Nascido em Curvelo, cidade da região Central de Minas Gerais, a 170 quilômetros de Belo Horizonte, Douglas Veríssimo (PV), começou a se interessar por política quando integrava a Guarda-mirim do município. Filho de família humilde, pai pintor automotivo e mãe auxiliar de serviços gerais, Douglas aproveitou as oportunidades que a vida lhe trouxe para ascender socialmente, conciliando o trabalho como aprendiz com as atividades escolares.
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Em 2008, Douglas foi convidado a participar da campanha de um candidato a vice-prefeito, que acabou vitoriosa e lhe conferiu a chance de trabalhar na administração municipal. Seu primeiro partido foi o PTB. O segundo, em 2016, ano de sua primeira candidatura a vereador foi o PL, legenda que, no início dos anos 2000, tinha o empresário José de Alencar como vice-presidente da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva no governo federal. Já vereador eleito, em 2020 ele deixou o partido após a entrada do então presidente Jair Bolsonaro na sigla, por absoluta incompatibilidade ideológica.
Hoje no segundo mandato na Câmara Municipal, Douglas é pré-candidato a deputado estadual por MG. Como tal, defende que o campo progressista se concentre em questões práticas que envolvem o dia a dia do trabalhador, como o fim da escala 6 X 1. Ele também acredita que é preciso ser pragmático na relação com o Congresso, evitando conflitos desnecessários e priorizando a busca por pautas que interessem a maioria da população.
Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, Douglas Veríssimo também fala sobre os desafios e perspectivas da esquerda em Minas Gerais nas eleições deste ano, principalmente para por um fim à hegemonia da direita no estado.
BFC: o começo na política
Douglas Veríssimo: minha família toda, todo mundo é nascido e criado aqui na cidade de Curvelo. Meu pai é pintor automotivo e minha mãe era auxiliar de serviços gerais no fórum em Curvelo na função de copeira.
Eu tive oportunidades que poucas pessoas tiveram de participar de programas de aprendizagem através de instituições sérias como a Associação Profissionalizante do Menor de Belo Horizonte, a ASPROM; o Centro Integração Empresa-Escola, que é uma empresa de Montes Claros; e da Associação Mantenedora da Guarda Mirim de Curvelo. São associações e entidades que fomentam o programa de aprendizagem dentro do que já existe na norma legal. A norma já permite o programa de aprendizagem a partir dos 14 anos, conciliando a escola.
Foi inclusive em um desses programas de aprendizagem (que surgiu o interesse em política). Eu fazia parte da Guarda-mirim em Curvelo. E sempre tivemos um nicho muito politizado. Os meus colegas sempre gostaram de discutir política. Foi a partir daquele momento, inclusive, que nós fundamos uma agremiação de jovens pra discutir as questões políticas locais, o cenário como se desenhava. Foi dentro da guarda-mirim que surgiu esse interesse de se inteirar melhor sobre a participação política, cidadania, sobre como funciona o sistema eleitoral e por aí vai. 13, 14 anos.
Quando eu tinha 17, 18 anos, fui convidado para participar de uma campanha política aqui na minha cidade. Eu tinha uma proximidade com o candidato a vice-prefeito à época, e ele me convidou para participar. Em 2008. E foi uma campanha vitoriosa. Você participa desse movimento, tem esse êxito e isso realmente desperta ainda mais o interesse. E eu fui convidado posteriormente para trabalhar na prefeitura. Fui coordenador do aeroporto municipal que hoje recebe voos de pequeno e médio porte.
A minha primeira filiação foi no PTB. À época, era um partido que não tinha o viés que tem hoje. Nós fundamos o PTB Jovem aqui na cidade. Eu sempre tive uma visão muito berta dessas questões políticas, até a gente se inteirar melhor dos assuntos. Fui eleito em 2020, por incrível que pareça, no primeiro mandato, pelo PL. Que era o PL de José Alencar (ex-vice-presidente da República eleito na chapa de Lula em 2002 e reeleito em 2006). Quando o Bolsonaro veio pro partido eu tive que entrar na Justiça pra poder me desfiliar porque a não havia compatibilidade ideológica com o mais novo filiado. Consegui o direito de desfiliar sem perder o mandato, até chegar no PV, que é onde estou hoje.
BFC: a primeira eleição
Douglas: minha primeira eleição foi em 2016. Fiquei como primeiro suplente. Obtive, na época, 470 votos aqui na minha cidade, que é uma quantidade significativa. Em 2020, quando fui eleito pro primeiro mandato, foi uma campanha feita na unha, sem recursos. Com recurso próprio, sem apoio, trabalhando de casa em casa, conversando com as pessoas. Campanha de base mesmo, conversando com as entidades, associações comunitárias, com a ajuda dos amigos e com a rede social pra difundir o trabalho.
