente é um agente político.
(Essa influência) foi bastante determinante, porque ele era uma referência política (na cidade). As pessoas iam perguntar a opinião dele. Ele sempre queria estar informado, ser essa pessoa que os outros escutam. E nós acabamos tomando gosto pela política através dele.
BFC: magistério
Professora Angela: Em Tijucas só tinha o ensino médio normal e a minha mãe queria que a gente viesse estudar na cidade grande. Então a possibilidade que tinha era fazer magistério. Não era uma coisa que me enchia os olhos, mas também não me desagradava. Quando entrei no primeiro ano do magistério simplesmente adorei. Gostei muito e vi que realmente era uma coisa que eu gostava mesmo de fazer, só não conhecia antes. Quando você faz magistério tem a oportunidade de dar aula já no início, na época, de pré-escolar à quarta série. Assim que me formei comecei a dar aula. Fiz faculdade de História, que também achava que tinha a ver comigo, porque sempre tive essa coisa de querer falar, de fazer com que as pessoas tivessem um pouco mais de emancipação política. Em Tijucas você via as pessoas muito sem posicionamento. Emancipar as pessoas me brilhava os olhos. Por causa disso que fui cursar História.
Acho que o que me fez gostar muito foi que comecei a fazer estágio com educação de jovens e adultos. Em Tijucas não era esse nome. Era uma espécie de Mobral, porque eram turmas multisseriadas. Tinha desde adolescentes à pessoas de 60 anos estudando numa mesma sala. Aquilo me encantou muito. Vi que eu, uma pessoa tão jovem – na época tinha 15 anos – já conseguia fazer diferença na vida de um senhorzinho de 60 anos. Conseguia ajudá-lo a se alfabetizar, a decodificar as coisas. Para mim aquilo foi muito bonito. Acho que ali despertou. Você alfabetizar crianças (também) é uma coisa muito especial. Porque você sabe que tudo o que aquela criança está desenvolvendo, você é parte fundamental daquilo. Se ela sabe ler, fazer contas, começa a decodificar as coisas, você é parte integrante daquilo. Me encantei muito com essa ideia, com essa vivência. Acho que foi isso que me fez gostar e querer continuar na profissão.
Fui uma estudante que no primeiro ano do ensino médio teve as passeatas do “Fora Collor”. Na época eu não tinha tanta consciência daquilo, mas era uma coisa que me chamava muito a atenção. A gente saía da escola para ir nas passeatas na (praça) Santos Andrade.
Eu fui uma “cara pintada”, mas não era totalmente consciente daquilo. Achava que estava fazendo uma coisa importante no momento, mas não tinha a dimensão de tudo aquilo. Acho que na época li muitos livros sobre a ditadura militar. Coisas assim que foram me inserindo nesse mundo, que me fizeram gostar ainda mais. Ali já começa minha decisão por fazer História. Porque era o momento de curiosidade sobre o que estava acontecendo na conjuntura nacional. Fui querer ler, me informar, porque não tinha um movimento estudantil organizado. Eu não fazia parte do movimento estudantil. Tinha que ler por conta. Tinha uma professora que me indicava livros. Foi me despertando mais para essa curiosidade e fui tendo a certeza de que gostaria mesmo de cursar História.

Professora Angela (PSOL-PR): “Sou pré-candidata a deputada estadual”. Foto: Fabrizio Rosa
BFC: o começo na política
Professora Angela: Na política foi muito mais tarde. Primeiro, enquanto professora sempre sindicalizada, fiz parte de movimentos grevistas, mas nunca tinha sido filiada. Em 2015, teve a greve que ficou conhecida como o “massacre do Centro Cívico”. Inclusive apareço numa foto que ficou bastante conhecida nacionalmente. A partir daquele momento vi que precisava me organizar politicamente, que precisava estar num partido político. Mesmo porque vários partidos começaram a me procurar e entendi que estava tendo uma visibilidade que poderia também aproveitar e pensar nesse assunto. Mas de uma forma que não fosse levada para qualquer partido, mas que fizesse parte do partido que escolhi, que me identificava, que carregava as bandeiras que eu acreditava. Que era o PSOL onde estou até hoje.
