Ana Júlia alerta para misoginia nas escolas durante audiência com Janja e ministra das Mulheres
A deputada estadual Ana Júlia Ribeiro (PT) alertou na terça-feira (18), durante audiência pública na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), para a presença cada vez maior do machismo e da misoginia no ambiente escolar.
Proposto por Ana Júlia e pela deputada Luciana Rafagnin (PT), o encontro sobre o Pacto Brasil contra o Feminicídio reuniu a primeira-dama Janja Lula da Silva, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, parlamentares e representantes dos três Poderes e da sociedade civil.
Ana Júlia relacionou o tema à educação pública, uma das principais áreas de sua atuação, e relatou o que tem ouvido das próprias estudantes durante visitas às escolas.
“A pauta da educação pública é o que me trouxe para a política. E eu visito muitas escolas, vou muito nas escolas. E, ultimamente, eu tenho ficado muito assustada, porque, em todas elas, a primeira pergunta que me fazem é as meninas perguntando como é que faz para a gente combater o machismo e a misoginia dentro da escola, dentro da sala de aula”, afirmou.
Para a deputada, as perguntas feitas pelas estudantes são um indicador da dimensão do problema.
“Eu acho que isso é um termômetro muito importante para a gente saber o tanto que a gente tem que se dedicar nessa luta. É pela vida dessas meninas, é pela sociedade que nós queremos no futuro.”
Ana Júlia também chamou atenção para as consequências da disseminação de discursos de ódio contra as mulheres.
“Um discurso de ódio contra as mulheres não causa um mal aqui e agora, ou para quem só escuta ele naquele momento. Ele causa um mal e um dano na história do Brasil, perpetuando essas desigualdades”, disse.
“Que a gente tenha coragem e ousadia, como a Janja está tendo, para poder enfrentar a violência contra as mulheres e defender as nossas vidas”, completou.
Na abertura da audiência, Ana Júlia destacou o caráter simbólico da realização do encontro na Assembleia e afirmou que o debate tinha como foco “o Brasil contra o feminicídio, o Brasil em defesa da vida das mulheres e de uma vida com mais dignidade, respeito e fraternidade”.
Janja cobra prevenção e atuação conjunta dos Poderes
Janja iniciou seu pronunciamento lembrando mulheres assassinadas no Paraná nos últimos meses. Segundo os dados apresentados pela primeira-dama durante a audiência, o Estado registrou 55 feminicídios no primeiro semestre de 2026, contra 47 no mesmo período de 2025, aumento de 17%. Os números foram atribuídos por ela ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Janja afirmou ainda que cerca de 79% dos feminicídios no Brasil são cometidos por parceiros ou ex-companheiros e defendeu que o Estado consiga intervir antes que a violência chegue ao assassinato.
“É preciso agir antes, é preciso proteger antes, é preciso chegar antes que seja tarde demais”, afirmou.
Ao falar sobre o Pacto Brasil contra o Feminicídio, Janja destacou a atuação conjunta do Executivo, Legislativo e Judiciário. Segundo os números apresentados por ela, houve redução de 14,75% nos feminicídios no segundo trimestre de 2026 em comparação com os três primeiros meses do ano.
A primeira-dama também defendeu que ações de prevenção à violência contra mulheres e meninas estejam presentes nas escolas.
“A gente precisa levar a questão da dignidade, do respeito às mulheres para dentro do ambiente escolar”, afirmou.
Para Janja, é necessário educar os meninos para o respeito às mulheres e preparar as meninas para identificar e recusar relacionamentos abusivos.
Ao final, Janja defendeu que a experiência de articulação nacional seja reproduzida no Paraná.
“Que o Paraná, a minha terra, possa ser também um exemplo dessa união. Que os seus poderes estejam lado a lado, não apenas para reagir à violência depois que ela acontece, mas para preveni-la, interrompê-la e proteger as mulheres e meninas antes que seja tarde demais.”
Márcia Lopes defende estruturação do Pacto no Paraná
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirmou que a audiência deve resultar em ações concretas e na estruturação do Pacto Brasil contra o Feminicídio no Paraná.
Márcia também defendeu que o Paraná se torne referência na implementação do Pacto.
“Nós não podemos sair daqui achando que isso foi mais um ato. Esse é um ato que exige de nós determinação. Amanhã cedo, nós vamos começar a pensar como é que a gente vai estruturar esse pacto reunindo Executivo, Legislativo e Judiciário”, afirmou.
A ministra também colocou iniciativas e materiais desenvolvidos pelo governo federal à disposição do Paraná, entre eles ações de orientação aos homens, materiais de comunicação para igualdade de gênero e políticas voltadas ao enfrentamento da violência nas redes digitais.
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Gleisi chama audiência de “momento histórico”
A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) classificou a audiência como um “momento histórico” e destacou a iniciativa das parlamentares paranaenses.
Em sua fala, a deputada abordou ainda o crescimento da misoginia na sociedade e avaliou que, apesar dos avanços legislativos e da ampliação da rede de atendimento às mulheres desde a Constituição de 1988, houve nos últimos anos um recrudescimento desse discurso.
Gleisi afirmou que as mulheres fizeram conquistas importantes, mas que a sociedade não imaginava que estivesse “tão latente […] esse bicho chamado misoginia”. Para a deputada, o enfrentamento precisa ocorrer também nos campos cultural, político e educacional.
A parlamentar defendeu ainda o Pacto Brasil contra o Feminicídio por institucionalizar a atuação conjunta dos Poderes.
“Essa união dos poderes institucionaliza a ação que nós temos que ter de combate ao feminicídio. Não só ao feminicídio, todas as formas de violência, porque o feminicídio é a última delas”, afirmou.
Audiência reuniu representantes dos três Poderes
Além de Ana Júlia, Luciana Rafagnin, Janja, Márcia Lopes e Gleisi Hoffmann, a mesa contou com a participação da deputada federal Carol Dartora; do ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães; do secretário nacional de Segurança Pública, Francisco Lucas; do desembargador Luiz Osório Moraes Panza; e de Mariana Neris, presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher.
O encontro reuniu ainda parlamentares estaduais e municipais, integrantes do Judiciário, representantes de universidades, movimentos sociais, conselhos e instituições ligadas à rede de proteção às mulheres. Ao final do encontro, Ana Júlia avaliou que a audiência conseguiu combinar o diagnóstico da situação com a discussão de políticas públicas para enfrentar a violência contra as mulheres.
“Foi uma audiência muito positiva e muito propositiva também. Além de conseguir diagnosticar os nossos problemas, também apontou para onde nós precisamos construir as políticas públicas”, afirmou.
No balanço, a deputada defendeu que as políticas desenvolvidas nacionalmente sejam articuladas às ações que podem ser adotadas no Paraná.
Para Ana Júlia, o encontro deve produzir consequências para além da audiência.
Bookmark“Tenho certeza que esse debate, que move o Estado do Paraná, vai trazer muitas oportunidades para a gente combater cada vez mais a violência contra as mulheres e também combater o feminicídio”, concluiu.
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