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Democracia exige voto, mas também alteridade

Foto: Reprodução

Todo bolsonarista é gado e todo petista é corrupto? Ou toda generalização é tola?

Essas duas frases sobre campos políticos têm circulado com força em grupos de WhatsApp, Telegram, redes sociais e rodas de conversa sobre política. Elas aparecem como verdades absolutas, como sentenças morais. E talvez seja exatamente aí que more o problema.

Vivemos um tempo em que a complexidade foi substituída por rótulos. Quando isso acontece, o debate deixa de ser político e passa a ser moral — e, pior, barbárie e um “Fla-Flu”, não civilizatório. Não se discutem mais ideias; disputam-se identidades. Quem discorda vira inimigo.

O Brasil vive hoje uma polarização intensa, estruturada principalmente em torno de dois grandes campos políticos: o bolsonarismo e o petismo (ou lulismo). Essa divisão não é apenas uma percepção subjetiva — ela aparece de forma clara nos dados.

Pesquisas nacionais do Datafolha indicam que cerca de três em cada quatro brasileiros se identificam com um desses dois polos. Aproximadamente 40% da população declara simpatia pelo campo petista ou lulista, enquanto algo entre 30% e 35% se identifica com o bolsonarismo. O restante se distribui entre pessoas que não se reconhecem em nenhum dos dois lados, eleitores mais fluidos ou cidadãos que rejeitam a lógica da polarização.

Levantamentos do IPEC reforçam que essa divisão vai além do voto. Ela é também emocional, simbólica e afetiva. Há altas taxas de rejeição entre os campos, mas os próprios dados revelam algo frequentemente ignorado no debate público: existem zonas de ambiguidade, contradição e diálogo possível. Há eleitores que votam em um campo e reconhecem méritos no outro. A sociedade real é mais complexa do que a narrativa do “nós contra eles”.

Esse dado é fundamental para pensar o futuro próximo. Tudo indica que as eleições de 2026 não serão decididas por uma diferença confortável ou por margens amplas. Não se trata mais de vencer com folga ou impor uma maioria esmagadora. O cenário aponta para disputas apertadas, com diferenças pequenas, o que exigirá — no dia seguinte à eleição — capacidade real de diálogo com todos os setores da sociedade. Governar um país dividido por poucos pontos percentuais não é possível sem escuta, negociação e responsabilidade democrática.

Participo de grupos de discussão de esquerda e de grupos mistos. Leio jornais, acompanho blogs, assisto a podcasts dos dois campos e também do centro. Não tenho medo do embate de ideias. O que me preocupa não é a divergência, mas a preguiça intelectual disfarçada de convicção.

Não acho que todo bolsonarista seja “gado”. Conheço pessoas próximas, inteligentes, éticas e bem informadas que apoiaram o ex-presidente Jair Bolsonaro por razões econômicas, por identificação com seu discurso ou por discordarem de políticas sociais anteriores. Elas têm esse direito.

Da mesma forma, é falso e injusto afirmar que todo petista é corrupto. Tenho a maioria de amigos e conheço também políticos que apoiam o presidente Lula, todas pessoas íntegras, transparentes, que jamais se apropriaram de recursos públicos, que defendem compliance, integridade e ética. Reduzi-las a um estereótipo criminoso é não apenas injusto, mas intelectualmente desonesto.

A política não funciona em binários. Entre o 8 e o 80, não existem apenas dois pontos extremos. Existem 72 possibilidades. A maturidade democrática está justamente em percorrer esse caminho, afinando posições, revisando convicções e não seguir uma linha dogmática, mítica, irracional e extremada, ajustando escolhas a partir de um senso crítico, racional — e, se possível, filosófico.

Não me identifico integralmente com nenhum desses dois campos. Ainda assim, em um segundo turno, faço uma escolha política consciente, guiada por valores democráticos, institucionais e sociais. Voto em quem se preocupa com educação, saúde, cultura, dignidade humana, se baseia na ciência e defende a soberania para tomar decisões. Isso não me autoriza — nem a ninguém — a desumanizar quem pensa diferente. Votar é um ato político. Romper laços, não. A democracia perde sentido quando a divergência se transforma em ódio.

É nesse ponto que dois valores se tornam centrais e urgentes no debate público brasileiro: alteridade e empatia.

Alteridade é reconhecer o outro como legítimo, mesmo quando discordamos profundamente. Empatia é compreender que, por trás de posições políticas, há histórias, medos, expectativas e experiências concretas de vida — inclusive entre parentes, amigos e pessoas que amamos.

Sem alteridade, a política vira guerra permanente. Sem empatia, ela invade lares, rompe amizades e adoece relações. Nenhuma democracia se sustenta assim.

Filosoficamente, isso não é novidade. Aristóteles já alertava que a virtude política não está nos extremos, mas no justo meio — não como neutralidade passiva, mas como prudência (phronesis), a capacidade de julgar bem diante de situações concretas.

Jürgen Habermas reforça essa visão ao afirmar que a democracia depende de uma esfera pública baseada no diálogo racional, onde argumentos valem mais do que gritos e razões mais do que pertencimentos identitários. Quando a comunicação vira ataque e desqualificação, o espaço democrático se rompe.

John Stuart Mill lembrava que até ideias equivocadas têm valor quando debatidas abertamente, porque ajudam a fortalecer a verdade. Silenciar, ridicularizar ou demonizar o outro empobrece a todos.

A política não se resolve com rótulos. Ela se constrói com senso crítico, checagem de fatos, escuta e diálogo. Diante de uma fake news, o caminho não é compartilhar, mas conferir. Buscar fontes. Ouvir quem pensa diferente. Formar opinião dá trabalho — e esse trabalho fortalece a democracia.

Eleição não é guerra. Não é maioria esmagando minoria. Não é destruição simbólica do outro. É escolha. No dia da votação, cada um decide conforme sua consciência, seus valores e sua leitura do país. E tudo bem.

Democracia exige voto, sim. Mas exige também autoridade moral para discordar sem agredir, firmeza para defender convicções sem anular o outro e maturidade para compreender que o pluralismo não é uma ameaça — é a própria essência da vida democrática.

Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja apenas escolher um lado na urna, mas garantir que, independentemente do resultado, continuemos capazes de viver juntos no dia seguinte.

O Brasil continua precisando de nós muito além da eleição.

Toni Reis
Doutor em Educação
Diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+
e da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas

Toni Reis

Ativista LGBTI+, cofundador da ABGLT e do Grupo Dignidade. Diretor da Aliança Nacional LGBTI+, professor e autor premiado em direitos humanos.

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