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Madonna transforma a pista de dança em manifesto no álbum “Confessions II”

Madonna lançou, nesta sexta-feira (3), o álbum “Confessions II”, seu novo trabalho de estúdio. O disco retoma, duas décadas depois, a atmosfera eletrônica de “Confessions on a Dance Floor”, de 2005.

Com 16 faixas e participações de Sabrina Carpenter, Feid, Martin Garrix, Stromae e Lola Leon, além da volta do produtor Stuart Price, o disco reafirma a ligação da artista com a música dance e usa a pista de dança como espaço de memória, prazer e reinvenção.

Aos 67 anos, a cantora volta ao centro do pop não pela nostalgia, mas através de uma leitura madura do próprio legado.

Confessions II: uma resposta ao tempo e aos críticos

(Foto: Reprodução)

No início da carreira, Madonna foi tratada por parte da crítica como um fenômeno passageiro. Havia quem apostasse que ela deixaria a música rapidamente ou que seria lembrada apenas como possível estrela de cinema. Quatro décadas depois, o cenário é outro. A artista atravessou ciclos, modas, escândalos, rejeições e renascimentos, construindo uma das trajetórias mais influentes da cultura pop.

“Confessions II” chega justamente como uma resposta a essa permanência., sem esconder a idade da cantora, muito menos simular uma falsa sensação de juventude. Ao contrário. Parte da força do projeto está em apresentar Madonna como uma mulher que envelhece publicamente sem aceitar concessões. A pista de dança, nesse caso, vira também uma forma de enfrentar o etarismo.

A capa, com o rosto parcialmente oculto por um véu roxo, sugere essa ideia de persona e mistério. Madonna sempre fez da transformação uma ferramenta artística, mas agora a reinvenção desponta como um acerto de contas com a própria história.

A volta de Stuart Price e do espírito de “Confessions”

(Foto: Rafael Pavarotti)

A presença de Stuart Price é decisiva para entender o disco. Responsável por parte essencial do impacto de “Confessions on a Dance Floor”, o produtor volta a trabalhar com Madonna em um álbum que funciona como um set contínuo, com transições fluidas e aquele clima sedutor que marca uma boa noitada em um clube.

Apesar do título, “Confessions II” não é uma cópia do álbum de 2005. A nova obra troca parte do brilho disco-house daquele período por uma sonoridade mais ligada ao house de Chicago e Detroit, ao deep house, ao trip hop e a texturas eletrônicas mais sombrias. Há momentos de euforia, mas também de contemplação e reflexão, como se a mente e o espírito estivessem convergindo na mesma energia.

Faixas como “I Feel So Free”, “Good For The Soul” e “One Step Away” estabelecem a base conceitual do disco: dançar não é apenas diversão, mas um gesto espiritual e coletivo. Madonna trata a boate como templo, refúgio e território político.

A ideia atravessa todo o álbum e ganha força por dialogar com momentos de crise, como a epidemia de Aids nos anos 1980 e, agora, as inseguranças de um mundo marcado por autoritarismo, isolamento e colapso ambiental.

Danceteria, memória e política do corpo

(Foto: Rafael Pavarotti)

Um dos centros emocionais de Confessions II é “Danceteria”, faixa que revisita a boate nova-iorquina onde Madonna começou a se aproximar da indústria musical. Foi naquele ambiente, frequentado por artistas, DJs, estilistas, dançarinos e personagens da cena alternativa, que ela deu passos decisivos antes de se tornar uma estrela global.

A canção não funciona apenas como lembrança pessoal, mas como transformação da noite de Nova York em um arquivo vivo. Ao evocar clubes, corpos, desejos e encontros, Madonna recupera a boate como espaço de criação e sobrevivência. Esse gesto é importante porque a cultura dance, muitas vezes tratada como superficial, nasceu também de comunidades marginalizadas, especialmente negras, latinas e LGBTQIA+.

No disco, dançar é pertencer e, acima de tudo, recusar o isolamento. Em “Everything”, Madonna parece reagir a uma geração mais habituada ao lazer doméstico e às telas do que ao encontro físico. A crítica não soa como bronca nostálgica, mas como defesa do contato, do suor e da presença.

