Brasil no Espelho: estudo da Globo revela um retrato atual do brasileiro
O Brasil no Espelho, estudo da Globo realizado pela Quaest Consultoria e Pesquisa e divulgado na última semana, é o maior já desenvolvido sobre valores e percepções no país. Com 9.994 entrevistas individuais em 26 Estados e no Distrito Federal, a pesquisa revela um retrato complexo do brasileiro: orgulhoso, religioso e apegado à família, mas ainda conservador em questões de gênero, cansado, inseguro e pouco informado sobre a própria realidade.
A família continua sendo o núcleo da vida nacional, agora em formatos mais diversos, mas com papéis de gênero rígidos, uma visão que reforça desigualdades e limita o avanço da igualdade. Para 96% dos entrevistados, a família é o que há de mais importante, e para 80% ela se define por quem se pode contar, não necessariamente pelos parentes. 90% afirmam que o que define o grupo familiar é o amor, independentemente do modelo adotado, e 89% dizem que a família vem primeiro nas decisões.
A religião permanece central na vida dos brasileiros, embora o número de pessoas sem religião cresça, especialmente entre os jovens, revelando tensões entre fé e diversidade. O estudo mostra que 86% da população têm alguma religião, 97% consideram Deus muito importante, 96% acreditam que Deus está no comando da vida dos brasileiros e 86% afirmam que a fé vale mais que a ciência. Mesmo entre os sem religião, que representam 14% do total, 91% dizem ter fé. Mais da metade da população se sente cansada, e 60% não se sentem seguros, o que, em um país com uma das mais baixas taxas de confiança interpessoal do mundo, deixa a família como principal porto seguro.
O estudo revela ainda um paradoxo preocupante: embora 85% dos brasileiros digam ter orgulho do país, 42% não acertaram questão alguma e a média de acertos entre os 4 itens — taxas de desemprego, homicídios, crescimento econômico e número de mortos pela COVID — foi de apenas 0.82, mostrando uma falsa confiança no próprio conhecimento: o chamado efeito Dunning-Kruger, quando pessoas menos informadas superestimam o próprio conhecimento em certos assuntos por conta da própria ignorância.
O orgulho do brasileiro é maior do que o de países geralmente retratados como orgulhosos de seus valores, como os Estados Unidos, onde 78% dos entrevistados demonstram orgulho. No entanto, 59% dos brasileiros não se sentem seguros em suas ruas completamente. O espelho do Brasil mostra, portanto, uma sociedade de paradoxos: diversa, mas resistente à mudança; orgulhosa, mas desinformada; exausta, mas resiliente.
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