(O Massacre do Centro Cívico) foi um divisor de águas na minha vida. A princípio não conseguia participar de atividades políticas porque eu tinha três filhos pequenos e isso era um impeditivo. Nesse momento, eles já estavam um pouquinho maiores e foi quando vi que dava para realmente ingressar na política. Mesmo porque um tempo antes passei por um período pessoal da minha vida bastante difícil. A gente teve uma tragédia familiar, fiquei muito mal. No ano anterior, participei muito ativamente da greve que teve em 2014 e me fez muito bem. Vi que entrar na militância política era uma coisa que poderia também me fazer muito bem e fez. Acho que a política, de certa forma, me salvou de uma depressão. Comecei a focar em outras coisas que eu via sentido e acho que aquilo me deu motivação.
BFC: 29 de abril de 2015
Professora Angela: Primeiro eu preciso voltar um pouquinho e dizer que nesse ano de 2015, a categoria dos profissionais de educação e outras começaram em greve por causa de um pacotaço do Beto Richa. Começamos o ano em greve, foi ocupada a Assembleia Legislativa. Já teve um episódio de algumas bombas de gás lacrimogêneo e tudo mais. Foram alguns dias de ocupação da Assembleia, que fez com que o Beto Richa negociasse. Voltamos para as escolas e ficaram duas coisas pendentes: uma delas era o confisco da nossa previdência. Em abril ele (Beto Richa) só modificou como seria a forma de confiscar, mas estava confiscando da mesma forma. A categoria decidiu entrar em greve novamente. Quando a gente começou a greve, achávamos que ele não deixaria passar batido as coisas. Que teria uma repressão, uma organização no Centro Cívico. Porém, a cada dia que estávamos em greve ia aumentando o efetivo (policial). Tinha muitos policiais vindo do estado todo e cada dia mais. Portais de notícia falam de quase quatro mil policiais no Centro Cívico no auge. De dois mil, três mil e cavalaria. A gente foi vendo a cada dia chegar mais armamentos, Bope (Batalhão de Operações Especiais).
No começo pensávamos que seria parecido com o que foi em fevereiro. “Vai ter algumas bombas, gás lacrimogêneo, repressão, mas a gente passa por isso”. Só que no dia anterior ao 29 de abril, na hora do almoço, mais ou menos, eles já tinham dado uma amostra de que seria maior. Já tinham usado jatos de água — eu não estava nesse momento —, gás lacrimogêneo, tudo mais. A gente viu que não estava para brincadeira. No dia seguinte, pelo tamanho do efetivo que tinha, o Centro Cívico inteiramente cercado. A gente tinha noção de que seria maior, mas eu jamais podia imaginar que foi na proporção que foi. Mesmo porque, naquele período, a gente ainda achava que estava num estado democrático. Que isso era coisa da ditadura, que não voltaria a acontecer, que tinha ficado para trás, que não se faria mais esse tipo de coisa: atacar servidores numa praça pública. Mas não foi o que aconteceu. Vivemos duas horas e meia de bombas, de gás, de jatos d’água, helicóptero jogando bomba, sniper atirando de cima de prédio, o Bope todo atirando fortemente contra os manifestantes que não eram só professores. Tinham outras categorias, civis que foram para apoiar. Foi só depois que aconteceu que a gente viu a proporção daquilo. E o quanto era injusto eles falarem que foi uma batalha do Centro Cívico, porque numa batalha minimamente os dois lados têm condições parecidas. E nós estávamos nos protegendo com leite de magnésia, vinagre. Eu estava com uma canga de praia para pôr no rosto por causa dos efeitos dos gases. Era uma coisa totalmente desproporcional.
