Skip to content Skip to footer

O concreto rachou: após 40 anos, álbum clássico da Plebe Rude continua assustadoramente atual

Quarenta anos depois do lançamento de O Concreto Já Rachou, a estreia fonográfica da Plebe Rude continua entre os retratos mais incisivos do Brasil que emergia da ditadura militar.

Apresentado oficialmente em 11 de fevereiro de 1986 pela EMI-Odeon, o mini-LP reuniu sete faixas e condensou em 21 minutos e 32 segundos a insatisfação de uma juventude cercada por desigualdade, repressão, inflação e incertezas sobre a democracia que começava a ser reconstruída.

Gravado em 1985 e produzido por Herbert Vianna, o trabalho projetou nacionalmente Philippe Seabra, Jander Bilaphra, André X e Gutje Wortmann, integrantes de uma geração que transformou Brasília em um dos principais polos do rock brasileiro.

Mesmo curto, o álbum apresentou uma linguagem amadurecida ao longo de cinco anos de shows, ensaios e convivência com a censura, combinando a urgência do punk com elementos de pós-punk, new wave e arranjos incomuns para uma banda associada à música de protesto.

As quatro décadas também reforçam uma contradição que acompanha o disco desde sua chegada às lojas: O Concreto Já Rachou pertence aos anos 1980, mas não ficou preso àquela década.

As críticas à concentração de renda, à violência institucional, ao oportunismo da indústria cultural e à deterioração da vida urbana continuam próximas de questões que atravessam o país.

A inquietação que nasceu em Brasília

(Foto: Reprodução)

Criada em 1981, a Plebe Rude fazia parte do circuito de jovens músicos conhecido como Turma da Colina, ambiente do qual também saíram projetos ligados à Legião Urbana e ao Capital Inicial.

Brasília oferecia poucas alternativas de diversão para aquela geração, mas colocava os integrantes diante da política nacional, das operações de segurança e das contradições de uma cidade planejada para simbolizar o futuro do país.

A banda foi formada por Philippe Seabra, Jander “Ameba” Bilaphra, André Müller, o André X, e Gutje Wortmann, músicos que acompanhavam o punk britânico por meio de discos, fitas e materiais trazidos do exterior.

The Clash, Sex Pistols, Public Image Limited, Buzzcocks, The Damned e Madness estavam entre as referências, embora o grupo tenha desenvolvido uma identidade menos rudimentar do que aquela normalmente associada ao gênero.

Para Philippe Seabra, as composições não nasceram isoladas do momento vivido pela capital, onde a proximidade com o poder tornava impossível ignorar a situação política. O vocalista tinha 18 anos quando as gravações começaram e completou 19 durante o processo, enquanto o país encerrava formalmente o regime militar sem eliminar as estruturas e os medos construídos durante mais de duas décadas.

André X considera que os cinco anos anteriores ao primeiro disco foram decisivos para estabelecer a sonoridade, a postura e o propósito da Plebe Rude. O grupo acumulou experiência em apresentações dentro e fora de Brasília, ampliou o repertório e aprendeu a transformar acontecimentos políticos em canções sem abandonar a ironia ou a observação do cotidiano.

Os shows daquele período também eram atravessados pela vigilância, pois as letras precisavam ser encaminhadas aos órgãos de censura antes das apresentações. Seabra recorda que o receio de uma intervenção policial fazia parte da rotina e influenciava até a maneira como preparava seus equipamentos para deixar rapidamente o local, caso a situação saísse do controle.

Antes de consolidar o quarteto, a Plebe teve Ana Galbinsky, conhecida como Ana XYZ, e Marta Brenner, a Marta Detefon, nos vocais de apoio. As duas saíram em 1982, quando a explosão comercial da Blitz levou os integrantes a temer comparações e aumentou as dúvidas sobre qual caminho o grupo deveria seguir.