Eu tracei um projeto com 22 metas para a nossa cidade, que iam desde justiça tributária, a questão da coleta seletiva, da participação popular através de um programa que eu chamei de ‘Cidadão Legislador’. Era trazer a população para dentro da Câmara, para participar dos espaços, dos debates. Sou o vereador que mais convoca audiência pública. Realmente trago essa abertura para a população. Posteriormente, conseguimos cumprir mais de 90% dessas metas, praticamente todas. Cobramos a instalação do Conselho de Contribuintes como última esfera de participação, julgamento de recursos, uma junta formada por pessoas da comunidade, com paridade entre a sociedade civil e o poder público.
Conseguimos trazer alguns avanços importantes e significativos. Destaco uma da que eu considero das grandes que foi criar o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar na Câmara Municipal e também o próprio Código de Ética. A Câmara de Curvelo, com quase 200 anos de existência, não tinha um Código de Ética. Nós tínhamos, durante os últimos anos, cenas deprimentes de achaque, brigas e de quebra de decoro sem nenhum tipo de punição. Com a criação do Conselho de Ética e do Código de Ética, tivemos uma redução para quase zero desse tipo de problema. Porque os parlamentares começaram a observar que existem regras que precisam ser observadas. Existem condutas que são vedadas e consequências caso essas condutas extrapolem o decoro.
BFC: perspectivas do campo progressista na eleição de MG
Douglas: hoje a Marília Campos, que é ex-prefeita de Contagem, lidera as pesquisas de intenção de voto para o Senado. Que é do PT, vai contar com o meu apoio. E eu torço muito também para a Áurea Carolina, do PSOL, foi deputada federal, vereadora em Belo Horizonte. A Marília lidera seguida por Aécio Neves (PSDB). Posteriormente, o atual senador, que é o Carlos Viana (PSD). A questão do palanque do governo Lula, vi uma entrevista, inclusive, do deputado estadual Cristiano Silveira (PT-MG), que falou: “Olha, o Lula não tem palanque em Minas, o Lula se faz por si só”. Eu não vejo desta maneira. Eu acho que é preciso, sim.
Minas é um estado importante, estratégico eleitoralmente. O Lula lidera a as intenções de voto em Minas, mas é preciso que o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) se posicione se será ou não candidato (ao governo de MG). Existem outras vias, por exemplo, o (ex-prefeito de Belo Horizonte) Alexandre Kalil, do PDT. Eu vi matéria que o Alexandre Kalil seria o plano B do do do governo. Mas eu que o senador Rodrigo Pacheco precisa se definir, até pra que possa haver uma articulação de uma candidatura viável ao governo de Minas. Nós não podemos ficar mais reféns dessa turma que está no governo, do Romeu Zema, do Mateus Simões (vice de Zema que assumiu o governo de MG) e dessa turma que só pensa nos interesses deles, seus aliados e asseclas.
Acredito que o grande problema nosso hoje é que o absurdo acaba se concretizando das pessoas gostarem muito mais do policial mau do que do moderado. Quando ele (Zema) vem com essas barbáries, dizendo: “Olha, eu… nós temos que colocar criança para trabalhar, privatizar tudo, inclusive o Banco do Brasil, que é o principal financiador do agro,temos que fazer isso e aquilo”. A minha preocupação é que as pessoas acabem tendo uma proximidade muito maior com o policial ruim do que com o bonzinho. Porque o nosso retrospecto nos últimos anos é de que esses absurdos acabam projetando essas pessoas pra um local de destaque. Acredito que pode ser que esse discurso que ele vem colocando. Ao contrário do que muita gente pensa de que ele tá fazendo o papel do radical pro Flávio parecer moderado, isso pode ser um tiro pela culatra até pro próprio Flávio. De ver perder espaço nesse discurso radicalizado, que é o discurso que elegeu o pai do Flávio.
BFC: economia e social
Douglas: na minha percepção, acho que (a esquerda precisa) é voltar às pautas prioritárias. Por exemplo, o presidente Lula mandou muito bem quando encaminha o projeto que acaba com a escala 6×1. Então é preciso abraçar as pautas que realmente sejam da esquerda. Que realmente tragam benefícios diretos pra população. O Desenrola 2. É preciso botar essas questões para funcionar efetivamente na vida das pessoas. Por exemplo, a questão da isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000. As pessoas em regra não sentiram esse benefício diretamente no bolso. É preciso fazer com que elas sintam os benefícios diretamente no supermercado, no seu bolso, na vida como um todo.