Os grandes momentos de Confessions II

(Foto: Rafael Pavarotti)

Entre as faixas mais fortes, “One Step Away” aparece como um dos grandes momentos de “Confessions II”. A música combina uma melodia extremamente delicada, atravessada por uma pulsação eletrônica sem igual, como se conduzisse o ouvinte a um transe na hora da dança.

Há nela um parentesco espiritual com “Ray of Light”, mas sem a busca por respostas que marcava o conceito daquele álbum. Agora, Madonna parece mais interessada em aceitar as cicatrizes do que em transcendê-las.

“Danceteria” é o ponto mais imediatamente pop e talvez o single mais óbvio do projeto. A faixa tem uma energia descomunal, decorrente das imagens e narrativas evocadas. Funciona tanto como homenagem ao passado quanto como afirmação da identidade de Madonna, que olha para a jovem ambiciosa que foi, sem romantizar demais aquele período. Desde já, uma das grandes canções da discografia da cantora.

“Bring Your Love”, com Sabrina Carpenter, também se destaca. A parceria evita a armadilha de parecer uma tentativa forçada de aproximação com o público jovem, deixando Sabrina entrar no território de Madonna, não o contrário. O resultado é uma faixa house confiante, com tom provocativo que dialoga entre duas gerações de mulheres pop constantemente julgadas pela forma como lidam com desejo, imagem e sexualidade.

Outro ponto alto é “Fragile”, uma das faixas mais vulneráveis do álbum. A canção aborda perdas familiares e relações marcadas por distância e reconciliação. Mesmo quando a produção eletrônica pesa um pouco sobre a emoção, a música mostra uma Madonna menos blindada, disposta a deixar aparecer a sua face mais suscetível ao público.

“Betrayal” merece atenção pela atmosfera jazzística e trip hop. É uma faixa mais sombria, quase cinematográfica, conduzindo o disco para uma reta final menos explosiva e mais introspectiva. Já “The Test”, com Lola Leon, acrescenta uma dimensão familiar rara na discografia da cantora, ao tratar a relação de mãe e filha com uma sinceridade incomum.

Outras faixas que se destacam entre as melhores do álbum são “Bizarre”, em parceria com Martin Garrix, “School” e “My Sins Are My Savior”, num dueto sensual e nostálgico entre Madonna e Stromae, remetendo ao período da carreira da cantora compreendido entre o lançamento de “Justify My Love”, “Erotica” e “Bedtime Stories”. Facilmente, três das melhores músicas de 2026 até o momento.

Celebração do próprio legado

(Foto: Ricardo Gomes)

A recepção crítica de “Confessions II” tem sido amplamente positiva. Parte da imprensa internacional apontou o disco como o trabalho mais consistente de Madonna em cerca de 20 anos. A avaliação faz sentido. Depois de projetos em que a artista parecia disputar espaço com tendências do momento, aqui ela soa mais confortável, segura e dona do próprio vocabulário.

O álbum não é perfeito. Algumas faixas poderiam ser mais enxutas, e a repetição da ideia de que a dança liberta aparece em excesso em certos momentos. Também falta um hit incontornável como “Hung Up”. Ainda assim, o conjunto impressiona pela coesão, pela elegância e pela capacidade de transformar referências antigas em matéria viva.

“Confessions II” funciona porque Madonna não se comporta como peça de museu. Ela revisita a própria carreira, olhando para diferentes momentos da trajetória da artista, mas sem se apoiar exageradamente nesses períodos. O passado surge como ferramenta, e não como elemento que norteia o trabalho.

Na reta final, quando a euforia dá lugar a faixas mais lentas e confessionais, o álbum revela seu gesto mais bonito. Depois de convocar o público para a pista, Madonna parece voltar para casa carregando lembranças, perdas e reconciliações. O corpo que dança também envelhece, sofre, deseja e continua.

Essa talvez seja a grande força de “Confessions II”. Mais do que provar relevância, Madonna reafirma a sua presença como a grande artista feminina da história do pop. Aquela que muitos julgavam como uma “moda passageira”, segue fazendo da insistência uma forma de revolução.

E, desta vez, convida o público a entender que a pista de dança nunca foi apenas escapismo, mas sim, um espaço essencial para a criação de novas linguagens e elemento primordial para a própria sobrevivência.

Ouça o novo disco de Madonna:

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Henrique Romanine

Jornalista, colecionador de vinil e apaixonado por animais, cinema, música e literatura. Inclusive, sem esses quatro, a vida seria um fardo.

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