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BFC: a imagem
Professora Angela: Primeiro, não foi intencional eu aparecer daquela forma. Eu digo que foi um retrato de uma luta que é coletiva. Eu fui a que apareceu, mas nós estávamos em milhares fazendo a mesma coisa ali. Sem dúvida, não posso negar que teve repercussão. Vários veículos de comunicação me procuraram depois disso, concedi várias entrevistas, me filiei a um partido. É lógico que as coisas começaram a mudar depois do 29 de abril. Eu mesmo precisei entender como que se dava uma entrevista, o que eu nunca tinha feito na minha vida. Eu era uma professora de sala de aula, da base, que estava lá muito motivada também pelos meus alunos, por dizer sempre para eles que nós somos agentes históricos, que temos que correr atrás daquilo que acredita, lutar pelos nossos direitos. Eu achava: “é minha obrigação estar nesse lugar”. E para os meus filhos também achava que eu tinha que ser um exemplo de luta, de pessoa que persegue os seus objetivos. Eu estava lá por esse motivo, lutando ainda pela minha previdência, pelo futuro dos meus filhos. Uma frase que eu falo inclusive para um policial na hora que eles estão me carregando. Eles me tiraram de um tubo do (ônibus) Ligeirinho, e me levaram para o outro lado da praça e falaram para eu correr. Eu virei para eles e falei para pararem de bater na gente, porque eles estavam batendo com cassetete, dando tiro a queima-roupa de bala de borracha e tudo mais. Eu falei para parar de bater porque a gente estavalutando pelos nossos direitos que também eram deles, que a previdência também era deles.
Com certeza mudou. Mudou muito. Porque no ano seguinte aí eu saí candidata. Foi em 2015 (que me filiei ao PSOL), no ano do massacre do Centro Cívico. No ano seguinte saí candidata (a vereadora).
BFC: candidatura
Professora Angela: Uma coisa foi puxando a outra. Você entra no partido, era um partido na época com poucos recursos, poucos filiados querendo formar uma chapa de candidatos. Acho que para eles também foi uma oportunidade, chegar uma pessoa que vem do movimento sindical, que é da classe trabalhadora, para um partido que é de esquerda.
BFC: por que o PSOL?
Professora Angela: Meu pai é petista até hoje, é lulista. Acho que ele tem uma visão ainda ingênua de que o Lula, o PT podem transformar as coisas. Acho que a partir do momento que fiz o curso de História, que já te leva a um pensamento mais crítico, você começa a ver as traições do PT com a classe trabalhadora. Eles são reformistas e eu sou uma pessoa que quer uma transformação total da sociedade. Não quero um capitalismo com rosto mais humano. Aí começam as minhas diferenças com meu pai. Optei pelo PSOL porque que traduzia esse meu pensamento, carregava as bandeiras que eu acreditava.
BFC: eleição
Professora Angela: Acho que foram várias coisas. Primeiro a construção do próprio partido. O PSOL é um partido de esquerda que na época tinha menos deputados federais, foi crescendo, tendo mais visibilidade. Aqui nós precisamos praticamente reconstruir o partido, porque a partir de 2016 muitas figuras foram embora do estado, se desfiliaram. O próprio Renato Freitas (deputado estadual hoje no PT) nessa eleição de 2016 que tive mil e poucos votos, ele também foi bem votado e não passou por causa da legenda. A gente entendeu que o partido precisava se fortalecer, que precisávamos de bons quadros, uma boa legenda. O PSOL cresceu bastante em Curitiba especialmente. As filiações cresceram bastante. A candidatura ao governo do estado (em 2022), embora fosse para apresentar as nossas bandeiras, mostrar quem era o PSOL, no que a gente acredita, também deu visibilidade para o meu nome. Além disso teve a federação com a Rede que também garantiu que a gente fizesse os votos de legenda.
BFC: Bolsonaro e a extrema-direita
Professora Angela: Acho que a gente chegou a esse ponto justamente pelo que eu falei da traição do PT com a classe trabalhadora, dos acordos com a burguesia. Acho inclusive que agora na última eleição, por que nós tivemos o (Eduardo) Pimentel (eleito prefeito de Curitiba em 2024) e a Cristina Graeml (candidata de extrema-direita que chegou ao 2º turno) porque as pessoas ficam pensando: “ah, que diferença que faz entre um que enfim, não é tão diferente um do outro”. E a Cristina se vendia muito como antissistema, que era o que o Bolsonaro também fazia. Dizendo que tudo era muito ruim, que o PT já estava (no poder) há 16 anos. Que teria que ser uma via completamente diferente. Ele vendia isso. Muitas pessoas naquele período foram captadas justamente por esse discurso antissistema.