Plebe Rude e O Concreto Já Rachou, 40 anos: estreia curta e cercada de desconfiança

(Foto: Reprodução)

A chegada à EMI-Odeon teve participação importante de Renato Russo, que recomendou a Plebe Rude à gravadora e preparou o texto de divulgação do lançamento. A admiração era pública, tanto que o líder da Legião Urbana chegou a aparecer na televisão usando uma camiseta da banda brasiliense por baixo da roupa.

Embora tivesse canções suficientes para preencher um LP convencional, o grupo recebeu autorização para gravar apenas sete músicas em um mini-LP de 12 polegadas. O formato era utilizado pelas gravadoras como teste para novos artistas e prometia reduzir o preço final, mas os custos de prensagem, capa e distribuição permaneciam próximos aos de um álbum completo.

A mesma estratégia foi aplicada a discos como Pânico em SP, dos Inocentes, e Passos no Escuro, do Zero, mas não se consolidou comercialmente. Para a Plebe, porém, a restrição produziu um resultado favorável ao obrigar a seleção de um repertório direto, sem faixas destinadas apenas a completar espaço.

Herbert Vianna assumiu a produção após se aproximar do quarteto e compreender o humor de “Minha Renda”, composição que utilizava seu nome para ironizar músicos dispostos a fazer concessões em busca de popularidade. Em vez de suavizar o grupo, o integrante dos Paralamas do Sucesso preservou a tensão das guitarras e acrescentou recursos que deram maior profundidade ao material.

A abertura de “Até Quando Esperar” com o violoncelo de Jaques Morelenbaum partiu de Herbert e apresentou, logo nos primeiros segundos, uma banda menos previsível do que o rótulo punk poderia indicar. Fernanda Abreu participou de “Sexo e Karatê”, George Israel tocou saxofone em “Seu Jogo” e o próprio produtor acrescentou sua voz à provocação de “Minha Renda”.

O resultado colocou em diálogo duas características aparentemente opostas, com a concisão, a urgência e o enfrentamento político do punk convivendo com guitarras arpejadas, contrastes vocais e arranjos elaborados. A Plebe não precisava escolher entre agressividade e sofisticação, pois utilizava ambas para ampliar o impacto das letras.

Sete faixas, diferentes rachaduras

Philippe Seabra (guitarra e vocal), André X (baixo), Jander Bilaphra (guitarra e vocal) e Gutje Woorthmann (bateria), a formação original da Plebe Rude. (Foto: Reprodução)

“Até Quando Esperar” inicia o álbum observando a desigualdade de um país no qual a população pobre recorria à fé enquanto a riqueza permanecia concentrada. O violoncelo de Morelenbaum cria uma introdução melancólica antes da entrada da banda, estabelecendo o contraste entre delicadeza musical e indignação social que transformou a faixa no maior clássico da Plebe Rude.

A letra evita tratar a pobreza como uma fatalidade e direciona a atenção para as estruturas que mantêm grupos inteiros afastados dos recursos disponíveis. Quarenta anos depois, a canção conserva força porque sua pergunta central não depende do cenário econômico de 1986, mas de uma realidade brasileira que continuou produzindo abismos sociais.

“Proteção”, composta por Philippe Seabra em abril de 1984, nasceu durante a mobilização pela Emenda Dante de Oliveira, quando policiais cercaram o Congresso Nacional e pontos estratégicos da capital. A faixa confronta a ideia de segurança oferecida por forças que também provocavam medo, expondo a continuidade da repressão justamente quando o país reivindicava eleições diretas e abertura política.

A terceira música, “Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)”, leva o ataque ao universo militar e questiona a transformação do conflito em promessa de aventura, disciplina e reconhecimento. É um dos momentos mais abertamente punk do disco, conduzido pela bateria de Gutje, pelo baixo de André X e por guitarras que acompanham a velocidade do discurso.

Em “Minha Renda”, a Plebe muda o alvo e se volta contra a própria indústria musical, satirizando fórmulas criadas para conquistar dinheiro e visibilidade. A presença de Herbert Vianna reforça a brincadeira e demonstra que o produtor entendeu o sarcasmo da banda, mesmo sendo mencionado como símbolo de sucesso comercial.

