Em 2019, quando Fabíula Passini assumiu, ao lado do fundador do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz, a direção do maior evento de artes cênicas do Brasil, Jair Bolsonaro havia acabado de assumir a presidência da República, trazendo consigo um movimento político que definia artistas e qualquer um que trabalhasse com cultura como “mamadores da Lei Roaunet”.
No ano seguinte, poucos dias antes do início da 29ª edição, o festival teve que ser cancelado pela primeira vez por causa da pandemia da Covid-19.
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Essas “provas de fogo” foram enfrentadas por ela com a mesma determinação que a levou a deixar, em 2006, a pequena Xanxerê, cidade de 50 mil habitantes do interior de Santa Catarina situada à 500 quilômetros de Florianópolis, e se mudar para Curitiba já com o firme propósito de trabalhar no evento, mesmo sem conhecer absolutamente ninguém do meio teatral na Capital paranaense.
O que não a impediu de começar a atuar no festival como “apoio de bilheteria” em 2009 e chegar ao posto máximo de comando do mesmo apenas dez anos depois.
Para Fabíula, esse foi o grande aprendizado. Em 34 anos, com exceção do período mais agudo da pandemia, o festival sempre aconteceu, independente do ambiente político ou econômico do momento. E é isso que impulsiona as pessoas que o fazem acontecer a continuarem mesmo diante das incertezas, diz ela.
Isso não significa que não hajam temores. Pelo contrário. “Existe um desespero no ar com a troca de governo”, confessa. Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, Fabíula explica o motivo dessa insegurança, e ao mesmo tempo, porque tem a firme confiança de que ela será, de um jeito ou de outro, enfrentada e vencida.
Mesmo criticando o personalismo e a falta de continuidade das políticas culturais do País, que só agravam esse cenário de inconstância, Fabíula tem a convicção de que a resiliência que marca a construção do Festival de Teatro, e de toda a gente que continua a levar a frente o sonho da difusão da arte no País, prevalecerá no final.
BFC: o teatro como “luz”
Fabíula Passini: o teatro surgiu na minha vida muito como uma luz, porque na minha família ninguém tinha o hábito de ver teatro. Xanxerê, na época devia ter 40 mil habitantes. Não é uma cidade que habitualmente tinha teatro, mas existia esse grupo amador que se chamava Excelsior, que não existe mais infelizmente. A minha família também não sabia da existência desse grupo. Era tão uma bolha dentro de Xanxerê que ninguém sabia. E eu do nada, sem nunca ter assistido teatro na vida, sem nunca ter feito uma oficina, aos 11 anos cheguei para minha mãe e falei: “quero fazer teatro”. Não me pergunte o porquê. Mas foi uma luz que apareceu e falou: “Vai”. E a minha mãe rapidamente disse: “Então vamos lá na Casa da Cultura, vamos ver se tem aula de teatro para crianças”. Cheguei lá, no meu primeiro dia de aula, que para mim foi um apavoro porque eu era muito tímida. Não era uma criança extrovertida, que falava, que fazia. Mas eu quis fazer teatro. Na época tive um professor que é um grande amigo até hoje, Elírio Galelli. E o Elírio diz até hoje que quando ele me viu – tinha umas 50 crianças – ele falou: “Olha, essa aqui vai ser a única que não volta para as aulas”. Porque eu era muito tímida mesmo. Só que aquilo me encantou. A primeira aula, mesmo sem falar uma palavra, para mim foi um buraquinho assim, uma janela para a vida que se abriu assim. E aí o teatro nunca mais saiu da minha vida.
Meus pais sempre me apoiaram. Ainda bem, eu tive uma família que sempre viu o quanto eu era muito dedicada e o quanto aquilo fazia muita diferença para mim. Os meus pais, avós, tios, todo mundo sempre me apoiou muito. Quando chegou na hora de fazer faculdade: “Vai fazer o quê? Se ela quer fazer faculdade de teatro, quem que vai dizer que não?”. E aí eu descobri que em Curitiba existia o Festival de Teatro e também existia uma faculdade que era só de artes. E isso me encantou. Falei: “Então é isso que eu quero fazer”.
