
DAS CONSEQUÊNCIAS HISTÓRICAS DO INSUCESSO ESPORTIVO
Sempre que a seleção brasileira é desclassificada da Copa do Mundo, ouvimos que o insucesso decorre do abandono de nossas raízes e que precisamos voltar a jogar de acordo com a nossa identidade.
A crítica subjacente é à suposta incorporação do modo europeu de jogar, mais físico, mais tático, em detrimento da criatividade e da ginga do futebol brasileiro. Tem sido assim desde a década de 1970, quando comecei a acompanhar o futebol. Em quase cinco décadas, ouvi essa convocação de volta às raízes em contextos tão diferentes que fiquei me perguntando:
De que raízes falamos, afinal?

Um ponto de inflexão foi a Copa de 1982. Depois do triunfo de 1970, foi a primeira vez que o selecionado nacional empolgou e jogou, segundo a avaliação da época, em coerência com a nossa identidade. A surpreendente derrota para uma desacreditada seleção italiana gerou consequências que nunca cessaram. Ainda hoje vivemos sob o falso dilema: é melhor jogar feio e ganhar do que jogar bonito e perder. O imediato pós-1982 foi de busca de um pragmatismo que nos impelisse a reencontrar o caminho do título, qualquer que fosse o estilo.
Em 1990, essa busca foi traduzida na equipe comandada por Lazzaroni, que introduziu um terceiro zagueiro para atuar como líbero, visando ao aperfeiçoamento do sistema defensivo. Na prática, houve a incorporação de um conceito muito praticado no futebol italiano. A derrota para a Argentina no primeiro jogo eliminatório, porém, realimentou o sentimento de perda de raízes. O ciclo de 1994 teve início com a crítica desse desalinhamento com a alegada identidade, mas foi concluído, com sucesso, pela atualização do pragmatismo, caracterizado pela prioridade ao sistema defensivo. A final contra a Itália, concluída sem gols durante os 120 minutos de tempo regulamentar e prorrogação, ocorreu entre dois times muito parecidos na forma de conduta em campo.

Em 2002, o técnico da seleção brasileira, dono de um currículo de vitórias em torneios eliminatórios, reabilitou o sistema defensivo com líbero, mas o excepcional trio de atacantes fez a diferença. Após a malsucedida tentativa de editar um time de estrelas e privilegiar o aspecto técnico em 2006, o Brasil voltou a investir no pragmatismo com a competitiva seleção comandada por Dunga, talvez a formação que mais mimetizou o estilo italiano que nos derrotou em 1982. A nova derrota provocou oscilações de perspectiva, mas Dunga foi novamente convocado a dirigir o time depois do colapso de 2014. Sua permanência foi curta. A ascensão de Tite, um técnico que se formou na escola do pragmatismo e que procurou se reciclar na segunda metade daquela década, não entregou tudo o que prometeu. No ciclo de 2026, após os impasses com Diniz e Dorival, a CBF contratou um técnico italiano de verdade, que levou a campo o estilo raiz de seu país.
Tantas décadas depois do emblemático título de 1970, é o caso de perguntar se a nossa identidade é pelo futebol pragmático ou pelo que se convencionou chamar de futebol arte.

Em 2011, quando o Santos decidiu o Mundial de Clubes com o Barcelona de Guardiola, perguntaram ao técnico catalão de onde ele tirou inspiração para seu estilo revolucionário. A resposta, como os leitores devem saber, foi a mais óbvia:
Do futebol brasileiro das copas de 1970 e 1982.
Desde a expansão do modernismo, incorporou-se ao léxico intelectual brasileiro o conceito de antropofagia. Era uma resposta ao suposto nacionalismo autêntico, insulado em seu território e em suas fronteiras. A antropofagia cultural ensina que, em vez de rejeitar outras influências, devemos devorá-las seletivamente e nos fortalecer com elas. Foi o que Guardiola fez na Catalunha: mesclou a escola brasileira do toque de bola com a revolução holandesa do futebol total, somando tudo isso com traços da cultura espanhola pelo jogo bonito, sedimentada pelo Real Madrid e pelo Barcelona. O estilo Guardiola, adaptado e ressignificado, espraiou-se pela Europa. Além de influenciar os principais times, teve ressonância em campanhas vitoriosas em recentes edições de Copa do Mundo, ou seja, nos dois títulos espanhóis (2010 e 2026) e no título alemão de 2014, ocorrido em terras brasileiras. Paradoxalmente, teve menos repercussão no futebol praticado no Brasil e por sua seleção.
Quando se diz que a seleção brasileira não deve mimetizar o estilo europeu, deve-se considerar que o estilo europeu predominante nas grandes equipes, vitorioso em torneios importantes, canibalizou o estilo brasileiro de outras décadas. Por sua vez, o Brasil terminou a Copa de 2026 apostando no estilo italiano raiz. Tudo isso me faz pensar que a derrota de 1982 nunca cessou.
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