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JENNIFER

JENNIFER

Por Roberto Tardelli
A mala enorme, dentro do vagão do metrô, ocupava o espaço de uma troupe, e sobre a mala uma outra mala e sobre tudo aquilo, Jennifer, de vívidos olhos, se divertia; só ela, a troupe. Jennifer tinha sua partner, Evelyn, de pouco mais de dezoito ou nem isso, tatuagens, piercings, saia justíssima, fone de ouvido. A mala era grande demais para as duas e imaginei que o restante da banda, do grupo, estava ali dentro, se ajeitando sabe-se lá como. Haveria uma dupla de anões, uma contorcionista, uma bailarina e uns palhaços de bunda amarela naquela mala gigantesca, onde Jennifer reinava.

O metrô vinha lento e parava por uma encarnação. É estranho, as pessoas vão entrando sem que se perceba que a lotação estava em níveis sobre-humanos. Certamente, a experiência acumulada já ensinou que todo trem poderá ser o último e que os trens obedecem a critérios ditados por pessoas que não os utilizam, bacanas engravatados que andam de carro blindado; não imaginam o que é a sensação de ser deixado, plantado, pelo trem que leva a noite, o cansaço, a família, a hora-extra, o bico, a escola noturna, a amante, o bar.

A linha Sé-Palmeiras/Barra Funda era a plateia para Jennifer exibir seus talentos, sua performance era perfeita e era seu sorriso e sua risada, de uma felicidade contagiante.

“RESPEITÁVEL PÚBLICO: COM USTEDS, LO MÁS CONTAGIANTE SORRISO DEL PLANETA, JENNIFER!!!”

Havia pouco, eu passava pela Praça da Sé, um poema concreto de caos e diversidade: um transformista assistia maravilhado à pregação de um pastor maluco, que anunciava para algumas horas o Apocalipse, que viria sem que ninguém percebesse. A poucos metros do Apocalipse do pastor, Robério cantava com os olhos fechados e um violão que cumpria magnificamente sua missão, que é a de ser dolente e penetrante. Ele cantava para suas plateias: a real, os poucos desajambrados que o ouviam; a imaginária, os milhares, as loiras falsas da cerveja, o craque da hora. A música arrancou lágrimas de um vendedor de ervas e beberagens, o “homem da cobra”, que prometia curar picadas de serpentes, sem se dar conta que as cascáveis metropolitanas são bem sutis e traiçoeiras.

Ajudei Evelyn, a muito jovem mãe a levar aquela mala comunitária para algum lugar. “A gente vai ali, na padaria, no ônibus do Partido”, maneira como as pessoas que possuem visitas mas não possuem o dinheiro da passagem se referem a esse aspecto assistencial da facção. Ela vai visitar o pai pela primeira vez. “O senhor me ajuda?” Jennifer levava na mala roupas e agasalhos para o pai e para seus colegas de cela, muito fria, segundo me disse a mãe, uma avó surgida de última hora.

Levei a mala até a padaria. Havia dezenas de Evelyns e Jennifers, felizes. Uma, mais experiente,me reconheceu e sorriu. Jennifer teria uma apresentação, uma performance: sorrir para o pai, preso. Longe dali, na plateia dos desassistidos, o homem da cobra, o pregador maluco, o cantor romântico, a Praça da Sé, louca e revolucionária aplaudiriam Jennifer de pé.

Pedindo bis.

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