No PSOL, a gente nos diferencia grandemente do PT. Não queremos fazer alianças só para ter uma via eleitoral mais fácil. Enquanto professora, por exemplo, fiz obviamente muita campanha para que o Lula fosse eleito, porque a gente entendia que era um mal menor do que o Bolsonaro. Mas a gente não tinha grandes ilusões de que seria um grande governo. Muito pelo contrário. Não vimos reformas. Teve a reforma do ensino médio que hoje é péssima. Meus filhos estão passando por essa reforma, meus alunos. Eles achando: “meu Deus, eu não sei nada”, porque a reforma piorou muito.
O Lula poderia fazer a reforma da reforma e ficou pior do que era. A gente não vê nenhum direito trabalhista sendo conquistado, não vê grandes mudanças, nem de reforma agrária, nem nenhuma das reformas. Acho que é isso que nos diferencia muito do PT. É essa crítica que a gente faz nessas alianças com a burguesia.
BFC: jovens de direita
Professora Angela: a gente viu vários “outsiders”: o Pablo Marçal, a Cristina Graeml. De se dizer contra o sistema. Acho que a juventude acaba consumindo muito isso e para eles é uma linguagem fácil. Parece um xerifão falando: “eu resolvo, eu faço isso, aquilo”. Muitos jovens acabam sendo seduzidos. A esquerda, agora estou começando a ver do ano passado para cá, na redes sociais um crescimento. A gente vê alguns canais, algumas figuras como Jones Manoel (ativista digital de esquerda) que recentemente se filiou ao PSOL, uma filiação democrática: ele continua sendo do PCB. São pessoas que têm se comunicado mais com a juventude, mas estava a extrema direita sambando muito nesse setor.
Não sei se por ética ou porque é muito fácil falar qualquer coisa nas redes sociais, fake news. Você não tem compromisso. Para quem é de direita, de extrema-direita, falar qualquer bobagem é uma coisa. Fazer uma comunicação responsável sobre um assunto é totalmente outra. De certa forma acho que tem mais canais, redes sociais voltadas para a extrema-direita do que para a esquerda. Justamente por essa responsabilidade, esse compromisso que a gente tem com o que é sério, correto, verdadeiro. Por isso acho que eles têm mais facilidade nas redes do que a esquerda.
BFC: processo de cassação
Professora Angela: No mês de agosto (de 2025), meu mandato propôs uma audiência pública na Câmara de Curitiba sobre uma nova política de drogas para a cidade com foco nos direitos humanos, na saúde e na segurança. Paralelo a isso, fizemos uma cartilha de redução de danos que estava numa mesa na entrada da audiência. E um vereador pegou a cartilha, tirou xerox de uma parte obviamente descontextualizando, falando que eu estava incentivando o uso de drogas dentro da Câmara. Dois vereadores pediram a cassação do meu mandato por quebra de decoro parlamentar. A repercussão começou a ser muito grande. Eles pegam esse trecho da cartilha fora de contexto e divulgam amplamente, fazem vários vídeos, me acusam de incentivar o uso de drogas, fazer apologia ao uso.
Os dois pedidos de cassação eram pela audiência dentro da Câmara e por essa cartilha de redução de danos que é uma política mundialmente reconhecida. A OMS (Organização Mundial da Saúde) reconhece, o SUS já usa há mais de 40 anos, especialistas queriam que todas as câmaras fizessem audiências públicas para falar sobre a nova política de drogas, que a redução de danos é esperada. Não tem nada de criminoso, muito pelo contrário, salva vidas. Por esse motivo que a gente está sendo perseguida na Câmara.
O nosso caso foi considerado tão grave pelo corregedor da Câmara (Sidnei Toaldo do PRD), que mandou direto para o plenário, não passou por Conselho de Ética, não fez as etapas normais, o que foi uma coisa inédita, nunca tinha acontecido aqui em Curitiba. Foi escolhida uma comissão processante e o relator (Olimpio Araujo Junior, do PL) pediu a minha cassação. Agora está na Justiça. Conseguimos a liminar porque é uma das nulidades apontar para o plenário que só existe essas duas opções: cassação ou absolvição total, sendo que há outras penalidades menores.