Já sabia da existência (do Festival de Curitiba). Tinha dois professores muito importantes, o Elírio Galelli e a Lecy da Silva, que foram pessoas que sempre estavam muito atentas à cena que estava acontecendo no Brasil. Tinha uma outra coisa que para mim era uma referência muito grande que era a revista Bravo. Era uma revista que chegava para um livreiro em Xanxerê e ele sempre comprava duas unidades, uma para o meu professor e uma para mim. Minha mãe assinava desde que eu tinha 11, 12 anos. A revista para mim foi uma referência. Dizia tudo o que acontecia no Brasil. E também porque Xanxerê tinha, tem ainda, um SESC, que é uma unidade pequena. Xanxerê não tem teatro, mas tem um salão de eventos. E o SESC, naquela época recebia o Palco Giratório. Por conta do SESC eu assisti muita coisa em Xanxerê. O Palco Giratório é um projeto sensacional do SESC com grandes nomes, grandes companhias. Conheci muita gente boa pelo SESC em Xanxerê e também sempre atualizada pela revista Bravo. E aí falei: “Eu quero morar em Curitiba para fazer faculdade de teatro e trabalhar nesse festival”.
BFC: o começo na bilheteria
Fabíula: Eu era apoio de bilheteria, função que a gente tinha na época porque não existia venda pela internet. As vendas eram só físicas. Então existia essa pessoa que ficava nas filas do shopping. Se formavam muitas filas e a gente precisava que andasse rápido. Minha função era fazer a pessoa escolher o que ela queria assistir na fila para chegar na hora do caixa e ser o mais rápido possível. E eu amava, porque passava o dia inteiro conversando sobre teatro com as pessoas. Eu fazia turno dobrado para ganhar um dinheirinho a mais. Quando cheguei em Curitiba eu não conhecia absolutamente ninguém deste mundo. Sempre queria muito trabalhar no festival desde que eu cheguei aqui. Mandava e-mail, ninguém me respondia. Eu ficava desesperada. Até que um dia surgiu essa vaga de apoio de bilheteria. Falei: “Gente, essa vaga é minha pelo amor de Deus, eu quero essa vaga”. Consegui a vaga e a partir disso trabalhei na bilheteria em 2009. |Me formei e em setembro eu entrei para a produtora (Parnaxx, que produz o festival). Na produtora tinha uma vaga de recepcionista, que é a Graça que trabalha com a gente até hoje. A Graça fez desde o primeiro festival. Ela queria dar um tempo e surgiu essa vaga. Eu falei: “Essa vaga é minha”, de recepcionista da empresa.
BFC: a atriz
Fabíula: Eu pensava em ser atriz. Só que durante a faculdade desisti. Acho que a universidade matou minha vontade de ser atriz. Eu não tinha também o entendimento do que era a universidade em relação às artes. Não fui feliz na universidade, essa é a verdade, como atriz. Talvez escolhi o curso errado, muito provavelmente. Mas me frustrei bastante. Só que dentro da universidade descobri a produção. Descobri que aquilo que eu fazia lá em Xanxerê, no grupo amador, também se chamava produção, só que eu nem sabia. Quando cheguei tinha uma coisa que achava um absurdo. Dentro de uma universidade de artes os cursos não se conversavam. Tem dança, cinema, artes visuais. E eu achava que “nossa, tudo deve acontecer junto, devem ter vários eventos que conversam”. Para minha surpresa isso nunca existia. Eu e mais alguns amigos falamos, já no primeiro ano: “Vamos fazer esse negócio mudar”. A gente criou uma mostra dentro da universidade de todos os cursos. Durante três anos. Aí eu falei: “Eu não quero voltar para Xanxerê, porque se eu desistisse da universidade meus pais iam falar: ‘Então volta'”. Então eu descobri na universidade que eu poderia ser produtora. Falei: “Então vou ser produtora”.
BFC: aprendizado
Fabíula: Tem uma coisa que eu acho que é muito importante em todas as funções, não interessa qual você vai fazer. Você ser curioso. Curioso é uma diferença na vida de qualquer pessoa em qualquer profissão. Eu sempre quis saber tudo o que se passava em qualquer lugar. Eu perguntava o tempo inteiro para as pessoas. Perguntava tudo. Sempre quis aprender tudo o que as pessoas quisessem me ensinar. Sempre estive disponível a isso. Quando entrei na produtora foi a mesma coisa. Entrei como recepcionista. “Vou ser a melhor recepcionista que existe no mundo”. Sozinha fui procurando saber como tudo acontecia. Acho que isso foi me guiando na minha profissão como um todo. Ser solícita, curiosa, estar preparada, pronta, disposta, disponível para saber como acontece, como se faz e sempre, obviamente, pensando em trabalho em equipe. Isso é uma coisa que o teatro amador me traz muito.
