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A Geração Z não quer trabalhar? Dados contestam essa percepção, e demonstram que jovens têm procurado mais propósito e saúde no trabalho. 

A ideia de que a Geração Z “não quer trabalhar” tem se tornado cada vez mais comum nas redes sociais e em debates sobre o mercado de trabalho. A percepção costuma estar associada à maior troca de empregos entre jovens, à busca por flexibilidade e à valorização da saúde mental organizacional. Mas os dados oficiais mostram um cenário mais complexo, no qual o mercado de trabalho brasileiro registra níveis recordes de ocupação, enquanto jovens enfrentam desafios específicos relacionados à qualidade do emprego e à inserção profissional.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil alcançou, em 2025, cerca de 103 milhões de pessoas ocupadas, o maior número da série histórica iniciada em 2012. No mesmo período, a taxa anual de desocupação caiu para 5,6%, o menor índice desde o início da pesquisa. Os números indicam que o país vive um momento de elevada ocupação, contrariando a ideia de um desinteresse generalizado pelo trabalho.

Apesar do crescimento do emprego, o mercado brasileiro ainda apresenta desafios importantes. O IBGE aponta que a taxa de informalidade foi de 38,1% em 2025, indicando que mais de um terço dos trabalhadores ocupados estavam em atividades sem vínculo formal ou proteção trabalhista. Para muitos jovens, a entrada no mercado ocorre justamente por meio de ocupações temporárias, informais ou com menor estabilidade.

Os dados do Ministério do Trabalho e Emprego também ajudam a compreender por que essa percepção sobre a Geração Z ganhou força. Informações do Novo Caged mostram que trabalhadores mais jovens estão entre aqueles com maior movimentação no mercado formal, concentrando elevados números de admissões e desligamentos. Essa maior rotatividade, entretanto, não pode ser interpretada automaticamente como falta de comprometimento. Especialistas apontam que esse comportamento também está relacionado ao início da trajetória profissional, à busca por melhores salários, oportunidades de crescimento e condições de trabalho mais adequadas.

Essa interpretação encontra respaldo em pesquisas de comportamento. A Deloitte Global Gen Z and Millennial Survey 2025, realizada com mais de 23 mil entrevistados em 44 países, mostra que jovens da Geração Z atribuem grande importância a fatores como saúde mental, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e propósito no trabalho. A pesquisa não conclui que os jovens rejeitam o trabalho, mas indica uma mudança nas prioridades que influenciam a permanência em um emprego. Cristiane Pereira, advogada e sócia-fundadora do MPEC Advocacia, destaca:

“A discussão sobre a Geração Z e a empregabilidade mostra um desejo legítimo dos jovens por propósito e equilíbrio. O desafio do mercado de trabalho atual é garantir que essa busca venha acompanhada de proteção jurídica, para que as relações ditas modernas não signifiquem perda de direitos.” 

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) também aponta que os jovens enfrentam desafios específicos na transição entre a escola e o mercado de trabalho. Em seus relatórios sobre emprego juvenil, a organização aponta que esse grupo apresenta maior probabilidade de ocupar empregos temporários, informais ou de menor qualidade, além de enfrentar mais dificuldades para conquistar o primeiro emprego. Para a OIT, ampliar o número de vagas é importante, mas a qualidade dessas oportunidades é determinante para garantir uma inserção profissional sustentável.

Cristiane Pereira. Advogada e Sócia-fundadora do MP&C. Foto: Reprodução/ MPEC Advocacia

“Com efeito, os dados mundiais indicam que a Geração Z não rejeita o trabalho, como se tem tentado criar uma falsa impressão ou um estereótipo para esses novos trabalhadores, mas ao contrario, os dados mostram uma ressignificação na relação que os jovens tem com o trabalho, no qual eles buscam a valorização de propósitos, saúde mental e qualidade de vida.

 

Assim, cabe ao direito do trabalho não só acompanhar essa transformação, mas na realidade, continuar e desempenhar com efetividade o asseguramento que qualquer relação de trabalho ou do mercado caminhe junto à proteção jurídica e à dignidade do trabalhador. Se a Geração Z provoca uma mudança na forma como se enxerga o trabalho, cabe ao mercado garantir que inovação, respeitabilidade e proteção caminhem juntos.”

 

Reforça Cristiane Pereira.

Nesse contexto, a ideia de que a Geração Z “não quer trabalhar” encontra pouco respaldo quando confrontada com os indicadores disponíveis. Os dados sugerem que o fenômeno está mais relacionado à transformação das expectativas em relação ao trabalho do que a uma rejeição ao emprego em si. Em um mercado marcado por mudanças tecnológicas, novas formas de organização do trabalho e maior atenção à saúde mental, jovens parecem naturalmente buscar não apenas a boa remuneração, mas também qualidade de vida, desenvolvimento profissional e equilíbrio entre carreira e vida pessoal.

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