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Verdades acerca do vinho

Foto: Bia Braz

Se tudo começa no vinhedo, intriga-me como Luca Fumagalli, Eduardo Strechar e André Marchiori, da Cata Terroirs, começaram a produzir vinhos sem nenhum pedaço de terra. Mais do que isso: como fazem vinhos tão bons que logo foram parar em cartas de prestígio em restaurantes como o D.O.M, de Alex Atala. Não é uma tarefa fácil.

​Tento ser uma consumidora consciente, gosto de me aprofundar no assunto e conto em capítulos. Quero saber de onde vem o que vou consumir e valorizar quem cultiva. Estaria errada? Não, eu mesmo respondo. Se o vinho é alimento, a preocupação em saber o que bebo é natural.  Não dou conta da complexidade. Perco o sono. Quero, um dia, acompanhar o processo. Alguém há de me convidar.

Pedir sempre o mesmo vinho é um hábito que não sigo. Desvio do caminho mais fácil. Degustar é a saída. Aprendi com o Movimento Slow Food que as experiências educativas alargam a consciência.

Foto: Bia Braz

Cata Terroirs

A “Cata” vem de Catarina, origem da produtora de vinhos nascida em 2018 (o lançamento da marca foi em 2019). A intenção, desde o começo, foi trabalhar com pequenos viticultores, inspirando-se em modelos do Chile e dos Estados Unidos. Sem vinhedos próprios, eles acompanham a produção com quem compartilham afinidades, seja no Brasil, ou no exterior. Eduardo Strechar, o enólogo, faz um trabalho como o de um chef dedicado: busca as melhores matérias-primas e acompanha de perto o processo todo, da brotação à colheita. O que começou com cerca de três mil garrafas hoje chega a 25 mil. Foram devagarinho conquistando uma rede de admiradores e encontraram um nicho de mercado. Hoje, estão no portfólio rótulos produzidos com uvas de vinhedos em Videira e Urubici (SC), Vacaria e Faria Lemos (RS) e no Valle de Itata, no Sul do Chile.

Ainda impactada com o susto que levei ao descobrir que são permitidos mais de 50 grupos de aditivos, conforme o país, de açúcar até produtos animais, como albumina e lisozima (ovo), caseína (leite) e tripsina (extraída do pâncreas do porco) e leveduras comerciais para promover a fermentação, entre outros. Mais uma preocupação para a minha lista? Pressionada pelos prazos, não consegui falar com Strechar. Mas voltarei ao assunto, prometo. Dê olho no relógio e movida pela vontade de “não esgotar a fonte de uma história”, sigo com o que já colhi.

Falei com Luca Fumagalli que é um entusiasta do equilíbrio. Diz que é preciso cuidado com extremos e verdades absolutas, que podem distorcer a realidade. É preciso pé no chão, ou na terra, eu diria. Afirma, confiante, que existem vinhos naturais extraordinários e também exemplares malfeitos e instáveis. “Assim como existem os tecnicamente impecáveis, há os excessivamente manipulados e sem identidade”. Lembra ainda que uma fermentação sem controle pode gerar compostos indesejados; o excesso de intervenção, por sua vez, pode apagar completamente a expressão do lugar. Quem sou eu para discordar.

A Cata nasce de uma filosofia, arrisco dizer. Nasce da vontade de acompanhar o trabalho no campo, pagar um valor justo pela uva e construir uma relação com o produtor. E eles estão indo longe: tem um rosé em desenvolvimento na Toscana.

Degustação

Em fevereiro, durante uma degustação conduzida por Fumagalli, no restaurante Antonina, em Curitiba, provei rótulos novos. Os vinhos degustados reforçaram a busca da marca por bebidas equilibradas. Me atrai a ideia de serem “curadores de territórios, pessoas e possibilidades”.

O Viognier com Chardonnay (linha inox) da prova é um branco leve e estruturado, com camadas de aromas, de beber fácil. O Gran Cata Alvarinho, vem de um vinhedo antigo, as uvas têm mais tempo de exposição ao sol,  o vinho apresenta acidez, frescor e textura. Notas de fruta branca e mel. Gosto muito. Foi premiado como o Melhor Vinho Branco do Brasil, pelo MW Tim Atkin. Faz sucesso desde 2021.

O Cabernet Sauvignon servido também agradou. A fruta se sobrepõe à madeira, enquanto o Syrah com Viognier é aveludado e gastronômico, é da linha barrica. Aliás, faz tempo que sei que o vinho deve ser companhia da comida. Uma proposta de tinto fresco e leve, com bastante camadas e complexidade.

Evitar o excesso de madeira é uma das prioridades da Cata, buscam (e conseguem) vinhos gastronômicos, com o protagonismo da fruta.

Durante a degustação foi comentado sobre o custo da uva, o peso do dólar sobre garrafas e barricas. Pode ser mais caro do que importar, mas compensa o estabelecimento da relação com quem planta, quem colhe e quem prova. Concordo.

Fazer um vinho “envolve um conjunto de decisões: técnicas, éticas e sensíveis”. Confiar no vinho é confiar em quem o faz. Para Paul Pontallier, responsável por produzir o Château Margaux por mais de 30 anos, fazer vinho “é como educar filhos, a mesma receita não serve para todos”. É filosofia. Sigo aprendendo.

Mais detalhes

Para quem quer descomplicar o tema, a lendária Jancis Robinson, a mais reverenciada jornalista especializada em vinhos, que escreve há 50 anos sobre o tema, dá três dicas. Primeiro: cuidar da temperatura. Brancos gelados escondem os aromas, “deixam água e álcool”. Tintos muito quentes também ficam aguados, “perdem a vivacidade e o frescor”. Surpresa: brancos e tintos devem ser servidos em temperaturas similares. Imagine todo o trabalho que começa na terra ser prejudicado assim.

Segundo: o tempo. “Apenas 10% aguentam muitos anos de guarda. A maioria é produzida para ser consumida logo após a compra”. Não é unanimidade, claro. Especialistas dizem que é um discurso da indústria. Terceiro: a taça. Deve ser transparente (óbvio), sem detalhes, com haste longa para segurar sem afetar a temperatura e basta apenas de um tipo, a universal. Recentemente, descobri as taças da Tanino (já falei delas) e comemorei a excelente qualidade, a ausência de chumbo e o preço menos proibitivo do que o das importadas. Vêm também de Santa Catarina. Sigo confiando em quem conheço. A Cata, eu conheço e quero conhecer mais.

Algumas coisas se explicam, outras escapam, sei que produzir um vinho é uma tentativa de entender a terra e o tempo.

“Nada acontece duas vezes / nem vai acontecer”. Wislawa Szymborska ajuda a resumir a noite (inesquecível) da prova de vinhos da Cata Terroirs.

Fica a lembrança de querer mais.

Jussara Voss

Jornalista, escritora e agitadora cultural. Ativista da gastronomia social, defendendo comida de qualidade e acessível para todas as pessoas.

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