Porque no teatro amador todo mundo faz absolutamente tudo, diferente de muitas companhias profissionais. Você varre o chão, limpa o banheiro na mesma hora que você vai entrar em cena. Monta a luz, o palco, o cenário, e de repente você está na cena. Acabou a cena, você desmonta tudo, arruma, não sei o quê. Acho que o teatro amador me trouxe muito desta vida em equipe, de saber trabalhar com muitas pessoas ao mesmo tempo. É uma das vantagens que eu tenho enquanto profissional. Gosto de trabalhar com pessoas, de estar cercada de pessoas e eu acho que eu sei fazer a gestão das pessoas muito bem muito por conta do teatro amador. Desse mecanismo do “vamos lá, time, vamos lá, tá todo mundo pelo mesmo objetivo”..
BFC: a chegada na codireção do festival
Fabiula: (Assumi) na direção em 2019. Mas antes disso saí da recepção, comecei a produzir logo muito rápido. Acho que depois de uns quatro ou seis meses. Depois da produção, fui entender o que era produção executiva. Porque a produtora do festival é uma empresa muito antiga, tem 34 anos. Não existiam cargos setorizados. Todo mundo também meio que fazia a produção executiva, produção técnica. Fui entendendo o que eu gostava e, mais importante, o que não gostava. E o que eu não gostava fui deixando de lado e fui focando na produção executiva, que era o que eu gosto de fazer muito até hoje. Fui assumindo a direção de produção e fiquei um tempo na direção de produção. Aí o Leandro (Knopfholz, um dos fundadores do festival), em 2019, me convidou para assumir junto com ele a direção geral.
BFC: “mamadores da Rouanet”
Fabíula: estou há cinco anos, seis anos (na codireção). Uma fração muito pequena de todos esses anos desde que surgiu o festival. Mas conhecendo um pouco da história, o festival sempre foi muito resiliente. Independente do governo, do que estava acontecendo com a Lei Rouanet ou não, a gente sempre tentou fazer. E sempre conseguimos.
Acho que tem uma vantagem e um sentido de existir do festival. Ele precisa acontecer independente do momento político que se encontra. A gente precisa fazer com que ele aconteça. Ele é maior do que isso. É maior do que o tempo. Atravessa o tempo. A gente tem que dar um jeito. Os jeitos que foram se dando para fazer são sempre conversando com as pessoas de igual para igual, independente de qual é o partido delas. A gente precisa fazer com que o festival aconteça. A gente tem empresas importantes e grandes que nos patrocinam independente do governo e porque sempre entenderam a função da Lei Rouanet. Assim como tivemos empresas que, inclusive em algum período, deixaram de nos patrocinar. Mas a grande maioria sempre permaneceu porque também entende a importância do festival para a cidade, para os artistas, entende a construção da Lei Rouanet.”
Acho que existe uma parcela de pessoas que não quer entender mesmo (como funciona o financiamento da cultura). Não estão nem um pouco interessadas em saber. A desinformação para elas está tudo certo. Mas eu acho que poderia sim, existir um trabalho principalmente do Ministério da Cultura, em informar melhor. Acho que você expor a marca da Rouanet dentro de um material de divulgação é muito pouco perto do que a lei é. Conversar com a bolha da Lei Rouanet é muito fácil. A gente, quando aplica a marca Lei Rouanet, está falando com artista, com público de teatro. Como que essa marca chega para o grande público? Acho que o Ministério da Cultura poderia fazer um trabalho muito mais perto das empresas que não entendem a lei. Tem muita empresa que não quer nem saber. Mas tem muita empresa que, se conversasse… Poderiam existir encontros maiores do Ministério diretamente com as empresas, não só com os artistas. Com o artista está ganho. As companhias. A gente sabe a importância da lei. Agora, a gente tem que começar a conversar com quem não sabe. Esse poderia ser um caminho. Encontros do Ministério com grandes empresas. Sei que o Ministério tem esse desejo e eu não sei se isso está em prática. Não vi nenhum movimento nesse sentido nos últimos tempos. Formas pelas quais o Ministério pode falar com o grande público. Que se explique, não de uma forma intelectual, o que é a lei, mas de uma forma realmente de igual para igual. Não estou querendo falar com uma bolha, sabe, porque a bolha sabe o que é.
