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O algoritmo está moldando nossas opiniões?

Foto: Reprodução

Há uma pergunta que os algoritmos preferem que você não faça: quem, afinal, escolheu o que você está pensando agora? No ecossistema das redes sociais, a resposta pode ser desconfortável. Grande parte do que vemos, consumimos e compartilhamos não foi selecionada por nós, mas por sistemas matemáticos projetados para maximizar a atenção. O objetivo é manter nossos olhos na tela o maior tempo possível, e o efeito colateral é influenciar a forma como percebemos o mundo.

Se estivesse vivo hoje, Friedrich Nietzsche provavelmente reconheceria nesse cenário uma versão tecnológica daquilo que chamou de Herdenmoral, a moral de rebanho. Para o filósofo alemão, os indivíduos frequentemente abrem mão do pensamento autônomo em troca da segurança oferecida pelo consenso coletivo. O que ele não poderia prever é que, no século XXI, esse rebanho seria conduzido por algoritmos invisíveis.

Um estudo publicado em 2025 na revista Science, conduzido por pesquisadores das universidades de Stanford, Washington e Northeastern, trouxe evidências concretas sobre o tema. Mais de 1.200 usuários tiveram seus feeds do X (antigo Twitter) modificados durante as semanas que antecederam as eleições presidenciais americanas de 2024. Enquanto um grupo continuou recebendo o fluxo tradicional de conteúdo, outro passou a visualizar menos publicações polarizadoras. O resultado mostrou que os participantes expostos a menos conteúdo hostil demonstraram melhora significativa na percepção sobre o partido adversário. Em outras palavras, pequenas mudanças na organização do feed produziram efeitos que, em condições normais, levariam anos para ocorrer. A conclusão foi que os algoritmos não apenas refletem opiniões existentes; eles ajudam a construí-las.

Desde que o ativista Eli Pariser popularizou o conceito de “bolha de filtros”, em 2011, a ideia passou a fazer parte do vocabulário público, mas a familiaridade com o termo talvez tenha reduzido a percepção de sua gravidade. As chamadas “câmaras de eco” (fenômeno em que só ouvimos os que pensam como nós) não são apenas resultado da nossa tendência natural de buscar confirmação para crenças prévias, elas são reforçadas por arquiteturas digitais desenhadas para premiar aquilo que gera mais engajamento. E engajamento costuma significar indignação, medo, conflito e choque.

Nietzsche enxergava com desconfiança tudo aquilo que anestesiava o pensamento crítico em favor do conforto coletivo. O ambiente digital elevou esse mecanismo a uma escala inédita. Se antes o rebanho era limitado pela geografia e pelas relações locais, hoje ele é global, permanente e otimizado por inteligência artificial. O conformismo não precisa mais de uma praça pública, basta um feed.

Essa transformação se torna ainda mais evidente quando observamos a geração Z, formada por pessoas que nasceram entre meados dos anos 1990 e o início dos anos 2010. Frequentemente celebrada por seu ativismo, fluidez digital e capacidade de mobilização, essa geração também é a primeira a ter crescido inteiramente dentro de ambientes mediados por algoritmos. A diferença em relação aos millennials é significativa. Quem nasceu entre 1981 e 1996 viveu uma infância sem redes sociais, desenvolveu referências fora dos algoritmos e acompanhou a transformação digital já com parte da identidade formada. A geração Z não teve esse contraste, para ela, o feed sempre existiu, o algoritmo sempre esteve presente. Enquanto muitos millennials utilizam as redes como ferramenta, parte da geração Z passou a ser moldada por elas.

Essa influência se reflete inclusive na forma de buscar informação. Dados do NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR) indicam que jovens recorrem cada vez mais ao TikTok para pesquisar temas diversos, substituindo mecanismos tradicionais de busca, como o Google. O problema é que estudos da NewsGuard apontam índices relevantes de desinformação na plataforma. Nesse ambiente, a autoridade frequentemente deixa de ser construída por conhecimento ou evidências e passa a depender de popularidade, alcance e validação coletiva.

Nietzsche talvez identificasse aí uma inversão de valores: a popularidade substituindo a verdade e o engajamento ocupando o lugar do argumento.

Há ainda uma ironia adicional. A geração mais conectada politicamente pode ser também a mais suscetível à mediação algorítmica de suas convicções. O chamado ativismo estético – caracterizado por vídeos curtos, slogans e símbolos facilmente compartilháveis – vem remodelando a forma como muitos jovens se relacionam com a política. Nesse modelo, ideias complexas competem com conteúdos de poucos segundos. O debate cede espaço à performance e a reflexão perde terreno para a viralização. A política deixa de ser discutida e passa a ser consumida.

No Brasil, as eleições recentes mostraram como movimentos políticos podem crescer rapidamente dentro de ecossistemas digitais antes mesmo de serem plenamente captados por instrumentos tradicionais de análise. Plataformas digitais amplificam conteúdos que despertam emoções intensas, especialmente indignação e ressentimento, porque são justamente essas emoções que geram mais compartilhamentos e permanência na tela. A exemplo disso, posso citar Pablo Marçal, que na campanha à prefeitura de São Paulo figurava com 8% nas pesquisas Datafolha em junho e em outubro terminou o primeiro turno com 28%.

O algoritmo não cria sentimentos humanos, mas aprende rapidamente quais deles são mais lucrativos. Por isso, a principal conclusão do estudo de Stanford talvez seja também a mais desconfortável: a polarização não é inevitável. Os pesquisadores demonstraram que ajustes relativamente simples na distribuição de conteúdo podem reduzir hostilidades e aumentar a confiança entre grupos com visões divergentes. Mas o obstáculo não parece ser técnico, e sim econômico. Plataformas baseadas na economia da atenção possuem fortes incentivos para promover conteúdos que gerem reações emocionais intensas. E poucas emoções são tão eficientes para capturar atenção quanto a raiva.

Pesquisadores da The Conversation Brasil, em parceria com a FAPESP, defendem que o pior caminho é o isolamento em bolhas ideológicas. A observação é correta, mas talvez insuficiente. Afinal, a questão central não é apenas porque permanecemos nas bolhas, mas quem as construiu ao nosso redor. Nietzsche

defendia que o pensamento autônomo exigia coragem para enfrentar o desconforto da divergência. Exigia disposição para ouvir o contraditório e questionar certezas. Hoje, porém, boa parte desse desconforto é removida antes mesmo que tenhamos contato com ele. Os algoritmos não moldam apenas opiniões, moldam nossa percepção sobre o que merece atenção, quem possui autoridade para falar e quais temas devem provocar indignação.

A geração Z herdou esse sistema como ponto de partida. Os millennials o adotaram gradualmente até transformá-lo em hábito. E ambos correm o risco de confundir o eco de crenças amplificadas pelo feed com o som da própria verdade.

A boa notícia é que o experimento de Stanford prova que a polarização não é um destino, mas sim uma configuração. E configurações podem ser alteradas. A má notícia é que quem controla a configuração não somos nós.

Carol Cassiano

Especialista em comunicação estratégica e marketing político. Atua no MJSP com articulação institucional, gestão de projetos e comunicação de impacto social.

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