Brasil recebeu mais da metade dos escravizados vindos de Angola e da Costa da Mina, revela novo levantamento histórico
Uma nova análise de dados sobre o tráfico transatlântico reforça a dimensão do papel do Brasil na escravidão moderna. Entre 1574 e 1856, mais de 3,1 milhões de africanos desembarcaram em portos brasileiros, metade deles comprados em Angola e na região conhecida como Costa da Mina, área que corresponde hoje a Gana, Togo, Benin e Nigéria.
Só Luanda respondeu por mais de um milhão de pessoas vendidas, enquanto outros 569 mil saíram de portos da faixa litorânea da Mina. Cidades como Benguela e Cabinda também alimentaram o fluxo, consolidando a centralidade angolana no comércio de gente.
Os dados fazem parte do Slave Voyages, banco internacional mantido por universidades americanas, que reúne registros de mais de 36 mil viagens negreiras. Desse total, cerca de 9.700 tiveram o Brasil como destino, trazendo 3,16 milhões de escravizados, número próximo, mas ainda inferior, à estimativa do IBGE, que calcula cerca de 4 milhões de vítimas ao longo dos séculos.
O país se tornou o principal comprador de africanos no Atlântico, inicialmente de forma discreta, no século 16, mas com forte aceleração nos séculos seguintes por causa da expansão açucareira e, mais tarde, das lavouras do Sudeste.
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O auge ocorreu no século 19: em 1829, ano de maior movimento, mais de 71 mil pessoas chegaram forçadas ao território brasileiro. A proximidade de leis que prometiam encerrar o tráfico estimulava a corrida para desembarcar o maior número possível antes das proibições ganharem força.
Historiadores ressaltam que os portos de origem pouco revelam sobre a procedência real desses homens, mulheres e crianças. A maioria vinha de regiões distantes, conectadas por longas rotas internas até os pontos de embarque, o que explica a dificuldade atual de rastrear histórias individuais.
Essa ausência de registros ainda impacta brasileiros que tentam identificar suas raízes, como Leonardo Sant’Ana, que descobriu ter 76% de ancestralidade africana após um teste de DNA.
Os principais pontos de desembarque ficaram no Rio de Janeiro e na Bahia, que juntos absorveram a maior parte do fluxo e receberam, individualmente, mais de 1,2 milhão de africanos trazidos à força. Pernambuco e Maranhão também tiveram papel relevante nesse circuito, formando um corredor de chegada que revela muito sobre a construção histórica do país, e sobre as marcas profundas deixadas por esse processo.
*Com informações da Folha de S. Paulo.
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