Acho que sempre as instruções normativas cada vez mais vêm com regras muito específicas dentro de um projeto. E isso é entendível. A gente está falando de dinheiro público. Precisam existir regras. Acho que o que a Lei Rouanet está conseguindo fazer, nos últimos tempos, que é muito legal, é descentralizar do Sudeste. Estão pensando em coisas super legais. Lei específica para o Norte, o Nordeste. Isso é fantástico. Esse é um papel do Ministério da Cultura mesmo fazer. Estou percebendo movimentos bem grandes e de companhias, eventos, festivais que nunca tinham sido patrocinados pela Lei Rouanet e que agora justamente por essa visão estão conseguindo. Acho que ela vem numa crescente muito legal. Mas óbvio, a gente que é produtora acaba sofrendo com algumas regras que a instrução normativa nos traz. Por exemplo: acessibilidade é uma coisa é super rigorosa na Lei Rouanet. A gente, no festival, tem cada vez mais acessibilidade. Mas a gente sabe o quanto custa uma acessibilidade dentro de um projeto Lei Rouanet. Será que esse é um papel só do produtor do evento se preocupar em fazer? Por que os espaços públicos todos não têm acessibilidade? Por que isso não sai um pouco da parcela do próprio Ministério? Por que só o produtor paga pelo preço que a lei impõe? Tem algumas regras que nos deixam mais travados, mas no geral, acho que ela está indo bem.
BFC: personalismo
Fabíula: esse é um problema das políticas públicas no Brasil nitidamente. A gente não sabe o que vai acontecer o ano que vem. E aí volta o festival tentar atravessar um tempo mesmo mudando tudo. A gente ficou muito tempo sem (o apoio) da prefeitura (de Curitiba), sabe-se lá Deus por que. Também não cabe aqui. E agora troca a gestão e a gente tem um apoio fantástico da prefeitura. E aí quando trocar de novo, começa uma relação do zero sempre.
Políticas públicas de continuidade são o que faltam no Brasil, com toda certeza. Existe já um desespero no ar de todos os artistas com essa troca de governo, do que que vai ser disso. As pessoas já falam nisso. A gente já está em março, ainda tem um tempo assim. O que que vai acontecer com a gente o ano que vem? Fica essa dúvida sempre porque não existem projetos de política pública longevos. Tudo pode mudar a qualquer momento.
BFC: momento mais difícil
Fabíula: Pandemia, sem sombra de dúvida. Existia um medo muito grande na pandemia do que seria a volta para o teatro. “Ah, as pessoas vão ficar muito imersas nas suas casas, na TV, o streaming vai ficar enorme, as pessoas não vão mais querer ver teatro”. Nós nunca sentimos esse medo. Isso foi muito legal. O festival foi o primeiro grande evento, um dos primeiros grandes eventos que voltou pós-pandemia. Lembro que no dia da nossa abertura. Foi quando o governo da época decretou que não precisava mais o uso da máscara, bem no dia da nossa abertura. E isso foi um marco muito grande. Tem pessoas que me falam até hoje: “Foi o primeiro evento que eu fui que eu não precisava usar máscara”. Teve um simbolismo tão grande isso. A gente tinha isso muito claro assim: a gente vai fazer com que as pessoas se sintam à vontade de novo, de estarem entre pessoas, de estarem em espaços fechados. De saber e continuar gostando da arte, do teatro. Que o encontro que isso proporciona é muito maior e a gente precisa voltar a viver. Óbvio, a gente teve o medo do que “meu Deus do céu, como é que a gente vai fazer o próximo?” sempre. O medo de como a gente vai fazer o próximo festival sempre existe. As coisas nunca estão certas. Como é que as empresas vão querer também voltar para o próximo ano? Teve um trabalho um pouco mais consistente, de fazer também as empresas entenderem que a gente precisava voltar. E a gente sempre levou isso muito forte assim: vamos voltar com tudo, porque acho que esse é um dos papéis do festival. É mostrar que a gente precisa voltar a viver e o teatro, as artes, a cultura. É uma forma disso se reconstruir. Tivemos bastante medo, é claro. Mas acho que uma das coisas que a gente aprendeu é: a gente precisa continuar.
