
A sexualidade humana é um oceano
Mas uma ideia antiga voltou com força especial:
“A sexualidade humana é um oceano. Há quem prefira um aquário. E está tudo bem. O que importa é o consentimento.”
Ouvi essa frase há muitos anos, em um bar na Poland Street, em Londres, conversando com o cineasta Derek Jarman, diretor do filme San Sebastian. Na época, não imaginava o quanto ela permaneceria comigo.
Durante meu mestrado em Filosofia, voltei a ela inúmeras vezes, e passei quatro anos refletindo sobre uma pergunta que segue atual: o que é ético na sexualidade?
Depois de 43 anos de ativismo e muito estudo, percebo que essa pergunta importa mais do que tentar encontrar uma definição única para a sexualidade humana.
Do aquário ao oceano
A linguagem que usamos para falar da diversidade sexual mudou profundamente. Houve um tempo em que uma palavra parecia suficiente: homossexual. Depois vieram outras siglas: GLS, LGB, LGBTI+ e tantas outras formas de nomear experiências, identidades, orientações e expressões.
Diante dessa multiplicação de letras, alguém pergunta: “mas por que tantas letras?”
Talvez porque a experiência humana seja maior do que qualquer sigla. As palavras importam: elas dão nome às experiências, criam pertencimento e podem ser instrumentos de direitos. Mas nenhuma sigla deveria se tornar uma prisão. Um oceano não cabe em uma única definição.
O que ouvi em Utrecht
Uma das impressões mais fortes do Fórum foi perceber, a partir dos resultados de pesquisas apresentados, como as novas gerações questionam categorias que, para nós, pareciam mais rígidas. Muitos jovens se identificam como bissexuais, pansexuais ou simplesmente preferem não se prender a uma classificação. Também chamou atenção a crescente presença de identidades não binárias e a recusa em organizar o mundo em dois extremos.
É como se algumas pessoas dissessem: “não quero viver no oito ou no oitenta. Quero encontrar o meu próprio lugar.”
E é aí que a metáfora do oceano fica ainda mais interessante. Há quem queira um aquário, um rio, um riacho, uma sanga do interior, uma catarata, como as do Iguaçu, essa imensa força da natureza. E há quem queira simplesmente mergulhar no oceano. Por que exigir que todos tenham afinidade com a mesma paisagem?
Autoconhecimento antes da classificação
Essa reflexão me levou de volta aos filósofos que estudei. Aristóteles nos ajuda a pensar a vida a partir da busca pela realização e pela felicidade. Kant nos provoca com a ideia de autonomia e dignidade, de tratar cada pessoa como um fim em si mesma. Schopenhauer nos conduz pelos caminhos complexos do desejo, da vontade e do sofrimento. Todos nos lembram que a existência humana não é uma fórmula matemática.
Por isso, acredito que o primeiro compromisso ético da sexualidade seja o autoconhecimento. Antes de perguntarmos “qual é a sua letra?”, talvez devêssemos perguntar: quem é você? Como você se sente? Como deseja viver? Quais são os seus limites? Você está sendo respeitado?
A identidade pode ajudar uma pessoa a se compreender, mas não deve ser usada para aprisioná-la. Cada pessoa tem o direito de encontrar suas próprias palavras, suas próprias letras, sua própria maneira de existir.
O princípio que permanece
Depois de tantas transformações, algo permanece fundamental: o consentimento.
Não é a quantidade de letras de uma sigla que determina se uma relação é ética. Não é a aparência, a orientação sexual ou a identidade de gênero. O que precisamos perguntar é se existe autonomia, respeito, reciprocidade, liberdade e consentimento. Isso, claro, acompanhado dos limites éticos e jurídicos necessários à proteção da dignidade humana. Liberdade não significa ausência de responsabilidade.
É por isso que, como cristão, encontro uma referência forte nas palavras atribuídas ao apóstolo Paulo: “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. Ter liberdade não significa abandonar a ética; significa poder escolher e, ao mesmo tempo, assumir responsabilidade pelas escolhas.
Direitos humanos, não apenas comportamentos
Há uma consequência dessa discussão que considero ainda mais importante: nenhuma criança, adolescente, jovem, adulto ou idoso deveria ser vítima de bullying, violência, escárnio, humilhação ou discriminação por causa de sua sexualidade ou identidade.
Uma sociedade verdadeiramente democrática não precisa que todas as pessoas sejam iguais em seu sexualidade; precisa garantir que pessoas diferentes tenham igual dignidade. É aqui que a reflexão sobre sexualidade deixa de ser apenas uma discussão sobre comportamentos individuais e passa a ser uma discussão sobre direitos humanos.
Se alguém está no aquário, que possa viver em seu aquário. Se alguém está no rio, que possa viver em seu rio. Se alguém quiser conhecer o oceano inteiro, que também tenha essa liberdade. O que não podemos aceitar é que alguém seja jogado contra sua vontade dentro de um aquário, impedido de sair dele ou condenado por seu íntimo se expressar em uma paisagem diferente.
Ampliar nossos próprios aquários
Talvez o grande desafio seja perceber que todos nós construímos aquários: nossas crenças, experiências, necessidades, valores, referências culturais, famílias, religiões e histórias. Tudo isso influencia como enxergamos o mundo e a sexualidade.
O problema começa quando confundimos o nosso aquário com o oceano inteiro. Aquilo que conhecemos não é necessariamente tudo o que existe. Aquilo que corresponda a nós não precisa ser imposto ao outro. Aquilo que nos faz felizes não precisa ser a única forma legítima de felicidade.
Talvez seja isso que Utrecht me ensinou: não necessariamente encontrar novas respostas, mas fazer perguntas melhores.
A ética de deixar o outro existir
Depois de 43 anos de militância pelos direitos humanos e pela população LGBTI+, continuo acreditando que nossa grande tarefa não é obrigar todas as pessoas a usar as mesmas palavras. Nossa tarefa é garantir que todas possam existir com dignidade: que possam se conhecer, se definir, amar, estabelecer limites, dizer “sim” e, principalmente, dizer “não”. E que ninguém seja violentado, discriminado ou humilhado por ser quem é.
A sexualidade humana é, de fato, um oceano. Alguns preferirão um aquário, outros um rio, outros uma catarata, outros simplesmente não quererão colocar nome em lugar algum. E está tudo bem, desde que exista liberdade, responsabilidade, respeito, ética, dignidade e consentimento.
Talvez a maturidade de uma sociedade não esteja em colocar todas as pessoas dentro das mesmas caixas, mas em ampliar nossos próprios aquários até percebermos que, do lado de fora, existe um oceano inteiro.
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