“Sexo e Karatê” apresenta o lado mais irreverente do repertório ao aproximar o imaginário adolescente dos filmes de luta e da programação televisiva da época. Com a participação de Fernanda Abreu, a faixa alivia momentaneamente o peso político, mas mantém a energia instrumental e a disposição de debochar dos produtos oferecidos ao público jovem.

A atmosfera volta a escurecer em “Seu Jogo”, composição estruturada em torno de escolhas, riscos e autodestruição, com arranjo de saxofone executado por George Israel. A música foi relacionada à memória de André Pretorius, integrante do Aborto Elétrico morto em 1983, e utiliza a metáfora de uma partida para abordar uma trajetória que se aproxima do xeque-mate.

“Brasília” encerra o álbum transformando a cidade natal em personagem e colocando Philippe Seabra e Jander Bilaphra em um jogo de canto e contracanto. Os dois vocalistas chegam a desenvolver frases simultâneas, criando uma sensação de desordem que acompanha a descrição de uma capital dividida entre o projeto monumental, o isolamento urbano e a deterioração política.

É nessa última faixa que aparece a imagem responsável pelo título do disco, inspirada na percepção de que o concreto da cidade relativamente nova já apresentava rachaduras. A constatação material ganhou sentido mais amplo e passou a representar um modelo político e social que parecia sólido, mas começava a revelar suas falhas.

Plebe Rude e O Concreto Já Rachou, 40 anos: um disco que o tempo não domesticou

(Foto: Reprodução)

“Brasília” foi a composição que mais enfrentou problemas com a censura federal, embora a EMI-Odeon tenha conseguido sua liberação com restrições. A experiência seria retomada no segundo álbum, Nunca Fomos Tão Brasileiros, de 1987, no qual a Plebe gravou “Censura” como resposta direta à vigilância sofrida no começo da carreira.

Apesar da cautela inicial da gravadora, O Concreto Já Rachou tornou-se o trabalho mais bem-sucedido do grupo e recebeu certificação de ouro. Todas as faixas encontraram espaço em emissoras dedicadas ao rock, especialmente a Fluminense FM, enquanto “Minha Renda” ganhou um videoclipe exibido pelo Fantástico com apresentação de Herbert Vianna.

A banda recusou receber a premiação no Cassino do Chacrinha porque teria de se apresentar em playback e optou por participar do Perdidos na Noite, comandado por Fausto Silva, onde poderia tocar ao vivo. O episódio reforçou a resistência do quarteto às regras do mercado que ele próprio havia criticado no disco.

A história da Plebe Rude seguiria marcada por trocas de integrantes, conflitos, novos trabalhos e uma interrupção iniciada em 1994, quando Seabra se mudou para Nova York. O encerramento se transformou em um hiato de aproximadamente seis anos, e a banda retomou as atividades até chegar à formação atual, com Philippe Seabra, André X, Clemente Nascimento e Marcelo Capucci.

Em 2025, Seabra revisitou essa trajetória na autobiografia O Cara da Plebe, lançada pela Editora Belas Letras, na qual percorre os bastidores da banda e o desenvolvimento do rock brasiliense. O livro acrescenta as memórias pessoais de Seabra a uma história que também pertence à transformação cultural do país durante a redemocratização.

Ao completar 40 anos, O Concreto Já Rachou permanece maior do que a soma de suas sete faixas porque registrou uma época sem se tornar dependente dela. A ditadura terminava, mas a repressão não havia desaparecido, a democracia avançava sem garantias e a esperança dividia espaço com um cotidiano de inflação, desemprego e desigualdade.

A longevidade do álbum não resulta apenas da permanência dos problemas denunciados, mas da maneira como a Plebe Rude converteu essas tensões em uma música concisa e pouco obediente às fronteiras de gênero. Quatro décadas depois, o concreto continua rachado, e o primeiro disco da banda ainda encontra novas fissuras para expor.

Bookmark

Continue lendo

Deixe seu comentário