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Nosso pior 14 de julho dos últimos tempos

Foto: Reprodução/ instagram @equipedefrance

Liberté, égalité, Mbappé e Dembélé. A gente acreditava na rapaziada da periferia, que jogava lindamente e indicava que a França era o país do futebol, com uma nova geração de filhos de imigrantes mostrando aos racistas do mundo todo que os princípios da revolução francesa são mais do que nunca atuais. Mas o pior nem foi isso. O pior nem foi perder na semifinal, sem jogar bem, para a grande seleção da Espanha. Isso é só futebol. O pior é ver o país sufocado na maior onda de calor da história. Florestas queimando, inclusive Fontainebleau, perto de Paris. Pessoas sofrendo, algumas morrendo e cidades abafadas.

Foto: Reprodução/ Instagram @francepress

As festas e fogos do 14 de julho, dia da tomada da Bastilha e marco da Revolução Francesa, foram anuladas em vários lugares por risco de agravar os incêndios. Grande parte dos bombeiros, verdadeiros heróis, não puderam fazer seu tradicional baile da data, pois estavam mobilizados nos 4 cantos do país lutando contra o fogo. São milhares de homens e mulheres, mas sem equipamentos à altura (faltam aviões). Em alguns momentos, pareciam mais Quixotes lutando contra os moinhos vento, só que feitos de chamas reais. Olé.

E o que fez Macron no dia 14 de julho?

Foto: Reprodução/ Instagram @ministeredesarmees

Na manhã, no também tradicional desfile da Champs Elysée, fez a maior parada militar dos últimos tempos. Um desfile com o objetivo de mostrar a força bélica do país, em retomada. No meu ponto de vista, algo, no mínimo, bem estranho, para não dizer indecente. Estranho pois o único orçamento que aumenta no país é o das forças armadas. Enquanto escolas e hospitais continuam sem nenhuma infraestrutura para enfrentar o calor. Enquanto festivais e eventos culturais são anulados por falta de orçamento. Enquanto as cidades sufocam, sem vegetação à altura. E mais da metade dos franceses não tem dinheiro para sair de férias. Qual resposta? Armamentos.

Há um provérbio latino que diz:

“se quer a paz, prepare a guerra.”

Nada mais falso. Se queremos a paz, preparemos a paz, pois, como a história já mostrou, quando se prepara a guerra, já estamos no caminho mais certeiro para ela. E quem se beneficia da corrida armamentista? Seguindo os Estados Unidos, diversos países do mundo, como China, Rússia e países europeus, sem falar de Israel, aumentaram consideravelmente seus gastos com as forças armadas. Um risco para a humanidade e um problema geral de prioridades.

Estamos perdendo tempo contra o maior dos combates que a humanidade tem a enfrentar: contra o aquecimento global e para salvar a vida no planeta. Na era do capitaloceno, a luta que devemos travar, como convida Ailton Krenak, é para adiar o fim do mundo. Enquanto os aviões de guerra cruzavam os céus do 14 de julho de 2026, e os tanques desfilavam na Champs Elysée, diante de um presidente Macron que discursava dizendo “vamos defender a paz, inclusive com o nosso sangue”, somente 12 Canadairs (aviões que lançam água para apagar grandes incêndios) tinham condições de operar no país.

Foto: Reprodução / Instagram @ministeredesarmees

Deixemos por hora de lado o fato de que havia aproximadamente 6700 soldados, 98 aviões, 31 helicópteros e 315 veículos de guerra mobilizados, trazendo no fundo as cores da Ucrânia e da Europa. Evidente mensagem enviada à Rússia. Nesse momento, tenho um leve frio na coluna vertebral ao escrever essas palavras. Mas falemos aqui de um ponto que eu acho essencial, sem especulações (já que toda essa demonstração bélica não significa, de fato, que a Ucrânia está salva, se ao menos servisse para isso…).

A indústria bélica internacional produz aviões de todos os tipos, mas são incapazes de produzir os Canadairs e outros aviões que lançam bombas de jatos d’água. Na França, existem hoje 152 Rafales e somente 12 Canadairs. 4 aviões a mais seriam encomendados, mas 2 foram cancelados, e outros não vão chegar antes de 2028. Há um esgotamento nos modelos simplesmente pois não há fabricantes.

A questão que deveria ser colocada: para que serve a defesa nacional? Para proteger quem e de quê? Qual o sentido e utilidade de uma data revolucionária que deveria festejar o fim dos privilégios da nobreza e novos rumos para mais igualdade, liberdade e fraternidade, resumida a um desfile de força militar, no momento da maior crise climática e ambiental de todos os tempos? Enquanto ouvimos o barulho das botas na Avenida Champs Elysée, vemos a extrema direita francesa ressaltar as Forças Armadas no 14 de julho nas redes sociais. Foi o último desfile de Emmanuel Macron presidente, que quer deixar o legado de um “exército europeu” reconstituído (elemento ilusório, além de dispendioso e perigoso, como sabemos). No entanto, vai partir como um dos presidentes que continuou a admitir regressões nos direitos dos estrangeiros, principalmente para os estudantes não-europeus, além de cortes colossais na seguridade social e educação. A avenida está aberta para a extrema direita chegar ao poder.  Mas nós vamos resistir, somos a alternativa real e vamos ganhar, espero que desde as presidenciais de 2027, pois não temos mais tempo a perder. E agora não se trata mais de um jogo de futebol.

Sílvia Capanema

Historiadora e Professora Doutora na Sorbonne Paris Nord, parlamentar na França e ativista da RED-Br. Pesquisa movimentos sociais e memória popular.

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