É uma coisa impressionante. Os festivais no pós-pandemia. A gente começa o festival com quase tudo esgotado. E isso foi uma surpresa, foi muito legal. Muito. O primeiro festival, a gente concentrou coisas muito mais na rua justamente para que as pessoas não ficassem com esse receio tão grande de estar num lugar fechado. Mas também o que foi em teatro vendeu, esgotou muito rápido. E depois da pandemia, a gente abre a bilheteria e no mesmo dia, no primeiro dia muitas sessões esgotam. Isso mostra que o público realmente voltou com tudo também. O público não está só concentrado dentro da sua casa assistindo seu filme dentro de streaming
“Vamos ver” não dá para a gente. A gente tem que fazer. Eu já tenho uma peça fechada para 2027. E já pelo menos mais umas três engatilhadas. O “vamos ver” depois não dá. A gente precisa continuar. Acabou dia 12 de abril (último dia do festival em 2026), no dia 13 a gente faz todo o protocolo obviamente, de uma pós-produção que um eventão desse tamanho merece, necessita. E logo depois, como uma escola de samba, a gente já está pensando no próximo enredo, com certeza. E aí a gente vai trabalhar independente do que acontecer para o festival não parar.
BFC: “um País à altura da nossa festa”
Fabíula: está sempre em construção, com certeza. A curadoria, quando fala nesse sentido de festa, é também sentido de recomeço. Esse slogan da curadoria este ano traz muito isso. O teatro perdeu muitos artistas importantes no final do ano. A Teuda Bara que é do Galpão, Maurício Vogue que é de Curitiba, Titina Medeiros que é do Ceará, o Thierry, também da Companhia dos Atores. E independente do que aconteça, a gente precisa continuar e precisa fazer uma festa.
(O teatro ensina a) Viver em sociedade. E aí volta o grupo amador de teatro. A gente precisa estar junto. A gente precisa entender que viver em sociedade, em convívio, com respeito mútuo, pensando no outro, com cordialidade, sabendo das dificuldades de cada um. O teatro é uma arte coletiva em todos os seus aspectos. Desde o momento em que a pessoa sai de casa, compra o ingresso, até o momento em que ela entra no teatro, assiste e volta. Isso é uma arte coletiva. Como ela sai, estaciona o carro, é recebida no teatro. Como o artista que se preparou está ali para mostrar para ela, os atores em cena, o coletivo dos atores em cena, a cidade sendo um coletivo. A gente ocupa muitos espaços públicos. O teatro sim é uma arte coletiva e que precisa de vários agentes para que ele aconteça.
(O teatro tem) muito a contribuir. Porque, justamente, o teatro, se não é coletivo não acontece. Ele precisa estar em conjunto com muita gente. A gente precisa inclusive do pipoqueiro que fica na frente do Guaíra, dos teatros. Eu gostaria que todo mundo na vida pudesse fazer uma aula de teatro uma vez na vida. Não para ser ator, mas para aprender a estar em coletivo.
BFC: como participar
Fabíula: o festival tem uma coisa que é muito legal: tem várias modalidades de apresentação. Tem a Mostra Lucia Camargo. O Fringe, em que a inscrição é livre e sem curadoria. Existe o Risorama e o MishMash. É ficar atento a esses prazos de inscrição e se jogar. Deixa eu ver o que está acontecendo aqui com a minha peça, eu quero experimentar. Todos os festivais, na verdade, servem muito para isso: para você experimentar o público. Para você ver se está dando certo. Então não tenha medo, se inscreva e faz acontecer.
BFC: imprensa cultural
Fabíula: sem a imprensa a gente não chega em lugar nenhum. A imprensa é um dos pilares desse coletivo que faz o festival acontecer. Que existam mais Bravos por aí, mais jornalistas independentes por todo o Brasil e pelo mundo para que ajudem a gente a divulgar isso. É essencial. E a gente tem visto que cada vez tem menos. Existem grandes jornais que perderam seus editoriais de cultura. O Miguel Arcanjo – que é um jornalista de São Paulo – fala: “o Festival de Curitiba tem a maior sala de imprensa do Brasil”.