A gente sabe que uma fake news, até se desmentir aquilo, o estrago já foi feito e pode ser devastador. É óbvio que a gente tenta colocar o nosso posicionamento nesse caso específico da cartilha, da audiência. Tomou uma proporção muito grande. Além disso, a mídia tradicional também foi, a princípio, bastante parcial, tomou um lado. Só depois agora no final é que eles procuraram me ouvir, saber mais, os dois lados pelo menos e não ficar só com a visão parcial da extrema-direita. A gente tem uma mídia bastante parcial.
BFC: internação involuntária
Professora Angela: O que o (prefeito) Pimentel está fazendo é meio que para responder o que vários vereadores vêm fazendo durante o ano na Câmara. Parece moda a criminalização da pobreza, a política higienista. Tem vários vereadores com projetos absurdos: não querer que as pessoas recebam alimentos no Centro, tirar as cozinhas solidárias, não querer que distribua marmita, proibir esmola, barraca. Usam os piores linguajares possíveis. O “noia”.
Acho que aqui no Sul está em voga essa política higienista. A gente tem visto em Florianópolis (SC), em (Balneário) Camboriú, em várias cidades, eles expulsando as pessoas, não querendo que elas permaneçam na cidade. Isso do Pimentel é achar que uma pessoa em situação de rua não tem o direito de decidir sobre a própria vida. A gente faz parte da Frente Parlamentar em Defesa das pessoas em situação de rua, faz essa discussão. Fazendo pedidos de informações para a prefeitura sobre o por quê dessas internações, quem define quem deve ser internado. Qual que é o papel da Guarda Municipal nisso. Depois que a pessoa sai dessa reabilitação, ela faz o quê? Ela é encaminhada para um emprego, tem casa? Porque ela tem uma vida depois da internação.
Só a internação não resolve se não tiver um programa de moradia, se não tiver um SUS fortalecido, se não tiver o SUAS (Sistema Único de Assistência Social), os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), a rede de proteção bem estruturada. Só internar uma pessoa compulsoriamente não resolve problema nenhum, empurra o problema para debaixo do tapete.
BFC: escolas cívico-militares
Professora Angela: São várias camadas. Por um lado se vende a insegurança. Por exemplo: teve em 2024 ataques nas escolas inclusive em uma cidade do lado de Londrina (Cambé-PR), em que dois jovens morreram. Vimos acontecendo em várias cidades do país. Também tem um elemento que pega mais ainda os pais na questão da segurança, embora as escolas cívico-militares são anteriores a esses casos. O (governador do Paraná) Ratinho utiliza isso como mais um elemento para convencer os pais. Mas o que acontece? O processo de consultas nas escolas é muito rápido. Chega sempre no final de novembro, em dez dias a coisa tem que acontecer. Tem que ter o quórum mínimo. Os alunos acima de 16 anos não podem votar. É só os pais mesmo, porque eles (o governo) sabem que os pais têm mais essa propensão.
No começo era vendida uma ideia de que seria muito parecido com as escolas da Polícia Militar, as escolas militares que têm toda uma estrutura, muito mais verba, muitas diferenças em relação a uma escola estadual convencional. “Ah, vai ser dado uniforme, vai ter isso e aquilo”. Os pais acabavam sendo seduzidos por essa ideia, enganados de que seria como uma escola da PM, que tem uma qualidade, tem o IDEB ((Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) mais alto. E óbvio, todo mundo quer o melhor para os seus filhos, quer uma escola com essa estrutura, com esse IDEB, com tudo mais. O estado inclusive mandava vídeos apócrifos para os celulares dos pais falando sobre a militarização, sobre privatização das escolas.
Eles (o governo) têm como se comunicar com os pais através do WhatsApp. Para a gente (os professores) é proibido. Não pode o sindicato entrar para fazer a conversa com os professores, não pode uma série de coisas. Quem está fazendo a doutrinação é o estado. Se não der o quórum mínimo como no final desse ano (2025), o governador militariza do mesmo jeito. Nisso várias escolas foram sendo militarizadas. E o mesmo com a privatização de várias escolas. Se você for ver, as escolas militarizadas — eles falam que é para subir o IDEB. Todas as escolas do Paraná subiram o IDEB, não só as militarizadas. Tem uma coisa de maquiagem por parte do governo.