A mídia do governo melhorou muito, na minha visão, mas tem que melhorar mais. Por exemplo: quais seriam hoje as dores do povo brasileiro? Se a gente pegar as pesquisas, nós temos a questão da segurança pública, que é um gargalo. O governo anda muito bem agora aprovando a questão do aumento de pena para os crimes digitais. Você sofria um crime de estelionato, tinha que representar à autoridade policial para que aquele crime fosse processado. E ele deixou de ser dessa forma. Hoje, ao tomar o conhecimento do crime, a autoridade policial tem a obrigação de investigar aquele crime. É preciso explicar isso para as pessoas.
As pesquisas mostram hoje que a população conheceu o Supremo Tribunal Federal. É preciso ter clareza sobre o que o Supremo está fazendo. É uma pauta delicada, mas a população hoje vê no Supremo um fantasma.O governo precisa, de certa forma, desmistificar essa questão, obviamente mantendo a independência e a harmonia entre os poderes.
BFC: dificuldades no Congresso
Douglas: tenho uma visão um pouco mais pragmática, inclusive em um ano eleitoral tão sensível como o nosso. A informação que temos da mídia é de que o Lula mandou: “Olha, vamos reaproximar lá do presidente do Congresso (Davi Alcolumbre). A Inês é morta”. Existem batalhas que a gente tem que deixar para outro dia. Acho que não é hora de criar esse enfrentamento. É hora de recompor, realimentar a base no Congresso. Trazer pautas que realmente sejam de interesse nacional, da população.
Por exemplo, é preciso colocar em voga a escala 6×1 e mostrar porque ela tem aprovação de 71% a 74% da população brasileira. Quem votar contra a escala está dando um tiro no pé. É preciso colocar pautas propositivas, uma agenda positiva no Congresso. Colocar notícias positivas na mídia. Esse atrito com o presidente do Congresso, na minha percepção, deve ser deixado para outro dia. Vamos fazer essa conversa em outro momento. Tenho muitos colegas, inclusive do campo progressista, que defendem esse enfrentamento. Acredito que não é este o momento. A minha visão é hora de reorganizar a base no Congresso e buscar realmente pautas positivas para o governo: a escala 6×1, o Desenrola.
O Brasil tem tido um desenvolvimento na economia que poucos esperavam, principalmente os pessimistas. Acho que é importante, além de trabalhar, continuar trazendo as manchetes positivas na economia. Infelizmente, o Jorge Messias, que é um jurista fantástico, tem um saber jurídico comprovado e que teria todas as condições, reúne todas as condições e requisitos para ocupar uma cadeira de ministro do Supremo. Mas não aconteceu. Não vamos ficar nesse momento tratando disso. Vamos avançar. Precisamos conversar com o presidente da Câmara (Hugo Motta), com o presidente do Senado. O Lula na minha percepção tá muito correto ao dizer o seguinte: “Olha, bola para a frente, vira a página que nós temos eleição para ganhar”.
BFC: pré-candidatura a deputado estadual
Douglas: sou pré-candidato a deputado estadual pelo Partido Verde em Minas Gerais. Temos organizado desde o do final do ano passado essa pré-campanha, pré-candidatura, conversando com as pessoas no intuito de representar a região centro-norte de Minas. Que é uma região que padece de uma representação parlamentar como um todo no campo progressista. Essa ideia vem sendo cultivada já há algum tempo, e recentemente tomou corpo, forma. Nós recebemos um convite do presidente do Partido Verde (de MG), Osvander Valadão. E topamos esse desafio com algumas pautas interessantes. A principal seria conter o avanço dessa turma no estado.
Temos hoje um bloco parlamentar em Minas Gerais formado, se não me engano, por 19 parlamentares que representa o campo progressista. E que faz frente a esses desmandos que ocorreram nos últimos anos. Nós precisamos ampliar esse bloco. Num universo de 77 deputados é um bloco relativamente pequeno, embora de uma qualidade gigantesca. Precisamos realmente ampliar e fortalecer a quantidade de parlamentares do campo progressista em Minas Gerais justamente para fazer frente a esses retrocessos: a questão das isenções fiscais dadas aos amigos, todas sob sigilo.
BookmarkMinas Gerais é um estado que hoje não tem poder de investimento. O governo quer vender hoje a Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), que é uma das principais empresas do estado, superavitária. Quer entregar a preço de banana para o mercado. Nós precisamos fazer frente a essa privataria que está sendo desenhada por parte dessa turma do governador Romeu Zema e do Mateus Simões. Eles acabaram com o referendo popular que foi inserido na Constituição Estadual de Minas Gerais por Itamar Franco para que todo o patrimônio de Minas Gerais fosse objeto de um referendo, plebiscito. Para que a população decidisse se aquele bem deveria ser ou não objeto de privatização, de cessão ao setor privado. Em uma manobra que eu considero, inclusive, muito macabra, e que hoje já está sendo discutida no Supremo Tribunal Federal através de uma ação do PT e do PSOL. Está sendo discutido o fim desse referendo popular.