Por exemplo: em uma escola, o que puxa o IDEB para baixo são as faltas, a frequência, as provas como Prova Paraná, Olimpíada de Matemática. Tem que ter frequência. Não precisa ir bem, precisa fazer a prova. Esses são os índices que compõem o IDEB. De uns anos para cá, pode perguntar para o professor que você quiser, você quase não consegue dar falta para um aluno, eles mandam dar presença para todo mundo.
Inclusive tem no final do ano o que eles chamam de “Se Liga”, que é uma recuperação tanto para nota quanto para falta. Digamos que o aluno ficou dois meses sem frequentar (a escola), matematicamente ele estaria reprovado. Mas daí ele faz um ‘Se Liga’ que recupera aquelas faltas. Então sobe o IDEB de todo mundo no estado. Tem também o seguinte: o governo tirou o (período) noturno de quase todas as escolas do Paraná. Hoje pouquíssimas escolas, até mesmo o Colégio Estadual do Paraná, têm míseras turmas no período noturno. Antes tinha muitas turmas, quase igual ao do diurno.
O pessoal do noturno, por ser trabalhador, por ser aquele aluno que falta, que no dia da Prova Paraná, da Olimpíada de Matemática, aproveitava: “ah, hoje só tem Prova Paraná então nem vou para a aula” para descansar. Tinha muita falta, muita desistência. Tirando o período noturno, os índices também se elevam. Para mim é parte dessa manipulação, porque também nas escolas cívico-militares não tem noturno, o aluno começa a dar problema eles mandam para outra escola. Aí é fácil ter um índice mais elevado nessas escolas.
As escolas cívico-militares são parte dessa manipulação. Você vê assim: “ah, o Paraná tem o melhor IDEB do Brasil”. Mas quando você vê por exemplo ,no ENEM, as melhores notas não são do Paraná. Uma coisa não bate com a outra. Se tem a melhor educação, o melhor IDEB, as melhores notas, teoricamente muitas delas tinham que ser daqui e não tem. Você não vê esses índices como reais justamente por causa de toda essa manipulação.
BFC: precarização e privatização
Professora Angela: A precarização tem a ver com a privatização das escolas. Ele (o governador) apresentou o projeto “Parceiros da Escola”, que nada mais é do que vender as escolas paranaenses para um grupo de empresários que nem sempre são da educação. Não é obrigatório ser da educação. Primeiro eles precarizam muito a escola, desde merenda, estrutura física, de tudo. Depois apresentam esse projeto “Parceiros da Escola” para a comunidade. Os pais mais uma vez pensam: “nossa, a escola está com uma estrutura física péssima, realmente está precisando de dinheiro aqui investido. Talvez essa privatização melhore”. Muitos acabam aderindo com essa falsa ideia de que vai melhorar. E mais uma vez a gente já viu que não deu certo. É um pouco aquela frase do Darcy Ribeiro: “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”.
BFC: pré-candidatura a deputada
Professora Angela: Sou pré-candidata a deputada estadual e aí vou falar porque: sempre procuro me colocar à disposição do partido para o que for melhor. Só que desta vez tenho uma coisa pessoal que tem muito a ver com o 29 de abril. Não só com o 29 de abril, mas com tantas outras vezes que eu fui impedida de entrar na Assembleia Legislativa. Foram inúmeras vezes na minha vida.
As primeiras greves que participei, as maiores lá no ano 2000, que (o governador) era o Jaime Lerner, a gente também ocupou a Assembleia, dormiu lá dentro, acampou na Praça Nossa Senhora de Salete (Centro Cívico). Foram inúmeras vezes que a gente foi impedido de entrar na Assembleia.
BookmarkE hoje eu estou pleiteando uma vaga proque quero entrar na assembleia pela porta da frente, para ocupar aquele lugar, para defender os trabalhadores e as trabalhadoras paranaenses. Tem esse componente pessoal. E também para levar a minha voz enquanto professora, lutadora lá para dentro. Para que as professoras, os professores, as servidoras, os servidores públicos se sintam representados. Para que não aconteça mais um 29 de abril.
